Última hora

Última hora

Ambições de Putin despertam fantasmas do passado

Em leitura:

Ambições de Putin despertam fantasmas do passado

Tamanho do texto Aa Aa

Qual a temperatura das relações entre os Estados Unidos e a Rússia? Em 2007, o ambiente começou a arrefecer com o discurso de Vladimir Putin na Conferência de Segurança de Munique. “Não se pode ter uma postura de Deus Todo Poderoso e decidir pelas outras nações”, declarou.

As palavras de Vladimir Putin viriam a ser classificadas como o anúncio de uma “nova Guerra Fria”. O então secretário da Defesa norte-americano, Robert Gates, tentou quebrar o gelo. “Um dos discursos de ontem quase me encheu de nostalgia de tempos menos complexos”, ironizou.

Gates mudou de tom em 2008. As tropas russas tinham entrado na Geórgia depois desta ter tentado retomar o controlo da província separatista da Ossétia do Sul. “O primeiro-ministro Putin quer reafirmar as tradicionais esferas de influência da Rússia”, disse o então secretário da Defesa norte-americano.

O discurso de Putin foi interpretado como um desafio ao Ocidente. Será que o líder russo pretendia retomar a influência do Kremlin no mundo? O objetivo não era esse, considera um representante parlamentar russo, adepto de uma política externa mais dura. “Restaurar o estatuto de superpotência não é a intenção da Rússia”, explica Alexey Poushkov. “Agora, só há uma superpotência no mundo e tem enormes problemas e responsabilidades.”

Os críticos de Putin reconhecem que ele conseguiu alargar a esfera de influência de Moscovo. É o caso do analista político Fyodor Loukyanov: “Os receios, que a Rússia desperta, cresceram em todo o mundo. Além disso, a Rússia é considerada como um fator de peso na política internacional, o que não era o caso quando Putin chegou a primeiro-ministro e, depois, a presidente.”

O sucessor de Putin na presidência, Dmitri Medvedev, deixou claro a Barack Obama que os interesses da Rússia, em matéria de Defesa, deviam ser tomados em consideração. Uma subida de tom que suscitou várias questões. “Quem é que está, realmente, ao comando da Rússia, o presidente ou o primeiro-ministro Putin?”, lançou um jornalista durante uma conferência de imprensa conjunta entre Obama e Medvedev. O presidente norte-americano respondeu: “O presidente Medvedev é o presidente e o primeiro-ministro Putin é o primeiro-ministro.”

Com o mandato de Medvedev a chegar ao fim, os ânimos acalmaram, mas o discurso antiamericano parece estar de volta. Alexey Poushkov explica:
“Fico sempre surpreendido quando uma reação negativa relativamente a uma ação americana
é chamada de antiamericanismo. Imaginem alguém que está em casa, a beber chá e, de repente, é informado que os Estados Unidos começaram a bombardear um sítio qualquer. Se disser “que vergonha” é chamado de antiamericano!”

As clivagens entre a Rússia e o Ocidente não se explicam apenas pelos manuais de História. Grande parte do problema, explica o analista russo Fyodor Loukyanov, são as convicções de Vladimir Putin.
“Ele tem uma enorme desconfiança relativamente aos Estados Unidos. É algo em que pensa constantemente e em que acredita. Não se baseia em ideias abstratas mas nas lições que tirou das suas relações com os Estados Unidos nos dois primeiros mandatos presidenciais.”

Vladimir Putin não escapou às críticas no coração da União Europeia. O eurodeputado dos verdes Werner Schulz apresentou uma proposta de resolução com um pedido de anulação das eleições de dezembro. Shulz deixa uma sugestão ao Kremlin: “Se a Rússia se desenvolver de uma forma democrática, pode voltar a ser um centro de gravitação. Mas se a Rússia tentar voltar a ser uma superpotência, prendendo outros países e tornando-os dependentes dela, isso pode ser perigoso.”

Será que a Rússia vai seguir o conselho? O candidato Putin já anunciou a sua resposta, em plena campanha eleitoral: “Não vamos permitir que ninguém se intrometa nos nossos assuntos ou nos imponha a sua vontade. Porque nós temos a nossa própria vontade.”