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Viver e sobreviver na Bósnia

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Viver e sobreviver na Bósnia

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A cada três, quatro minutos, um camião emerge do horizonte, um colosso de nove metros de altura, vindo da mina de carvão de Banovici, na Bósnia.

As pessoas que acorrem a este lugar, no exterior, não conseguiram um trabalho na mina. Mas é graças a ela que sobrevivem. Todos os dias, são mais de três centenas os que procuram encontrar algum resto de carvão nos detritos provenientes da exploração mineira.

Esed tem 28 anos. Trabalha neste local há 12. Diariamente, enche entre 10 a 20 sacos, muitas vezes mais de 500 quilos.

Esed emigrou para França entre 2005 e 2006, mas acabou por regressar. Foi convidado a um “regresso voluntário”, recebendo um apoio de 6500 euros para montar um pequeno negócio. Comprou um motociclo para transportar o carvão que vende a intermediários ou aos habitantes locais. Ganha 300 euros por mês.

A guerra da Bósnia terminou há 15 anos. O país nunca recuperou os indíces económicos anteriores ao conflito. Uma em cada cinco famílias vive abaixo do limiar da pobreza.

A Bósnia sobrevive, em grande parte, graças às remessas de fundos da diáspora, o que configura 20 por cento do PIB. Há cerca de um milhão e meio de bósnios a viver no estrangeiro. O país tem menos de 4 milhões de habitantes.

O custo de vida é o mais elevado nesta parte da Europa. Uma família de quatro pessoas gastará cerca de 900 euros em necessidades básicas. Mas o salário médio ronda os 400 euros.

Dois terços dos jovens bósnios querem abandonar um país que consideram não ter futuro. A taxa de desemprego atinge os 30 por cento. Um em cada dois jovens está sem trabalho.

Tuzla é a terceira cidade da Bósnia. Foi aí que encontramos Mirha. Com 25 anos, Mirha tem um mestrado em Economia e domina cinco línguas. Mas, ao fim de oito meses a procurar emprego, percebeu que não é tanto uma questão de currículo: “Infelizmente, a expressão “comprar um trabalho” tornou-se comum. Ouvimos, com frequência, casos de pessoas que pagam para ter um emprego ou fazer um estágio. Sobretudo, se for para trabalhar na função pública. E estamos a falar de valores entre os 7500 e os 12500 euros.”

A corrupção disseminou-se na Bósnia, afundando o país nos índices de desenvolvimento. É um autêntico travão ao investimento estrangeiro. Na função pública, as ofertas de emprego repartem-se por três nacionalidades: sérvios, croatas e bósnios. É uma discriminação positiva com limites, porque não se trata de escolher os mais qualificados. Na República Sérvia, os muçulmanos estão praticamente arredados da administração pública.

Mas o principal obstáculo é mesmo o contexto político. A presidência é tri-partida e roda cada oito meses.