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A falta de diversidade na política francesa

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A falta de diversidade na política francesa

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As eleições presidenciais francesas são as primeiras desde a chegada de um mestiço à Casa Branca nos Estados Unidos. A vitória de Barack Obama, muito elogiada em França, veio chamar a atenção para a sub-representação ao nível do poder dos franceses originários das minorias ditas visíveis.

Será que os principais partidos políticos franceses poderiam um dia apresentar um candidato mestiço ou negro, de origem árabe ou asiática? Quais são em 2012 as causas desse imobilismo? Será que a França poderá um dia ter um presidente negro ou mestiço como por exemplo Barack Obama?

A questão permanece uma incógnita, mesmo se 80% dos franceses em 2008 afirmasse ser favorável à eleição de um. A popularidade de Obama contudo permanece actual.

Uma mulher parisiense entrevistada pela euronews afirma: “para mim não é um problema ver um mestiço eleito nos Estados Unidos. Penso que revela uma verdadeira mudança nas mentalidades”.
Outro parisiense entrevistado na rua afirma: “fiquei contente por um mestiço ter sido eleito para a Casa Branca e penso que desta vez será igualmente re-eleito”.

Mas quando o nosso jornalista colocou a questão,
“Pensa que em França poderia acontecer o mesmo?”
O entrevistado respondeu: “em França é diferente. Ao olharmos para as sondagens, vemos que as pessoas mais populares são negros ou árabes… Yannick Noah (antigo jogador de ténis e atualmente cantor) jamais será eleito presidente”.

Outra entrevistada adianta: “se houver um negro, asiático ou indiano, para mim não é um problema, a questão é que não há. E não há porque ninguém se quer apresentar.”

Patrick Lozès, fundador do partido centrista Allez La France, já tentou apresentar-se mas não obteve apoios suficientes. Até hoje a única pessoa não branca a lutar oficialmente por um lugar no Eliseu é Christiane Taubira. Foi em 2002 e foi um momento histórico. A deputada da Guiana apresentou-se como candidata pelo PRG, pequeno partido de centro esquerda. Dez anos volvidos e apesar do efeito Obama, nenhum dos grandes partidos teve candidatos ou pretendentes provenientes das minorias ditas visíveis.

Christine Taubira disse à euronews: “os grandes partidos não se preocupam muito com essas questões e os possíveis candidatos, eles próprios, contentam-se com um grande militantismo associativo podendo entrar para os conselhos municipais… mas não partem à conquista do poder. Em primeiro lugar é necessário conquistar as direcções dos partidos para depois se lançarem à luta pelo poder supremo”.

Para Patrick Lozès existem outras razões. “Existe uma elite parisiense que é totalmente fechada à diversidade da sociedade francesa. Mas penso que é preciso compreender que outros cidadãos, por exemplo, vindos da província, também não encontram aqui um lugar; o mesmo acontece com as mulheres, todos aqueles que têm um sotaque ficam excluídos”, afirma o ex-candidato.

Christine Taubira acrescenta “penso que o efeito da eleição de Barack Obama foi temporário. Eu diria que teve um efeito que classifico como hipócrita. Ou seja, houve um grande entusiasmo, uma espécie de ofuscamento e depois, nada! Isto quer dizer que não foram criados dispositivos ou não houve mesmo uma reflexão para que as pessoas se questionassem sobre o lugar a atribuir a esses franceses.

Amirouche Laïdi aponta o dedo ao papel da comunicação social que em geral apresenta uma França monocromática. Ele é adjunto do presidente da câmara de Suresnes, na região parisense, e presidente do clube Averroes que promove a diversidade na comunicação social.

“Hoje em dia é preciso apresentar essa diversidade de forma banal, no seu quotidiano e principalmente através dos números. Se ela está sub-representada na televisão e na política, quem é seguidor e tem pouca coragem não a representará nas listas ou submeterá a diferentes escrutíneos”, diz Laïdi.

