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O papel da Europa no futuro da bacia mediterrânica

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O papel da Europa no futuro da bacia mediterrânica

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A crise que atinge a Síria e vários países muçulmanos foi o tema principal da reunião em Roma, na Itália. O grupo 5+5 (formado por Portugal, pela Espanha, França, Itália, por Malta, pela Mauritânia, Argélia, Tunísia, Líbia e por Marrocos). O encontro serviu para discutir o processo de paz para o Médio Oriente, a cooperação na área da defesa e da imigração.

Alain Juppé, chefe da diplomacia francesa: “Fiquei satisfeito por verificar o consenso existente, a unanimidade à volta da mesa para relançar o grupo do Mediterrâneo sobre projetos concretos que conhecem”.

Os 10 países estiveram representados pelos ministros dos Negócios Estrangeiros. Paulo Portas, insistiu que a Europa deve adotar uma política de segurança e de desenvolvimento de uma forma “mais ativa e energética”.

Juppé acrescentou:“Também falámos muito da Síria e da preparação desta reunião de Tunis, de dia 24, estamos de acordo sobre o objetivo, que é apoiar o plano da Liga Árabe, terminar as violências o mais depressa possível, a repressão do regime e um compromisso de saída da crise, que deve ser um processo político. O ponto de vista da Liga Árabe recebe o nosso voto unânime.”

O ministro português concordou: “Até agora tudo parece falhar na concertação internacional sobre a Síria. Todos os dias parece haver mais repressão.”

O ministro tunisino, Rafik Abdessalem,
acrescentou que há um consenso na comunidade internacional sobre o agravamento da crise na Síria. “A comunidade internacional está unida em relação a esse assunto”, declarou.

Sobre o seu país, admitiu que “os tunisinos estão a viver um processo democrático, uma transição, estão apenas no início do processo. As coisas vão bem, vive-se uma revolução pacífica mas não é nenhum paraíso. Passamos agora à segunda fase da revolução com as eleições democráticas e, desde 23 de outubro, o país tomou o rumo certo.”

A Comissão Europeia já aumentou os fundos dos países do sul do Mediterrâneo, de 12 para 18 mil milhões de euros, mas a Itália quer um valor suplementar no quadro das políticas de vizinhança, energia e imigração.

Monica Pinna, da euronews, entrevistou, neste contexto, o jornalista Luigi Spinola, jornalista, perito em política estrangeira.

euronews: O Fórum do Mediterrâneo propôs, na recente cimeira de Roma, passar a ser um organismo flexível e um interlocutor fiável para os países do sul. Como é que os países do Mediterrâneo podem ter um papel na transição em curso dos países da Primavera Árabe?

Luigi Spinola: Na margem norte do Mediterrâneo acredita-se que a crise económica e social possa, de um certo modo, fazer descarrilar a transição política e gerar, a seguir, uma nova fase de instabilidade. Concretamente, trabalhamos para relançar a economia ao mesmo tempo que aumentamos os recursos que a União Europeia oferece aos países do sul, no quadro das políticas entre países vizinhos do Mediterrâneo. A questão dos equilíbrios internos na União Europeia significa que os países, como a Itália e a França, primeiro devem trabalhar, e já o estão a fazer, para convencer os países mais a norte, com interesses diferentes, orientados mais para leste, a dar uma atenção maior, assim como recursos, aos países do sul.

euronews: O ministro dos Negócios Estrangeiros falou da necessidade de uma ação concreta para problemas como o da Síria. Será que é possível fazer algo que nem a Liga Árabe, nem o Conselho de Segurança da ONU conseguiram fazer, por causa do veto da China e da Rússia?

LS: Naturalmente, é preciso manter-se otimista. O clube dos países do Mediterrâneo tem uma especificidade: tem membros e composições diferentes porque, na margem sul, há países como a Tunísia e a Líbia que são a favor das transformações na Síria. Mas há outros, como a Argélia, que são mais céticos e se opõem a qualquer forma de ingerência nas questões políticas de outros países árabes.
Pode ser um obstáculo quando tentamos fazer uma pressão maior sobre Damasco e queremos manter o otimismo. E repito: pode haver oportunidades de negociações entre as partes.

euronews: Os novos equilíbrios nos países do sul também implicam aberturas a nível económico, nomeadamente no setor da energia. O único país afetado pela Primavera Árabe que pode contribuir verdadeiramente para o fornecimento de hidrocarbonetos é a Líbia Mas este mercado energético está a demorar a abrir-se. Porquê e quais são as perspetivas?

LS: Evidentemente, o momento para obter uma segurança energética por parte da Líbia depende do processo de estabilização em curso, e, deste ponto de vista, não há boas notícias de Trípoli, porque a autoridade central tem muito dificuldade em controlar a situação, principalmente as atividades de homens armados. A longo prazo, a colaboração entre os países europeus do Mediterrâneo pode tornar-se numa competição para conseguir novos contratos que serão tirados à sorte pela autoridade líbia.

euronews: Como vai inserir-se a Europa nesse jogo de equilíbrios e de competição?

LS: A Europa vai ter problemas neste contexto porque, evidentemente, em termos de influência estratégica e de integração económica, há uma concorrência crescente por parte de alguns países muito empreendedores como o Qatar e, nestes últimos tempos, a Turquia, que têm boas relações com as novas autoridades árabes.
Por outro lado, a Europa, devido ao que se passou na fase inicial da guerra líbia, vai ter problemas em encontrar uma política comum e assegurar-se que os interesses nacionais, por exemplo, os de Itália e de França, não se tornam mais importantes do que os dos outros todos.