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UE/Índia: acordo comercial não será fechado na cimeira

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UE/Índia: acordo comercial não será fechado na cimeira

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Apesar da União Europeia ser o maior parceiro comercial da Índia, este país asiático é muito protecionista da sua indústria. Um exemplo é o setor automóvel, onde as taxas de importação chegam aos 60% para carros europeus, enquanto que a União Europeia (UE) aplica um valor dez vezes menor.

A Índia quer também expandir o mercado para o seu forte setor de software e serviços, mas Bruxelas está relutante em facilitar a entrada na UE dos técnicos indianos altamente qualificados.

Estes são alguns exemplos do que tem bloqueado um acordo sobre livre comércio, negociado ao longo de cinco anos, e que ainda não será fechado na 12 cimeira UE/Índia, a 10 de Fevereiro, em Nova Deli.

Mas enquanto que a Índia deverá crescer 7 por cento em 2012, a UE tem uma economia depremida e benefeciaria muito com o vibrante mercado de mais de mil milhões de potenciais consumidores indianos.

Além do comércio, os lideres deverão finalizar na cimeira uma estratégia de cooperação sobre contra-terrorismo e combate à pirataria.

“Não há razão para a Índia ajudar a zona euro”

Para analisar em maior detalhe estas questões, a correspondente da euronews em Bruxelas, Isabel Marques da Silva, entrevistou Axel Goethals, director-executivo do Instituto Europeu para os Estudos Asiáticos.

Isabel Marques da Silva/euronews (IMS/euronews): “O Acordo de Livre Comércio devia ter sido assinado há quase um ano. Quais são os principais problemas, e é a Índia, ou é a UE, que está mais relutante em fazer concessões?”

Axel Goethals/Instituto Europeu para os Estudos Asiáticos (AG/IEEA): “As principais questões com a Índia são os contratos públicos, as barreiras tarifárias e a indústria de serviços. Diria que há espaço para soluções e uma certa abertura por parte do governo indiano. Isso é extremamente importante, mas não podemos esquecer outras questões: a Europa concede muita ajuda ao desenvolvimento da Índia…”

(IMS/euronews): “Que vai cortar, argumentando que a economia indiana está a crescer fortemente, apesar de um terço dos pobres do mundo viverem na Índia…”

(AG/EIAS): “Sim, mas ao mesmo tempo devemos ver o outro lado da questão. A Europa concede muita ajuda ao desenvolvimento e, ao mesmo tempo, as empresas indianas estão a comprar empresas europeias. O dinheiro é indiretamente canalizado para o sector corporativo indiano que usa parte do dinheiro – não todo, obviamente – para depois comprar empresas europeias”.

(IMS/euronews): “Faz sentido cortar essa ajuda assim que possível…”

(AG/EIAS): “Tem de ser revisto completamente porque é algo ilógico. A Índia já não é um país pobre, o que se passa é que o dinheiro na Índia… quero dizer, as divisões sociais e a forma como o dinheiro circula no país é algo muito dequilibrado”.

(IMS/euronews): “Tal como diz o presidente da Comissâo Europeia, José Manuel Barroso, não faz sentido pedir à India, ou ao Brasil ou à China – outras economias emergentes – que ajudem a zona euro a sair da crise da dívida?”

(AG/EIAS): “Diria que não é algo que lhe diga respeito ou lhes interesse. E diria que é uma situação diferente da da China. A Europa é um grande mercado para os produtos chineses, mas não é um grande mercado para os produtos indianos. Do ponto de vista da sensatez económica, não há razão para a Índia ajudar a resolver os problemas da zona euro.”

(IMS/euronews): “Na cimeira deverá também ser assinado uma estratégia sobre lutra contra o terrorismo e outras questões de segurança. É importante que haja na cimeira uma aproximação sobre questoes geopolíticas?”

(AG/EIAS): “Somos parceiros naturais e penso que do ponto de vista geopolítico se pode fazer muita coisa em conjunto na região”.

(IMS/euronews): “Mas em temas como o Irão e a Síria, a Índia tem estado ao lado da Rússia e da China. Logo, o máximo a que a UE pode aspirar é que a Índia seja neutral?”

(AG/EIAS): “Querem sobretudo manter o equilíbrio na relação com o Paquistão e com a China, que são os seus principais desafios geopolíticos. Diria que os interesses da Europa e da Índia ao nível geopolítico são um pouco diferentes.”