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Cairo de novo sob o signo da violência

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Cairo de novo sob o signo da violência

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Depois da violência entre cristãos coptas e muçulmanos que voltou a agitar o Cairo hoje foi dia de enterrar os mortos.

Foram pelo menos 25, os manifestantes vítimas dos confrontos sectários, o pior episódio de violência desde a revolta popular que afastou do poder Hosni Mubarak, em fevereiro último.

Os funerais decorrem na catedral copta no centro do Cairo sob rigorosas medidas de segurança o que não impede as manifestações de dor e revolta.

“O que eu sei é que perdi a confiança e a fé em toda a gente. Não me fale em exército, não me fale em Egito, não me fale em governo nem no que quer que seja. Eu estava lá e fui agredida e pergunto porquê. Os que morreram estão em descanso.

Os distúrbios começaram durante uma manifestação de cristãos coptas, que protestavam contra um incêndio numa igreja.

Os cristãos coptas, a maior comunidade cristã do Médio Oriente, responsabilizaram os fundamentalistas muçulmanos pelo ataque.

Os motins prolongaram-se durante noite, obrigando ao destacamento de um milhar de elementos das forças de segurança e de veículos blindados.

Minoria copta do Egito reivindica direitos

Uma minoria cristã num país de maioria muçulmana. Os coptas, que são os cristãos do Egipto, só representam 6 a 10% da população. Relegados a uma espécie de cidadania de segunda, durante muito tempo refugiaram-se na religião, aceitando o destino com fatalismo.

De novo, em maio passado, 15 pessoas foram assassinadas no Cairo por grupos de muçulmanos que atacaram duas igrejas coptas.

Uma mãe de família queixa-se:

“- Não há segurança nem proteção. Só Deus nos protege. Estão a queimar igrejas, a raptar meninas, a saquear lojas e veículos.”

No primeiro dia de janeiro de 2011, um atentado contra uma Igreja copta em Alexandría matou 23 fieis.

Os coptas culparam o regime de Hosni Mubarak pela falta de proteção contra os ataques orquestrados pelos salafistas.

Durante os dias de ocupação da praça Tahrir, as cenas de confraternização entre muçulmanos e cristãos afastaram o espetro da radicalização das diferenets comunidades no Egipto.

Mas a deceção foi rápida. Tal como fazem os partidos islamistas com o Corão, os coptas começaram a elevar a cruz como símbolo político.

Boutros am Babola, padre copta, testemunha:

“- Depois da revolução de janeiro, tínhamos enormes expectativas, mas infelizmente, os salafistas e os irmãos muçulmanos roubaram a revolução a quem acomeçou para fazer a própria revolta. Agora querem transformar o Egito num Estado religioso tão catastrófico como Afeganistão, o Paquistão e o Irão”

Para além da violência, os coptas são discriminados no acesso à função pública, e a fundação e história desta corrente cristã foi apagada dos manuais escolares, fazendo deles estrangeiros no próprio país.

Um Gamal, cristã copta:

“- Se o chefe de família dissesse aos filhos que não há diferenças entre cristãos e muçulmanos, que somos todos irmãos, podíamos viver em paz, como antigamente. Mas já ninguém diz essas coisas.”

O termo copta significa, simplesmente, egípcio em grego antigo, e a língua copta é a única descendente do antigo Egito.

A Igreja copta foi fundada no princípio do cristianismo, antes das invasões árabes em finais do século VI.