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Acordo europeu não satisfaz investidores

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Acordo europeu não satisfaz investidores

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O acordo obtido na cimeira europeia não tranquilizou os mercados. As bolsas do Velho Continente registaram esta segunda-feira fortes quedas. Milão foi o índice mais penalizado, com uma queda de quase quatro por cento, seguida de Madrid. Lisboa perdeu mais de dois por cento.

Os investidores estão convencidos de que o acordo não basta para resolver a crise e interrogam-se sobre a implementação do novo tratado.

O analista Justin Urquhart Stewart, do Seven Investment Management, garante que há muitas perguntas por responder e a primeira é “se todos os membros da zona euro serão capazes de implementar as regras e cumpri-las. Os mercados estão a dizer que talvez não.

O nervosismo é fomentado também pelo papel do BCE. O Banco Central Europeu vai continuar a intervir de forma limitada no mercado secundário. Não haverá a “grande bazuca” e os europeus preferiram abrir a porta à ação do FMI.

Dececionadas estão também as agências de notação que ameaçam baixar as notas dos países europeus.

A euronews falou com Caroline Newhouse, economista do BNP Paribas, em Paris, para perceber as razões do nervosismo dos mercados.

Annibale Fracasso, euronews: A cimeira europeia em Bruxelas parece insuficiente para acalmar as tensões financeiras que fragilizam a zona euro há quase dois anos. O fim do túnel desta crise ainda está longe?

Caroline Newhouse: Não sei se podemos dizer que estamos longe do fim da crise. Mas os mercados ficaram dececionados com as conclusões da cimeira. No entanto, há dois pontos que constituem avanços muito importantes. Por um lado, haverá uma reforma dos tratados para impor mais disciplina orçamental na zona euro e por outro lado a disciplina orçamental será feita com uma maior solidariedade entre os países da zona euro.

euronews: Fala de solidariedade, mas a decisão do Reino Unido de se manter fora do processo deixa sem resposta um grande número de questões relativas Ao futuro do euro como moeda de referência. Dois terços das transações financeiras mundiais rumo à Europa passam pela bolsa de Londres.

C. Newhouse: É verdade que o Reino Unido chegou à mesa das negociações com exigências que eram particularmente importantes, por exemplo, para impedir que a praça londrina seja “offshore”. Quando se lê a imprensa britânica, mesmo se os eurocéticos estão contentes com a postura de David Cameron, parece que a praça financeira britânica está também preocupada com o que foi decidido, pois exclui o Reino Unido do avanço no qual se lança a zona euro e a União Europeia.

euronews: A Moody’s deitou um balde de água fria sobre os mercados, ao considerar que a cimeira deixa a zona euro exposta a novos choques. A agência anuncia que vai rever as notas dos países da União Europeia no início de dois mil e doze. Mas o problema poderá vir da Standard&Poor’s que ameaça baixar a nota de muitos países, incluindo França e Alemanha.

C. Newhouse: De qualquer maneira, para finalizar o tratado intergovernamental serão necessários três meses e creio que as incertezas serão mais fortes durante este período. Depois será necessário confiar em cada governo para que ele mude, minimamente, a constituição para introduzir a famosa “regra de ouro”, sem passar por um referendo mas por um voto direto dos respetivos parlamentos.

euronews: Mas acredita que é possível neste contexto, quando os países estão numa fase de grande austeridade e com muitos problemas sociais?

C. Newhouse: O que fariam países como Grécia, Itália, Espanha ou Portugal se a zona euro se desmoronasse? Faria sentido voltarem às respetivas moedas dez anos depois? Iriam enfrentar a desvalorização das moedas, a inflação, a perda de competitividade e depois teríamos um núcleo duro que iria permanecer na zona euro. Ninguém tem interesse nisto. Somos obrigados a avançar, de avançar para uma mutualização das dívidas e para um federalismo económico e político.

euronews: A cimeira não respondeu à principal questão: o papel do Banco Central Europeu. Orientaram-se para um papel mais importante do FMI, enquanto o BCE continua posto de lado da resolução da crise.

C. Newhouse: Mario Draghi deu uma nova orientação à política monetária depois de Jean-Claude Trichet. Ele implica o Banco Central Europeu enquanto credor de último recurso dos bancos e acredito que isso ficou demonstrado com as decisões tomadas na reunião do BCE na passada quinta-feira. Mas o Banco Central Europeu não será o credor de último recurso dos Estados.