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Análise dos resultados da cimeira da UE

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Análise dos resultados da cimeira da UE

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Os líderes europeus aprovaram o reforço do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e a recapitalização da banca, que decorre de um perdão de cerca de 50% da dívida grega detida por privados.

Os bancos acabaram por aceitar abater 106 mil milhões de euros dos empréstimos à Grécia, em troca de garantias de 30 mil milhões de euros fornecidos pelo fundo europeu.

Os bancos portugueses são os quintos com maiores necessidades de capital. Vão ser obrigados a aumentar o capital em 7,8 mil milhões de euros até Junho de 2012.

Para atingir um rácio de capital ‘core tier 1’ de 9 por cento, os bancos europeus vão procurar reduzir a concessão de empréstimos e os ativos e vão prosseguir com o aumento de capital e o uso de fundos estatais. Isto significa que há o risco de acelerar a recessão devido ao decréscimo dos empréstimos, apesar de a União Europeia pedir o contrário.

A Euronews discutiu o plano acordado pelos líderes europeus com Trevor Williams, economista-chefe do LLoyds TSB Corporate Markets.

Euronews: Esta cimeira foi a 14ª em quase dois anos desde que a Europa prometeu solidariedade à Grécia. Será que o resultado correspondeu às expectativas dos mercados?

Trevor Williams: Pelos resultados iniciais, com as bolsas e o euro em alta, podemos dizer que sim. Dadas as expectativas que havia, a reação dos mercados parece sugerir que eles estão satisfeitos com o que ouviram até agora. Mas há uma objeção: se o que ficou para definir em novembro e dezembro ou depois vai corresponder também a essas expectativas.

E: Os mercados foram pressionados a abater 50% da dívida grega, sob a ameaça de um cenário de insolvência total da Grécia. A isto chamou-se “perdas voluntárias”. Aos bancos está também a pedir-se para reforçarem o capital e para aumentarem as reservas. Há alguma boa notícia para os bancos?

TW: Bem, parece-me muito difícil encontrar alguma, mas se houve alguma foi numa declaração que acompanhou a declaração global, que diz algo como que isto é temporário, que as almofadas de capital adicional exigidas seriam vistas como excecionais e que uma vez que as circunstâncias que as exigiram desapareçam ou sejam atenuadas, essas almofadas de capital podem ser reduzidas. E nessa medida há alguma coisa para os bancos, mas acima de tudo parece-me muito difícil encontrar algo que seja uma notícia positiva sob uma perspetiva bancária na Europa como um todo.

E: A posição económica da Europa pode apenas recuperar e a crise da dívida soberana pode apenas ser eventualmente resolvida através do crescimento económico. A União Europeia criou condições para isso, dadas as novas restrições aos bancos?

TW: Uma resposta curta tem de ser não. A questão que foi tratada pela cimeira de líderes da União Europeia foi sobre como reduzir o possível contágio de qualquer incumprimento grego e isto foi feito, principalmente, para garantir que os bancos tenham capital suficiente disponível. Isso não alterou a equação económica, não abordou as questões mais fundamentais à volta da competitividade dos países da União Europeia e, claro, que não fez nada em relação às tendências atuais do crescimento na Europa, que apontam para alguma fraqueza na parte final deste ano e, possivelmente, na primeira parte do próximo ano e, penso eu, um potencial trimestre de contração.

E: A gigante petrolífera Shell anunciou que está a planear reduzir os seus investimentos na União Europeia, por causa de dúvidas sobre as hipóteses de recuperação da região. É uma opinião isolada ou vai tornar-se numa política corporativa comum?

TW: Penso que, claramente, algumas empresas estão a olhar mais para o perfil de crescimento europeu em comparação com o de outras partes do mundo, incluindo os Estados Unidos e os mercados emergentes. Há imenso pessimismo sobre a competitividade da Europa como um todo e sobre se as questões que mantêm o crescimento fraco foram, de facto, tratadas. E essas questões são bastante claras para toda a gente. É sobre regulação, sobre o estado do setor bancário, é sobre se os Estados Unidos estão a falar a sério ou não sobre a redução da carga fiscal sobre as empresas, e ajudar a encorajar o crescimento com esse tipo de políticas e este comunicado não fez nada acerca disso.