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Será o Dexia apenas a ponta do icebergue?

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Será o Dexia apenas a ponta do icebergue?

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O caso do banco franco-belga Dexia agravou os receios de uma crise bancária à escala europeia.

A França e a Alemanha dizem estar dispostas a fazer o que for necessário para recapitalizar os bancos e garantir a concessão de créditos à economia. O presidente francês prometeu ter o plano delineado até à cimeira do G20, agendada para o próximo dia 3.

Os bancos ainda não participaram nas conversações com os governos sobre as verbas necessárias.

O ministro das Finanças irlandês diz serem necessários, pelo menos, 100 mil milhões de euros para a recapitalização dos bancos. O Fundo Monetário Internacional aponta para 200 mil a 400 mil milhões de euros.

O primeiro-ministro britânico pediu aos parceiros da zona euro para utilizarem uma grande bazuca para combaterem a crise.

Para analisar a situação da banca europeia, entrevistámos o economista francês Marc Touati.

Euronews:
O Dexia é o primeiro grupo bancário europeu de grande dimensão a sucumbir à crise da dívida soberana na zona euro. Outros bancos europeus podem ter o mesmo destino?

Marc Touati:
Por agora, ainda não chegámos a esse ponto. Não se deve dramatizar. Não esqueçamos que a situação do Dexia já tem três anos. Este desmantelamento já deveria ter acontecido há três anos, mas, por razões políticas, evitámo-lo. Portanto, hoje não o podemos continuar a evitar, uma vez que há esse risco excessivo, nomeadamente no que se refere às dívidas soberanas. A partir daí, há duas situações: ou salvamos a zona euro e não haverá efeito dominó ao nível dos bancos europeus, ou deixamos um país como a Grécia entrar em incumprimento ou não reembolsar uma parte da sua dívida pública e aí temos um risco de efeito dominó e o setor bancário francês e europeu está em risco.

Euronews:
Atualmente, as instituições parecem não emprestar dinheiro entre elas com medo de não o voltarem a ver. O sistema bancário pode implodir?

Marc Touati:
O verdadeiro perigo hoje em dia é que temos uma espécie de ciclo infernal, onde a suspeita pesa sobre os bancos e, infelizmente, os dirigentes políticos não conseguem pôr um ponto final. Os dirigentes políticos não dizem se vão ou não salvar a Grécia, se vão ou não salvar a zona euro, e essa incerteza cria tensões no seio dos bancos. Perguntamo-nos qual será o próximo da lista? Mas não se deve também dramatizar. Os balanços dos bancos são muito menos maus do que em 2008. Os riscos são muito menos elevados do que em 2008 e na verdade é aí que está o perigo. Os bancos não assumiram riscos suficientes, o que limita o financiamento da economia.

Euronews:
Depois de meses de negação, alemães e franceses acordaram, este fim-de-semana, a recapitalização dos bancos europeus. É uma boa notícia, senhor Touati?

Marc Touati:
Esperamos decisões concretas há vários meses. Há imensos anúncios, mas nem sempre verdadeiras decisões e é isso que se torna perigoso para os bancos, mas também para a economia da zona euro, porque hoje em dia nós estamos prestes a tocar na recessão. A recessão pode mesmo regressar nos próximos meses e se não permitirmos aos bancos concederem mais crédito, nesse momento, a recessão vai alimentar-se, tornar-se cada vez mais grave. Quem diz recessão, diz défice, mais dívidas públicas e, portanto, o ciclo pernicioso da dívida pública continua, não somente da Grécia mas de toda a zona euro. É aí que o perigo está hoje em dia e é aí que os dirigentes não pegam o touro pelos cornos.

Euronews:
Caminhamos para um contágio da economia real? E um depositante europeu deve inquietar-se com as suas economias?

Marc Touati:
Não, penso que não estamos de todo nesse ponto. Não há risco para as poupanças dos europeus nos bancos da Europa. Claro que se de hoje amanhã a zona euro explodir, teremos dificuldades, mas, felizmente, ainda não estamos aí e espero que evitemos esse cenário catastrófico. Portanto, o risco para as poupanças é limitado. Pelo contrário, há um risco para o crescimento, ou seja, os bancos são já muito cautelosos, muito parcimoniosos na concessão de crédito… Há uma situação difícil de liquidez, nas ações, ou seja, os bancos correm o risco de conceder ainda menos crédito. Ora, se há menos crédito, há menos crescimento e menos empregos. Portanto, mais desemprego, mais défice e é aí que está o verdadeiro perigo hoje em dia.