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Pode a Alemanha salvar o euro?

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Pode a Alemanha salvar o euro?

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Sozinha contra todos, Angela Merkel teima em bloquear o reforço do papel do Banco Central Europeu para fazer face à crise e opõe-se às obrigações europeias. A Alemanha exige a alteração dos tratados europeus para reforçar a disciplina orçamental na zona euro.

Os europeus precisam da Alemanha, a principal economia, para salvar a moeda única. Mas a posição intransigente de Berlim é o resultado de questões internas.

Angela Merkel tem pouca margem de manobra. Depende dos liberais para manter a coligação governamental, além disso o Bundesrat e o Tribunal Constitucional têm grande poder de influência na política.

Há depois as questões de popularidade. A posição intransigente de Merkel vale-lhe o apoio da CDU e da grande maioria dos alemães. Uma mudança colocaria Merkel em perigo no seio do partido e iria favorecer a oposição.

Mas poderá a Alemanha salvar o euro?

Com Angela Merkel num beco político, a Berlim chegam cada vez mais pedidos e pressões.

O chefe da diplomacia polaca, Radoslaw Sikorski, é apenas uma das vozes europeias a favor da intervenção da Alemanha: “Hoje, a maior ameaça para a segurança e prosperidade da Polónia seria o colapso da eurozona. Peço à Alemanha que, pela vossa saúde e pela nossa, ajudem a zona euro a sobreviver e a prosperar. Sabem perfeitamente que mais ninguém o pode fazer”.

Para abordar o papel de “Salvador” da Alemanha falamos com Claudia Kade, correspondente do Financial Times Deutschland, em Berlim.

Stefan Grobe, euronews: Acompanha diariamente a chancelaria. A pressão sobre Angela Merkel por parte dos parceiros europeus e do mercado é cada vez maior. Vimos que Merkel já disse muitas vezes não e depois a posição foi-se suavizando até dizer sim. Será que vai acontecer o mesmo com as obrigações europeias?

Claudia Kade: Penso que é muito provável. A única questão é saber quando é que vai desistir. Merkel avançou sozinha para um beco sem saída. Na cimeira da próxima semana quer que os parceiros europeus endureçam as regras de austeridade e aceitem alterar os tratados. Para obter um acordo, terá de fazer concessões. Os outros países querem a criação de obrigações europeias ou o uso dos fundos ilimitados do BCE para salvar o euro.

euronews: Até que ponto os alemães apoiam a posição de Angela Merkel? Tem apoio suficiente da população e do governo?

C. Kade: Sim, até agora tem esse apoio. A taxa de popularidade tem vindo a subir desde o Verão. Tenho a impressão que está determinada a ser mais assertiva e aceitar um papel de liderança da Europa, algo que hesitou a assumir durante muito tempo. Mas o apoio que tem depende da sua forte posição face à crise. Tudo pode mudar rapidamente se ela ceder nas euro obrigações ou sobre o uso ilimitado dos fundos do BCE. Os apoios popular e do governo podem evaporar-se rapidamente.

euronews: Por falar em coligação. Os liberais, parceiros menores mas cruciais de Merkel, organizaram um referendo partidário, em meados de dezembro, sobre a estratégia de Merkel para resgatar o euro. O que acontece se a maioria for contra? Os liberais vão abandonar o governo? O que acontecerá então?

C. Kade: É um grande risco, de facto, que Merkel está a assumir. Por isso é que a cimeira da próxima semana será tão difícil para ela, porque tem consciência de que a coligação pode acabar e os membros do Partido Liberal rejeitarem a sua política para o euro. O presidente dos liberais, Philipp Rösler, já disse que vai respeitar a decisão dos membros do partido. Caso ganhe o não, ele não pode continuar a fazer parte do governo. Na chancelaria começa-se a desenvolver estratégias para um tal cenário. Uma das hipóteses é formar um governo de unidade nacional que englobe todos os partidos. As decisões poderão então ser tomadas caso a caso. Merkel tenta também evitar eleições antecipadas já que as sondagens apontam para uma vitória dos sociais-democratas e dos verdes. Por isso, Merkel rejeita a ideia de eleições antecipadas.

euronews: É evidente que, neste momento, todos os governos europeus têm uma margem de manobra reduzida. Um chanceler social-democrata poderia agir de forma diferente?

C. Kade: É uma questão interessante. Um chanceler social-democrata iria agir de forma muito diferente. Talvez tivesse ajudado a Grécia mais cedo e não teria hesitado na provisão de fundos, como fez Merkel. Mas entretanto, mesmo nas fileiras sociais-democratas, há muitos que se opõem também às obrigações europeias. É preciso recordar que o fundo de resgate europeu foi adotado no Bundestag também com o voto dos sociais-democratas. Por isso, no final, não há grandes diferenças entre os cristãos-democratas e os sociais-democratas sobre este tema.