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"Infanta não tem escolha: Ou deixa o marido ou desiste dos direitos reais" - Antoni Gutiérrez-Rubí

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"Infanta não tem escolha: Ou deixa o marido ou desiste dos direitos reais" - Antoni Gutiérrez-Rubí

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Foi um casamento de conto de fadas: Iñaki Urdangarin entrou para a Família Real quando se casou com a Infanta Cristina, em Barcelona, filha mais nova do Rei Don Juan Carlos, sétima na linha de sucessão.
Foi em 1997. Tornou-se Duque de Palma. Ninguém podia imaginar que uns anos depois ele estaria no centro do furacão, de um escândalo que está abalar a monarquia em Espanha.

Urdangarin era um jogador profissional de andebol que ganhou medalhas olímpicas para Espanha. Retirou-se no ano 2000 e estudou adminsitração de empresas. Fez depois um mestrado numa prestigiada escola de negócios catalã.

Urdangarin fundou e co-dirigiu, entre 2004 e 2006, o Instituto Nóos, uma organização não lucrativa, que tinha o mesmo nome da própria consultadoria Noos, empresa lucrativa do Duque de Palma.
Os investigadores descobriram um “buraco negro” nas contas do Instituto, relativos à organização de eventos desportivos e turísticos para os governos regionais das baleares e Valência.

No ano passado soube-se que o Rei, em 2006, aconselhou o Duque a abandonar os negócios em Espanha.

O Duque deixou o Instituto Nóos e foi nomeado Conselheiro da Telefónica Internacional. Em 2009 foi transferido para Washington, para onde levou a família, como delegado da Telefónica na América Latina e nos Estados Unidos.

As aparições públicas passaram a ser mais raras, até que no dia 12 de dezembro de 2011 a Casa Real divulgou que o Duque de Palma deixava de participar em atividades oficiais por comportamento “não exemplar”

Pouco depois, no dia 29, foi divulgada a investigação em curso das irregularidades do Instituto Nóos.

O genro favorito do Rei, atualmente com 44 anos, é suspeito de envolvimento numa fraude com fundos públicos, corrupção e evasão aos impostos.

O caso tomou proporções públicas e mediáticas nunca vistas, com o aproveitamento político consequente que questiona os fundamentos da Monarquia.

Dom Juan Carlos pronunciou-se:
“- Felizmente, vivemos num estado de direito e qualquer ato censurável deverá ser julgado e sancionado de acordo com a lei. A justiça é igual para todos”.

O Rei não podia ser mais claro nem mais duro, mas mesmo assim, foi criticado.

Na sequência deste escândalo, foram publicados em dezembro, pela primeira vez, desde 1979, os detalhes sobre os salários da Casa do Rei.

As revistas cor de rosa mostram fotos de uma Infanta Cristina sorridente que o advogado do Duque de Palma justifica: “Dona Cristina está serena porque está convencida da inocência do marido”.

Mas a serenidade não vai durar muito porque as hipóteses que se colocam à Infanta não são boas, segundo o analista Antoni Gutiérrez-Rubí, assessor de comunicação e colaborador dos principais jornais espanhois.

Francisco Fuentes, euronews – Antoni, desde a restauração da democracia em Espanha, a Família Real em geral, e o Rei Juan Carlos em particular, apareceram sempre como modelos, exemplos de bom comportamento e praticamente intocáveis. Independentemente do curso que tome o processo de Urdangarín, a imagem foi afetada, é verdade que se deu uma mudança nas relações entre a Casa Real, os Media e a sociedade?

Antoni Gutiérrez-Rubí – A Família Real era intocável por causa da enorme gratidão da sociedade espanhola em relação ao Rei pela sua posição no golpe de 23 de fevereiro de 1981 . E também porque a Monarquia está ligada à restauração da democracia.

Mas 30 anos mais tarde, a democracia espanhola amadureceu e percebeu que a Monarquia não é tão transparente, não é tão aberta à sociedade e os privilégios foram mais longe do que em qualquer outra institução política ou democrática em Espanha.

euronews – Na tradicional mensagem de Natal, o Rei afirmou que a Justiça é igual para todos. Muitos julgaram que a afirmação era necessária mas que foi insuficiente. Considera que o Rei ocultou a gravidade da situação?

AG-R – Não, penso que encarou a situação correta e diretamente mas fê-lo de um modo tímido. Muitas pessoas em Espanha podem pensar que o Rei estava a par das atividades do genro, ou a par da vida da filha e do marido. Mas ele mostrou nada saber. E faltou-lhe determinação para condenar publicamente pena ou remorso num caso em que os cidadãos podem pensar que um membro da família Real, mesmo se for um genro, usou privilégios, ou teve um comportamento mesno ético ou responsável.

euronews – Que consequências pode ter este processo, independentemente do resultado, para o futuro da Monarquia?

AG-R – Em primeiro lugar, devemos ver as consequências que terá na vida do casal, para a Infanta Cristina e Urdangarín. Se Urdangarín for condenado, a Infanta terá, provavelmente, de desistir dos direitos dinásticos e reais. Não tem escolha. Ou deixa o marido ou desiste dos direitos reais. Dificilmente haverá outra saída. Será muito incompreensível e injustificável se a Infanta não assumir na sua própria vida as consequências de uma possível sanção contra o marido.

A Família Real, neste caso o Rei, terá de se pronunciar publicamente por um membro da família ter abusado do bom nome das instituições e do que isso representou em termos de benefícios ilegais e, claro, deve haver consequências penais.