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Berlusconi resiste e desafia

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Berlusconi resiste e desafia

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Silvio Berlusconi, descontraído e impassível antes de pedir a confiança do Parlamento. Quase parece que, por muitos e complexos, os problemas não afetam o primeiro-ministro italiano. Encontra sempre um modo de desviar as atenções. Em três anos, encarou 51 vezes esta situação. E não desiste.

“Não penso deixar o barco”, disse. “Não penso demitir-me, muito menos neste momento. Não se trata de me agarrar ao poder, mas não há, em Itália, outra alternativa de governo à que nós oferecemos”.

Em qualquer caso, a “alternativa” preferiu deixar as cadeiras vazias, cansada das evasivas de um chefe de governo em fim de carreira política.

Até agora, Berlusconi soube evitar os processos e esquivar-se às adversidades. Mas aos 75 anos começa a acusar algum cansaço. A coligação que lidera não é a sombra do que foi. E tem inimigos fora e dentro de casa.

Os desentendimentos com o ministro da Economia não são segredo, apesar de Giulio Tremonti ser, provavelmente, o único valor seguro deste governo.

A popularidade do primeiro-ministro está em baixa. Os indignados manifestam-se, há dias, na praça da República. Os italianos estão revoltados como nunca e acham que as medidas de austeridade e a má gestão do governo são demais .

A Itália afunda-se nos mercados devido a uma dívida colosal de quase dois mil milhões de euros. Ou seja, 120% do PIB nacional. O défice atinge 4%. O crescimento está estagnado. E o desemprego chega aos 9%, e aos 25 % na população jovem.

Há 10 anos, a Itália era uma das primeiras economias da Europa. Hoje estremece A reputação de Berlusconi não ajuda a saldar as contas e os investidores retraiem-se, por não acreditar que o governo possa tirar o país da crise, com um primeiro-ministro envolvido em escândalos. É o fim de uma era que se adivinha cinzenta em 2013… apesar dos sorrisos

O Governo Berlusconi obteve a confiança pela 51ª vez, mas continua dividido e com um líder fragilizado por escândalos e processos judiciais.

Quais são as consequências para a Itália, que se confronta com a crise económica, a especulação financeira e deve fazer reformas? Foi o que a jornalista Manuela Scarpellini perguntou a Sergio Romano, diplomata, historiador e editor do Corriere della Sera.

Euronews – O Governo obteve a confiança, mas à justa. Como é que ele poderá continuar daqui para a frente?

Sergio Romano – Antes de tudo, não foi à justa. 316 era exatamente o objetivo que Berlusconi tinha traçado. Isso representa um bom resultado. O Governo continua a ter uma maioria, mas o problema é que no interior do Governo há uma corrente bastante importante que começa a duvidar de Berlusconi e que começa a pensar que o seu futuro com Berlusconi é incerto. Este voto de confiança não significa uma estabilidade de duração indeterminada.

E – Berlusconi obteve a confiança da Câmara, mas terá ele a confiança dos mercados?

SR – Não há muita racionalidade nos mercados. Não devemos esperar dos mercados reações racionais. Devemos antes perguntar o que é que pode acontecer no dia em que Berlusconi deve cair. Mesmo nesse caso, provavelmente, os mercados teriam uma reação de perplexidade e ceticismo. Eles começarão a pensar de novo que a Itália está em crise. Não, o problema é fundamentalmente italiano. Não é um problema de mercados sobre os quais temos uma influência limitada.

E – De um ponto de vista europeu e mundial, este voto dá mais credibilidade à Itália?

SR – A Europa deve lidar com aqueles que dirigem a Itália neste momento particular. Se não tivéssemos mais Berlusconi, isso reforçaria provavelmente a credibilidade da Itália, porque isso representa, sem nenhuma dúvida, um problema e eu penso que a maioria dos italianos está consciente.

E – Este voto chegará para tranquilizar a Itália e permitir-lhe encarar os grandes desafios com que se confronta?

SR – Creio que Berlusconi pensa em eleições antecipadas na próxima primavera. Não devemos esquecer, algo que talvez seja difícil de entender fora de Itália, que nós temos um referendo em curso para acabar com a lei eleitoral atual que agrada a Berlusconi e Bossi, pois ela permite-lhes controlar os seus partidos. Se o Tribunal Constitucional italiano decide que esse referendo se pode realizar, Berlusconi não tem outras soluções, outras alternativas que o recurso a eleições antecipadas, porque ele prefere ir às urnas com essa lei do que esperar que a lei atual seja revogada.