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Indecisão dos líderes alimenta eurocepticismo

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Indecisão dos líderes alimenta eurocepticismo

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O potencial contágio do resto da Zona Euro pela situação da Grécia continua a causar pânico nos mercados financeiros mundiais. A ausência de uma solução de longo prazo pode custar um preço muito alto. Há quem tema que seja o fim da moeda única ou, no pior cenário, o fim do próprio projecto europeu.

As vozes mais cépticas dentro da União Europeia (UE) opõem-se fortemente aos apelos de maior integração por parte de várias instituições comunitárias, de alguns estados-membros e partidos políticos. Já de si descontentes com a actual união política e económica, os chamados eurocépticos consideram impensável dar mais poder a Bruxelas.

“Vivemos uma confusão dos diabos e prevejo que vá ficar muito pior. Mas volto a apelar ao senhor Barroso para, por favor, tirar a Grécia desta prisão económica, ou poderá desencadear-se uma revolução. O meu receio é que, no dia seguinte à falência da Grécia, se vá a uma caixa de multibanco e não haja dinheiro. Que depois disso, não haja pão nas padarias. Não termos um plano de contingência, um plano B, é de uma absoluta irrespondabilidade”, disse à Euronews Nigel Farrage, eurodeputado britânico do grupo político Europa da Liberdade e da Democracia.

Alguns eurocépticos insistem que o euro está a caminho de uma morte lenta e que se deve pôr fim à moeda única, mas nem todos os eurodeputados que integram o mesmo grupo vão tão longe.

“Face ao ponto a que o meu país chegou, já não há saída e caso haja uma alternativa, desafio quem quer que seja a dizê-lo. Como eurodeputada, devo dizer que nos falta uma liderança europeia corajosa, rápida, decidida. Continuam a adiar e cada adiamento custa muito dinheiro à Grécia”, disse Niki Tzavela, eurodeputada grega do grupo Europa da Liberdade e da Democracia.

Outros eurocéptico, como Morten Messerschmit, colocam a tónica na resistência popular a maior entrega de poderes às instituições comunitárias, com perda de soberania dos estados-membros.

“Actualmente enfrentamos um dilema: ou seguimos por um caminho, de controlo apertado das questões económicas por parte de Bruxelas, ou vamos pelo outro caminho, em que deixamos os estados-membros decidirem por si próprios. Bruxelas escolheu um caminho, mas o problema é que os povos recusaram esse caminho”, disse à Euronews o eurodeputado dinamarquês.

Reacender a chama da UE

Para refletir sobre o impacto que o eurocepticismo está a ter sobre os esforços para resolver a crise da dívida da Europa, o correspondente da Euronews Paul Hackett entrevistou Edward McMillan-Scott, vice-presidente do Parlamento Europeu.

euronews: “Quando observa o estado de espírito do público na Grã-Bretanha e noutros pontos da Europa, não fica claro que muito desse sentimento decorre do facto das pessoas não reconhecerem aquilo em que a União Europeia se transformou?”

Edward McMillan-Scott (EMS):
‘‘É uma queixa frequente no Reino Unido dizer-se que nos juntá-mos a um mercado comum e agora temos uma união política. Mas a verdade é que quando associámos ao mercado comum, sabíamos que o objetivo era uma cada vez maior união dos povos da Europa. Logo, o objetivo estava claro desde o início.’‘

euronews:
“Muitas pessoas, sobretudo eurocépticos, sentem que foram enganados face ao que era o projecto europeu inicial. Não concorda?”

Edward McMillan-Scott:
‘‘De facto, podem dizer isso. Mas quando olho para o meu país, sei que 3,5 milhões de empregos dependem da nossa relação com a Europa, que mais de 50% do comércio britânico é com o resto da União Europeia . O que é vamos fazer sem isso? Uma enorme quantidade de investimento estrangeiro direto no Reino Unido está diretamente ligado ao facto de que o país faz parte do mercado único. Estas realidades aplicam-se a praticamente a todos os países europeus.’‘

euronews:
‘‘Este eurocepticismo parece estar a aumentar em toda a Europa. Tal não se deve à falta de liderança demonstrada pelas pessoas que podem decidir os assuntos na Europa?’‘

Edward McMillan-Scott:
‘‘Nas eleições europeias de 2009 – que podem ser vistas como uma sondagem de opinião pan-europeia -, vimos que em dez países a vitória foi para a direita, ou mesmo para a extrema-direita. Desde essa altura foi ainda mais longe, com mais vitórias. E vemos figuras como Geert Wilders na Holanda, as atividades da extrema direita da Hungria e como a Frente Nacional se torna numa grande força política na França. É muito preocupante. Não sei se deva atribuir isto apenas aos avanços da centro-direita. Deve ser atribuído a vários aspetos, incluindo o desastre económico que começou em 2008.’‘

euronews:
“O que devem fazer os líderes para travar isso?”

Edward McMillan-Scott:
“Penso que temos que reapresentar a União Europeia. Se não existisse já, teria de ser criada. Temos de reconhecer que, por exemplo, o euro levou à criação de cerca de 14 milhões de empregos, que manteve a inflação em cerca de 2%durante quase 10 anos. Mas, no que respeita ao meu próprio país, o Reino Unido, temos que ver que está a ser inundado de propaganda de organizações como a Europa Aberta, Aliança dos Contribuintes, Negócios com a Libra, etc, altamente financiadas. E pela comunicação social, que está cada vez mais ao lado dos eurocépticos”.

euronews:
“Quão otimista está de que os líderes da Europa vão apresentar um plano credível para resolver a atual crise?”

Edward McMillan-Scott:
“Eu sou um otimista e penso que o resultado desta crise é que a União Europeia será mais eficaz, que o euro será mais estável, que os governos individuais – que, afinal de contas, são responsáveis ​​pela crise – serão mais transparentes e que vão agir de acordo com as regras que eles próprios estabelecem e aceitam. E que, o Parlamento Europeu se envolverá muito mais no controlo e vigilância da Zona Euro e da governação económica que, creio, está a emergir. Como pró-europeu de longa data, na verdade estou desanimado com a crise atual, mas optimista pelo facto de que criaremos algo novo, interessante e mais estável para a segurança e a prosperidade deste continente.’‘