Última hora

Última hora

Grécia continua "refém" da resistência às reformas

Em leitura:

Grécia continua "refém" da resistência às reformas

Tamanho do texto Aa Aa

Feito o ponto da situação com os restantes chefes de Estado e de Governo na primeira cimeira da União Europeia deste ano, o primeiro-ministro da Grécia, Lucas Papdemos, disse estar prestes a fechar o acordo para obter um novo pacote de ajuda.

Os cofres de Atenas precisam de pelo menos mais

130 mil milhões de euros e o país está numa corrida contra o tempo para evitar a bancarrota em meados de Março, quando tem de pagar 14 mil milhôes de euros de dívida soberana.

Mas para isso precisa de fechar dois capítulos de intensas negociações: por um lado, chegar a acordo com os privados sobre o perdão da parte da dívida, que já atinge os 350 mil milhões de euros. Por outro lado, aceitar as novas medidas de austeridade pedidas pela troika, como a redução do salário míninimo e cortes na saúde e na defesa.

Os líderes da UE dizem que a Grécia deve fazer tudo para se manter na zona euro. Mas face ao contágio de outras economias – como Portugal, Espanha e Itália -, o Banco Central Europeu poderá ser chamado a intervir de uma nova forma para resolver a tragédia grega.

“A classe política recusa-se a mudar”

O editor da euronews em Bruxelas, Fréderic Bouchard, falou sobre o agudizar da crise grega com Jean Quatremer, correspondente em Bruxelas do jornal francês “Libération”.

Fréderic Bouchard/euronews (FB/euronews): “Qual a questão de fundo que impede o acordo entre os credores privados e o governo grego?”

Jean Quatremer/corresponde jornal “Libération” (JQ/“Libération”): “Começamos a ver que o país não está pronto para fazer as reformas estruturais que lhe são exigidas ao nível económico, ao nível da reforma do Estado. Outros países estão a cumprir esses deveres: Portugal, Irlanda, Espanha, Itália, e até mesmo a França aceitaram a necessidade de reformar. Na Grécia existe uma classe política que se recusa a mudar. Essa tomada de consciência está a ser muito lenta, começou em Maio passado. Os gregos não nos ligam nenhuma, apesar da Grécia já nos ter custado 100 mil milhões de euros e ainda lhes vamos dar mais 130 mil milhões. No final das contas, salvar a Grécia ter-nos-á custado 240 mil milhões de euros, mas apesar desses dois pacotes de ajuda, a Grécia não terá saído da crise”.

(FB/euronews): “Esses argumentos justificam o que certas vozes defendem na Alemanha: que o país fique sob tutela? Isso é politicamente possível?”

(JQ/“Libération”): “Penso que não vão escapar a ficar sobre essa tutela. Aliás. a Grécia já está sob tutela porque não tem meios para pagar aos credores, somos nós que pagamos pela Grécia. Mas a questão passa por estar fisicamente lá. Porquê? Falamos dos gregos de forma genérica, mas não se trata do povo grego e sim de uma classe política predadora que enriquece às custas dos gregos e que se recusa a perder privilégios. O que faz hoje o Estado grego? Na verdade, recolhe os impostos e taxas dos setores que não lhe podem escapar. Ou seja, os funcionários, os reformados, etc. Mas não atinge verdadeiramente os centros de riqueza e a própria classe política recusa-se a fazer sacrifícios. Os deputados gregos recusaram uma redução dos seus salários, aliás, exigiram mesmo que fossem aumentados”.

(FB/euronews): “Existe na União Europeia a vontade de fazer mais para salvar a Grécia?”

(JQ/“Libération”): “O problema não se coloca nesses termos. Se a Grécia cair, qual será o efeito para todos nós? Se tivéssemos a certeza de que não havia risco de contágio para Portugal, para a Irlanda, etc. Se estivéssemos certos disso, creio que se deixaria cair a Grécia, porque há dois anos que têm o benefício da dúvida”.

(FB/euronews): “A Itália já está de alguma forma protegida, a Espanha segue o caminho da austeridade, ainda existem dificuldades com Portugal. Logo que estes países estejam fora de perigo, a UE pode deixar cair a Grécia?”

(JQ/“Libération”): “Penso que existe essa tentação. Depois que o incêndio esteja contido ao redor da Grécia, a tentação será forte e os gregos têm muito pouco tempo para demonstrar a sua vontade de mudar. Os gregos – quero dizer o seu governo – têm de mostrar que querem reformar a sua economia e o seu Estado”.

(FB/euronews): “Não é do interesse da Grécia sair da zona euro?”

(JQ/“Libération”): “Acredito que, se saísse da zona euro, a Grécia seria varrida da face da terra. A sua classe média desapareceria, o sistema financeiro entraria em colapso, as empresas endividadas em euros – o que seria então uma moeda estrangeira -, iriam à falência. Penso que seria somar outra catástrofe a um tsunami, não valeria a pena. Penso que é do interesse da Grécia mudar, fazer o máximo de reformas. Efetivamente eles vão passar um mau bocado na próxima década, mas no final estarão melhores. Sair do euro não os ajudaria em nada.”