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"A única forma de sairmos da crise financeira (...) é reinventando a nossa economia global", Kumi Naidoo", Greenpeace

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"A única forma de sairmos da crise financeira (...) é reinventando a nossa economia global", Kumi Naidoo", Greenpeace

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Euronews:

Quase 200 líderes mundiais vão encontrar-se em Durban, na África do Sul, para discutir os desafios das mudanças climáticas. O futuro do Protocolo de Quioto, o financiamento do Fundo Verde Climático e as perspetivas para uma economia verde são alguns dos tópicos que vão estar na ordem do dia. Connosco temos Kumi Naidoo, diretor executivo da Greenpeace Internacional. Há alguma indiferença política em relação aos desafios que nos trazem as alterações climáticas. Como é que Durban pode chamar a atenção para o problema?

Kumi Naidoo, Greenpeace Internacional:

A única forma de sairmos da crise financeira atual é recriando e reinventando a nossa economia global para que ela avance. Parte da solução passa por investir, de facto e seriamente, na economia verde que tem potencial para fazer crescer as nossas economias mas, mais importante, gerar milhões de novos postos de trabalhos numa nova economia verde. Por isso penso que, neste momento, há falta de visão por parte dos líderes políticos.

Euronews:

O Protocolo de Quioto, que expira em 2012, poderá estender-se até 2015. Isso está a ser discutido e há pressão por parte da União Europeia, Austrália e Noruega. Acredita que em Durban serão dados passos importantes para manter o Protocolo de Quioto até conseguirmos um novo tratado global?

Kumi Naidoo:

O Protocolo de Quioto é um compromisso feito pelos países desenvolvidos, tendo em mente que foram os mesmos que contribuíram, de facto, para esta crise climática histórica. Sabendo que este é o único acordo legal existente, é extremamente importante que asseguremos que Durban não dita o fim do Protocolo de Quioto. Ficou acordado, em Cancún, que haverá um segundo período de compromisso e, na realidade, não deve haver um corte entre o primeiro e o segundo compromisso. Esperamos que Durban preencha esse espaço. O que os países que estão a pensar matar o Protocolo de Quioto têm que perceber é que há muito mais coisas em jogo para além das negociações sobre o clima, porque se Quioto morre, em Durban, haverá uma viragem para o multilateralismo dentro do sistema da ONU.

Euronews:

Ouvimos o Japão, o Canadá e a Rússia dizerem que a China e a Índia têm que se comprometer mais porque estão a poluir mais, estão a crescer mais rápido. Por seu lado, estes dizem que talvez os Estados Unidos também se devessem comprometer mais. Há uma divisão entre norte e sul, entre países desenvolvidos e economias emergentes, que estão em fases distintas. Como é que podemos fazer a ponte entre as duas posições?

Kumi Naidoo:

Vivemos num mundo com divisões a mais entre norte e sul, este e oeste, desenvolvidos e em desenvolvimento. As alterações climáticas levam-nos a uma conclusão clara: temos que agir da forma certa, os países ricos e pobres têm que agir em conjunto, por muito que as mudanças a fazer sejam desafiadoras e dolorosas, é preciso fazer as coisas da forma certa para protegermos as nossas crianças e netos, as gerações futuras. Se agirmos da forma errada, é verdade que os países pobres são os que vão pagar primeiro o preço e de forma brutal, como resultado do impacto das alterações climáticas, mas no final o impacto será sentido em todo o mundo. O desafio é ver os países erguerem-se acima do bairrismo e dos interesses nacionais e reconhecerem que, no final, é do interesse de todas as nações agir decisiva e rapidamente – porque o tempo passa depressa – para evitar alterações climáticas catastróficas.

Euronews:

Mas, para lá da vontade política há também a questão do dinheiro. A União Europeia diz que já mobilizou 6 mil milhões de dólares dos 30 mil milhões do Fundo Verde. E falamos apenas até 2012. Esta verba é suficiente? Que passos deveriam ser dados em termos de financiamento, talvez o investimento privado também, no futuro?

