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Gesto da S&P sem consequências imediatas

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Gesto da S&P sem consequências imediatas

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A degradação da nota da dívida de vários países da Zona Euro, por parte da Standard & Poors, está a dar que falar, mas as ondas de choque são bastante limitadas, já que a medida, sobretudo em casos como o da França, era já prevista pelos analistas.

A perda do triplo A francês está a ser aproveitada politicamente e a causar embaraços ao presidente Sarkozy, a poucos meses das eleições.

Além da França, outros países sofreram degradações da nota da dívida. O caso mais grave é o de Portugal, a quem a S&P cortou dois níveis, para BB, dentro do que é considerado “lixo”. As notas de Espanha e Itália foram também baixadas em dois níveis.

A decisão foi considerada, por alguns analistas, como um erro por parte da agência norte-americana. Para já, os mercados reagem com alguma prudência.

Para o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, o importante não é agradar aos investidores, mas sim levar a cabo as medidas necessárias: “As coisas não mudaram muito, temos que continuar com o essencial, não nos deixarmos distrair pelas agências de notação e questões como o triplo A ou o duplo A. Temos simplesmente de fazer o que deve ser feito. Um dos problemas é que, ao reagir tarde, ao querer agradar aos mercados o tempo todo, em vez de tomar as medidas necessárias, estamos de alguma forma a perseguir-nos a nós próprios”.

O corte por parte da S&P pode vir a ter efeitos no Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), criado pelos países da União Europeia para ajudar os países em dificuldade, já que a França é o segundo maior contribuinte para este fundo, depois da Alemanha, o que significa que o fundo pode agora vir a ter de pagar taxas de juro mais altas, o que o obriga a emprestar também a juros mais elevados.

O Banco Central Europeu já tomou medidas para evitar as consequências nefastas, ao emprestar 489 mil milhões de euros aos bancos, dinheiro que vai ser usado, em parte, para comprar dívida dos países.

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Marc Touati: “Há muito tempo que a França não merecia o triplo A”
 
 
 
Marc Touati, diretor de estudos económicos da Assya Compagnie Financière, comentou para a euronews os efeitos da degradação, por parte da Standard & Poors, da nota da dívida de vários países da Zona Euro.
 
 
Antoine Juillard, euronews: A degradação da nota de crédito de nove países da Zona Euro faz aumentar o fosso entre os bons e os mais alunos e a classe política é unânime ao dizer que este não era o momento certo para tomar uma decisão destas. Esta nova degradação coloca em risco os esforços para sair da crise?
 
 
Marc Touati: Há muito tempo que a França deveria ter sido degradada, porque há muito tempo que não merecemos o triplo A, que era mantido por simpatia, entre aspas, já que a França, graças à zona euro e ao duo franco-alemão era vista como muito credível. O problema é que infelizmente, as despesas públicas aumentam, são já 57% do PIB, a dívida pública sobe em flecha e representa já 85% do PIB e, sobretudo, o drama é que não há crescimento.
 
Nos últimos quatro anos, tirando talvez a Alemanha, a Holanda, o Luxemburgo e a Finlândia, nenhum país tem crescimento suficiente para pagar os juros da dívida pública, o que significa que para pagarem esses juros se endividam ainda mais. É o que chamamos a bolha da dívida, em relação a isso a degradação era inevitável. Se foi demasiado cedo ou demasiado tarde, não sabemos. Mas o que está verdadeiramente em jogo não é a nota em si, mas sim o facto que, infelizmente, há uma certa recessão na Zona Euro e isso é muito perigoso.
 
 
Antoine Juillard, euronews: Esta degradação vai, a médio prazo, afetar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), que é suposto ajudar os países em dificuldade. Os meios do fundo eram já considerados insuficientes e não vão poder aumentar, agora. Acha que isso é grave?
 
 
Marc Touati: É claro que vai ser difícil para o fundo manter o triplo A. Se a nota do fundo for degradada, isso significa que vai haver dificuldade em encontrar dinheiro para financiar os países em dificuldades.
 
Por outro lado, a Alemanha, através de Angela Merkel, confirmou que não quer aumentar a quota-parte no fundo de estabilidade. Isso significa que vai haver dificuldades para ajudar os países e é disso que nos estamos a esquecer.
 
Hoje, só pensamos depois da batalha, ou seja, depois da dívida pública estar já instalada. O que é preciso é evitar que a dívida pública aumente e, para isso, é preciso reduzir os défices. Para reduzir os défices é preciso gerar crescimento. É esse o grande erro, neste momento, da Zona Euro. Infelizmente não há crescimento, pior ainda, desde o quarto trimestre que a recessão voltou a instalar-se. Sem crescimento, aumentam os défices e aumenta a dívida e ficamos assim neste ciclo vicioso”
 
 
Antoine Juillard, euronews: A Alemanha manteve o triplo A, a França perdeu. Isto significa que Angela Merkel pode agora dizer que é a única ao leme da zona euro?
 
 
Marc Touati: O mais forte no par franco-alemão é a Alemanha e eu diria mesmo que é merecido, já que há dez anos que o país anda a fazer reformas drásticas e a reduzir a despesa pública, que agora é de 46% do PIB, contra 57% em França. No entanto, os alemães não vivem pior que os franceses.
 
Mas a Alemanha não pode gerir a Zona Euro sozinha, por isso tem que se refrear. A Alemanha espera que a França faça esforços, nomeadamente em termos de saneamento orçamental, o que não significa aumentar cegamente os impostos. Significa, sobretudo, reduzir certas despesas públicas que não servem para nada. Por exemplo, despesas de funcionamento que, em 10 anos, aumentaram em 10 mil milhões de euros por ano. Enquanto a França não der esse passo, terá sempre dificuldades para sair efetivamente desta crise”.