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Rússia: uma oposição inesperada

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Rússia: uma oposição inesperada

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As vidas de Vyachislev, engenheiro de telecomunicações, Anna, analista financeira e Aleksandre, programador informático, mudaram no dia 4 de dezembro. Até há pouco tempo, eles limitavam-se a ouvir as notícias. Mas depois de descerem às ruas e participarem nas manifestações, os laços e balões brancos empunhados pelos manifestantes tornaram-se símbolos de uma oposição russa renascida, um movimento que contesta o regresso de Vladimir Putin à presidência do país.

Anna (que preferiu não dar o nome completo) afirma “desde 5 de dezembro que participo em diferentes ações de protesto e vou continuar a participar. Estou farta do que está a acontecer no país. Os políticos apoderaram-se do poder e não querem devolvê-lo, nem ouvem ninguém. Estamos aqui para mostrar que somos muitos. Não vamos desistir. Vamos lutar!”

Das ruas, os protestos não tardaram em saltar para a internet. A alegada fraude eleitoral cometida nas eleições de dezembro passado dominou a blogosfera russa. No dia 10 de dezembro, uma manifestação na praça Bolotnaya em Moscovo reclamava eleições justas e livres. A praça tornava-se assim um local simbólico do novo movimento de oposição.

Não tardaram as comparações com a primavera árabe mas os manifestantes afirmam que são dois movimentos separados. Os opositores do regime escolheram os laços e balões brancos porque não procuram a revolução mas sim a evolução.

Boris Akunin, um escritor famoso, decidiu regressar à Rússia abandonando a pacata aldeia francesa onde trabalhava no novo romance. Akunin decidiu que tinha de testemunhar este momento histórico lançando-se de corpo e alma no movimento.

Falando na televisão, Boris explicou a génese do movimento. “No início foi a classe média” afirmou o escritor, “as pessoas estavam furiosas com os acontecimentos de setembro, a alternância no poder entre Putin e Medvedev tinha que acabar. Depois foram as eleições parlamentares em dezembro. Toda gente sentia que já bastava. A seguir, o movimento começou a crescer e espalhou-se por toda a Rússia.”

Outro movimento, “Resistência: Arte de Rua”, também nasceu em dezembro. Reúne cerca de uma centena de pessoas que organizam eventos espontâneos e que apelam à participação das pessoas nos protestos. Este movimento não tem qualquer líder.

Um dos participantes, Nicolai Levshits, publicitário, afirma que o movimento inclui participantes com profissões tão diversificadas como hospedeiras de bordo, estuedantes, administradores de sistemas e gestores de projeto. Ele adianta que cerca de 90% não se conheciam antes de dezembro. A maioria nem tinha afiliação política ou atividade civil. O movimento, segundo Levshits tem várias palavras de ordem, uma delas é “Criar uma Rússia honesta com as nossas próprias mãos”.

O co-proprietário de uma cadeia de lavandarias, Aleksei Shiskhov, distribui chá quente durante as manifestações. Ele juntou-se à resistência ativa depois de ter passado dois dias detido numa esquadra da polícia.

“Foi o regime que me tornou politicamente ativo”, diz, “antes nem sequer me preocupava com isso. Não pertenço a nenhum partido. O que faço hoje chama-se ativismo civil. Estou pronto a assinar todas as resoluções que apelem a eleições livres mas a única coisa que sei é que o governo não nos ouve. Não sei o que vai acontecer a seguir.”

Para a apresentadora e atriz de comédia Tatiana Lazareva, o próximo passo é ser observadora nas eleições presidenciais. Ela admite ainda que faz parte desta oposição algo inesperada. Em conjunto com Akunin, Tatiana é co-fundadora da “Liga dos Eleitores”. Um dos objetivos desta organização é preparar os eleitores para as eleições de 4 de março.

“Há pouco tempo apercebi-me que é necessário controlar as pessoas no poder”, afirma Tatiana, “eles trabalham para nós. Não sei o que vai acontecer no dia 5 de março mas sei que o nosso trabalho está apenas a começar. Em primeiro lugar é preciso trabalhar uns com os outros para percebermos qual é o nosso lugar na sociedade, o lugar dos cidadãos reais. Isto pode soar pretensioso mas durante 12 anos ninguém falou nisto. É tempo de regressar a este debate”.