Kumi Naidoo:

Há muitas pessoas que dizem que se os governos, principalmente dos países ricos, puderam mobilizar, virtualmente, do dia para a noite, não milhões, mas biliões de dólares para salvar os bancos e os banqueiros da bancarrota, deveriam puder agora, se tivessem vontade política, usar uma fração desse dinheiro e assumir os 100 mil milhões de dólares acordados em Copenhaga, para 2020, para ajudar os países pobres na sua adaptação. No G20, as organizações da sociedade civis, como a Greenpeace e outras, apresentaram propostas de financiamento construtivas. Falámos num imposto sobre as transações financeiras – que poderia gerar perto de 50, 60 mil milhões por ano – se houvesse interesse político em fazê-lo, em movimentar moeda corrente para lá das fronteiras. E este imposto não só geraria financiamento para o Fundo Verde como também ajudaria a solucionar esta crise financeira que estamos a viver porque seria uma forma de prevenção contra a especulação que acontece através das instituições financeiras.

Euronews:

Também têm havido negociações sobre esta economia verde, para impulsionar o crescimento e criar postos de trabalhos. Pode dar alguns exemplos de áreas e projetos que poderiam, desde já, ser um impulso e um sinal de confiança para as pessoas?

Kumi Naidoo:

Assistimos a um grande aumento do investimento em energias renováveis, vemos cada vez mais empregos verdes a serem criados. Na Alemanha, por exemplo, o nuclear – que felizmente está a ser descartado – gera 30 mil empregos. Mas o setor da energia renovável, aparentemente ganha porque, sem os mesmos subsídios, está a gerar 300 mil empregos. Os países que ganharão, no futuro, são os estiverem à frente na curva económica verde. Como dizem algumas pessoas: esqueçam a corrida ao armamento, a corrida espacial, a única coisa que interessa no futuro é saber que país ganha a corrida verde.

Euronews:

Kumi Naidoo muito obrigada. Obrigada por estar presente na Euronews que vai acompanhar a Conferência de Durban onde os políticos e a sociedade civil vão discutir o futuro da economia e o futuro do planeta.

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Isabel Marques da Silva/Euronews

0’08’‘ (IMS/Euronews):

“Quase 200 líderes mundiais vão encontrar-se em Durban, na África do Sul, para discutir os desafios das mudanças climáticas. O futuro do Protocolo de Kyoto, o financiamento do Fundo Verde Climático e as perspectivas para uma economia verde são alguns dos tópicos que vão estar na ordem do dia. Conosco temos Kumi Naidoo, diretor executivo da Greenpeace Internacional. Obrigada por aceitar o convite da Euronews. Há alguma indiferença política em relação aos desafios que nos trazem as alterações climáticas. Como é que Durban pode chamar a atenção para o problema?”

0’40’‘ Kumi Naidoo/Greenpeace International:

“A única forma de sairmos da crise financeira atual é recriando e reinventando a nossa economia global para que ela avance. Parte da solução passa por investir, de facto e seriamente, na economia verde que tem potencial para fazer crescer as nossas economias mas, mais importante, gerar milhões de novos postos de trabalhos numa nova economia verde. Por isso penso que, neste momento, há falta de visão por parte dos líderes políticos.”

1’10’‘ (IMS/Euronews):

“O Protocolo de Kyoto, que expira em 2012, poderá extender-se até 2015. Isso está a ser discutido e há pressão por parte da União Europeia, Austrália e Noruega. Acredita que em Durban serão dados passos importantes para manter o Protocolo de Kyoto até conseguirmos um novo tratado global?”

1’32’‘ (KN/GI):

“O Protocolo de Kyoto é um compromisso feito pelos países desenvolvidos, tendo em mente que foram os mesmos que contribuíram, de facto, para esta crise climática histórica. Sabendo que este é o único acordo legal existente, é extremamente importante que asseguremos que Durban não dita o fim do Protocolo de Kyoto. Ficou acordado, em Cancún, que haverá um segundo período de compromisso e, na realidade, não deve haver um corte entre o primeiro e o segundo compromisso. Esperamos que Durban preencha esse espaço. O que os países que estão a pensar matar o Protocolo de Kyoto têm que perceber é que há muito mais coisas em jogo para além das negociações sobre o clima, porque se Kyoto morre em Durban haverá uma viragem para o multilateralismo dentro do sistema da ONU.”

