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França: Entre crescimento e rigor para combater a crise

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França: Entre crescimento e rigor para combater a crise

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As eleições presidenciais francesas estão marcadas para breve. A primeira volta vai decorrer no dia 22 de abril. É um escrutínio que surge numa conjuntura de estagnação que tem como pano de fundo uma crise económico-financeira. Nesta edição especial retratamos a situação económica e social de França: da desindustrialização ao défice comercial, passando pelo estado das finanças públicas e o poder de compra, sem esquecer a principal preocupação dos franceses: o desemprego.

2011, bem como os anos precedentes, foi fértil em conflitos sociais e mais uma vez os trabalhadores do setor industrial foram bastante penalizados.

As soluções para pôr um termo aos conflitos são nalguns casos humanamente aceitáveis, como na empresa Lejaby, perto de Lyon, mas muitas vezes estes conflitos acabam mal como nas fábricas da Continental e da ArcelorMittal, bem como para milhares de desempregados anónimos.

Em cinco anos, o número de pedidos de emprego aumentou um milhão. A tendência atual indica que em breve haverá 10% da população ativa no desemprego.

Este nível deve-se, entre outras coisas, a um crescimento do desemprego de longa duração. É sabido que quando se atinge uma certa idade, quanto mais longo é o período de desemprego menos possibilidades temos de encontrar um novo trabalho. O desemprego de longa duração tem logicamente consequências nos rendimentos dos desempregados, como explica o analista Eric Heyer, do Observatório Francês para as Conjunturas Económicas.

“Financeiramente, há um salto ao fim de um certo tempo, ou seja há um primeiro salto de poder de compra porque se passa do emprego ao desemprego que é subsidiado. Depois há um segundo salto quando passamos do subsídio para os apoios sociais e é aí que reside o problema. A indemnização do desemprego dura 24 meses em França. A crise dura há mais de 24 meses e por isso vemos um grande número de desempregados a receberem apoios sociais e nesse momento dá-se uma explosão da pobreza que é o resultado deste aumento do desemprego de longa duração.”

Em finais de janeiro, 1.754.000 desempregados estavam inscritos há mais de um ano nos centros de emprego. Uma situação que não vai melhorar em 2012.

Esta tendência tem um grande impacto na pobreza que passou de 13,1% para 13,5% da população entre 2007 e 2012, de acordo com o Eurostat. Em França, o limiar da pobreza é de 950 euros por mês e por pessoa.

A desindustrialização representa 600 mil empregos destruídos pelas empresas francesas em dez anos, ainda de acordo com os dados do Eurostat. Estes postos de trabalho desapareceram ou foram recriados no estrangeiro. O que fazer para os relocalizar? Jean-Marc Vittori, editorialista do jornal económico Les Echos, não acredita na relocalização como solução para o problema.

“Pode ser interessante para uma empresa de relocalizar mais ela terá que se colocar uma série de questões. A mão-de-obra será, regra geral, mais cara, terá que haver outros custos mais baixos, podem ser os custos do transporte, do desenvolvimento, da coordenação entre os diferentes setores da empresa. Tem que fazer uma avaliação extremamente séria. Para mim a relocalização diz apenas respeito a uma pequena parte dos empregos destruídos. O essencial é criar novos empregos, de criar os empregos do futuro. Este é para mim o cerne da questão.”

O crescimento da economia francesa em 2012 não vai ser favorável à criação de emprego. O governo francês aponta para 0,5%, previsões bem mais otimistas que as da OCDE, do FMI ou do Observatório Francês para as Conjunturas Económicas.

Quando o crescimento não é suficiente, o poder de compra tem poucas hipóteses de aumentar. Em França, praticamente estagnou em 2011 e as previsões apontam para uma nova queda no primeiro semestre de 2012. Isto porque a tendência do orçamento mais importante para os consumidores, o das despesas obrigatórias, é de alta.

“Os que nós chamamos de despesas obrigatórias são todas as despesas incontornáveis para o orçamento de um lar: por exemplo a habitação, a energia, o transporte, mas também os seguros, as despesas de saúde, as telecomunicações. E os preços de muitos destes setores sofreram aumentos significativos e tornaram-se mais pesados para o orçamento, sobretudo dos lares mais modestos”, explica Charles Pernin, líder de projetos da Associação Consumo, Habitação e Nível de Vida.

A inflação esperada para 2012 é moderada, mas o aumento das despesas obrigatórias leva os consumidores a reduzirem outro tipo de despesas porque o aumento dos salários não é equivalente.

Para Jean-Marc Vittori, a redução do poder de compra acaba por ser também uma consequência da evolução de uma sociedade.

“Há cada vez mais casais separados. Quando nos separamos é preciso pagar duas rendas em vez de uma só, são precisos dois frigoríficos, duas faturas de eletricidade e tudo isto faz com que com o mesmo salário vivamos pior. Para compensar esta situação tem que haver uma forte progressão do poder de compra e esse não é para já o caso, o que aumenta a pressão sobre os rendimentos dos franceses. É por isso que muitos franceses têm a impressão, às vezes sem razão, mas mais vezes com, que seu poder de compra diminui.”

Os franceses reduziram por isso as despesas em 2011: menos 0,5% em relação a 2010. A esta redução das despesas dos particulares junta-se um défice importante e crónico da balança comercial. A França importa mais do que exporta.

A indústria francesa exporta muito bem os produtos sofisticados, topo de gama: a aeronáutica, o material militar, os aviões Mirage, mais recentemente os Rafale, as centrais nucleares. Mas a indústria francesa perde frequentemente partes do mercado de gama média e baixa, setores nos quais os seus concorrentes estão mais bem posicionados.

A balança comercial francesa conheceu uma importante deterioração no ano passado, ao registar um défice de 70 mil milhões de euros, ou seja cerca de 30% mais do que em 2010.

Thierry Pech, chefe de redação da revista mensal Alternatives Economiques defende que
“quando não temos uma economia tão exportadora como a Alemanha, temos de poder contar com o nosso mercado interno para pôr a máquina a andar. A economia francesa depende muito do seu consumo interno, como a economia americana na qual 70% do PIB é consumo doméstico. Se este consumo cair perde-se um fator de crescimento importante.”

Com o fraco ritmo de crescimento esperado em 2012 e com o objetivo de uma nova redução do défice orçamental, o governo francês vai provavelmente ter que adotar outro tipo de medidas. Será que o vai fazer através da redução da despesa pública ou do aumento dos impostos? Rigor ou crescimento?

Para já o governo francês não tem outra hipótese que não seja a do rigor, como aliás os restantes parceiros europeus. Se não seguir esse caminho, vai ser de imediato pressionado pelos mercados. O ideal seria juntar crescimento e rigor mas esta receita ainda não foi encontrada nem pelo governo francês, nem pelos restantes governos europeus.