2’29’‘ (IMS/Euronews):

“Ouvimos o Japão, o Canadá e a Rússia dizerem que a China e a Índia têm que se comprometer mais porque estão a poluir mais, estão a crescer mais rápido. Por seu lado, estes dizem que talvez os Estados Unidos também se devessem comprometer mais. Há uma divisão entre norte e sul, entre países desenvolvidos e economias emergentes que estão em fases distintas. Como é que podemos fazer a ponte entre as duas posições?”

2’53’‘ (KN/GI):

“Vivemos num mundo com divisões a mais entre norte e sul, este e oeste, desenvolvidos e em desenvolvimento. As alterações climáticas levam-nos a uma conclusão clara: temos que agir da forma certa, os países ricos e pobres têm que agir em conjunto, por muito que as mudanças a fazer sejam desafiadoras e dolorosas, temos de fazer as coisas da forma certa para protegermos as nossas crianças e netos, as gerações futuras. Se agirmos da forma errada é verdade que os países pobres são os que vão pagar primeiro o preço e de forma brutal como resultado do impacto das alterações climáticas, mas no final o impacto será sentido em todo o mundo. O desafio é ver os países erguerem-se

acima do bairrismo e dos interesses nacionais e reconhecerem que, no final, é do interesse de todas as nações agir decisiva e rapidamente – porque o tempo passa depressa – para evitar alterações climáticas catastróficas.”

3’49’‘ (IMS/Euronews):

“Mas, para lá da vontade política, há também a questão do dinheiro. A União Europeia diz que já mobilizou 6 mil milhões de dólares dos 30 mil milhões do Fundo Verde. E falamos apenas até 2012. Esta verba é suficiente? Que passos deveriam ser dados em termos de financiamento, talvez o investimento privado também, no futuro?”

4’14’‘ (KN/GI):

“Há muitas pessoas que dizem que se os governos, principalmente dos países ricos, puderam mobilizar, virtualmente, do dia para a noite, não milhões as biliões de dólares para salvar os bancos e os banqueiros da bancarrota, deveriam puder agora, se tivessem vontade política, usar uma fração desse dinheiro e assumir os 100 mil milhões de dólares acordados em Copenhaga, para 2020, para ajudar os países pobres na sua adaptação. No G20, as organizações da sociedade civis, como a Greenpeace e outras, apresentaram propostas de financiamento construtivas. Falámos num imposto sobre as transações financeiras – que poderia gerar perto de 50, 60 mil milhões por ano – se houvesse interesse político em fazê-lo, em movimentar moeda corrente para lá das fronteiras. E este imposto não só geraria financiamento para o Fundo Verde como também ajudaria a solucionar esta crise financeira que estamos a viver porque seria uma forma de prevenção contra a especulação que acontece através das instituições financeiras.”

5’22’‘ (IMS/Euronews):

“Também têm havido negociações sobre esta economia verde, para impulsionar o crescimento e criar postos de trabalhos. Pode dar alguns exemplos de áreas e projetos que poderiam, desde já, ser um impulso e um sinal de confiança para as pessoas?”

5’37’‘ (KN/GI):

“Assistimos a um grande aumento do investimento em energias renováveis, vemos cada vez mais empregos verdes a serem criados. Na Alemanha, por exemplo, o nuclear – que felizmente está a ser descartado – gera 30 mil empregos. Mas o setor da energia renovável, aparentemente ganha porque, sem os mesmos subsídios, está a gerar 300 mil empregos. Os países que ganharão no futuro são os estiverem à frente na curva económica verde. Como dizem algumas pessoas: esqueçam a corrida ao armamento, a corrida espacial, a única coisa que interessa no futuro é saber que país ganha a corrida verde.”

6’17’‘ (IMS/Euronews):

“Kumi Naidoo muito obrigada. Obrigada por estar presente na Euronews que vai acompanhar o Conferência de Durban onde ps políticos e a sociedade civil vão discutir o futuro da economia e o futuro do planeta.”

6’30’‘