A França conta com milhões de cidadãos descritos como minorias visíveis e provenientes das colónias agora descritas como ultramar e resultado de uma história esclavagista, colonial e das políticas de emigração do século passado.

O sociólogo Eric Keslassy afirma que a sub-representação no parlamento desta parte da população é uma situação preocupante. Este sociólogo é autor de vários estudos sobre esta questão.

“Na Assembleia nacional há menos de 1% de deputados provenientes das minorias visíveis. A diferença entre a realidade sociológica e a câmara de representação nacional é de tal modo gritante que a situação se torna deveras preocupante, nem que seja por uma questão de vitalidade democrática. Os franceses devem consciencializar-se que um francês pode não ser necessariamente branco. Uma vez chegados a este ponto será necessário admitir que existem preconceitos que é necessário combater para que a igualdade dos direitos seja respeitada.”

A pouca distância da Assembleia Nacional em Paris podemos ver uma exposição reveladora sobre a origem dos estereótipos. O museu de Quay Branly exibe “Exibições: a invenção do selvagem”, uma exposição organizada entre outros pelo comissário científico Pascal Blanchard. Vindos dos quatro cantos do mundo, as pessoas eram exibidas em circos, feiras e jardins zoológicos.

“Uma exposição como “Exibições: a invenção do selvagem” permite duas coisas: para já, no contexto actual, de compreender de onde vem o nosso olhar, de compreender que é uma cultura que se foi construindo ao longo dos anos e que numa sociedade mista como é aquela em que hoje vivemos muitos estereótipos sobre os outros ou por exemplo, a reduzida representatividade em certos espaços públicos não são fruto do acaso mas resultado de um processo histórico”, defende o historiador e comissário Pascal Blanchard.

Após muitas entrevistas a repórter da euronews
Michèle Bouchet conclui “Minorias visíveis”, “diversidade”, “imigrantes”, estes são os termos utilizados pela classe política e pela comunicação social para descrever os franceses não brancos. São termos ambíguos, frios e incompletos que escondem um certo mal-estar”.

O antigo pretendente a candidato presidencial, Patrick Lozès defende que “é a consciência pesada que nos faz utilizar as palavras de forma pouca direta”.

Para o historiador Blanchard “as palavras escondem sempre a dificuldade de dizer as coisas. Nos Estados Unidos falamos de raça sem problemas pois é a cultura predominante. Em França, basta mencionar a palavra raça e há logo um problema, mesmo num contexto científico. Designar o outro é sempre difícil, em particular da maioria em relação à minoria”.

Para Amirouche Laïdi “temos um exemplo de diversidade à americana que ousa dizer as coisas, que ousa contabilizá-las. Nós ainda não chegámos a este ponto”.

As palavras podem ferir e isso é algo que Cuong Pham Phu jamais esquecerá. Este francês de origem vietnamita, que fala da França com amor, é conselheiro municipal em Lognes, na região de Ile-de-France e concorre a um assento parlamentar. Ele ajuda os franceses de origem asiática a sairem de um longo silêncio relativamente à cena política.

“Ao falar do amor que sinto pelo meu país com a mulher de um antigo deputado socialista, ela disse-me: Cuong, o teu país é de onde tu vens. Tu vens do Vietname e não de França. Essas palavras bateram-me muito fundo”, afirma o autarca.

Outras palavras que revelam a amplitude do problema são aquelas proferidas pelo ministro do Interior Brice Hortefeux em 2009 a propósito dos franceses de origem árabe.

“Quando há um, não há problema. É quando são muitos que os problemas começam”, disse Hortefeux. O mesmo aconteceu com as palavras do antigo perfumista Jean-Paul Guerlain processado por insultos raciais. “Comecei a trabalhar como um negro… não sei se os negros alguma vez trabalharam tanto mas enfim…”, afirmou Guerlain.

A exposição patente no museu de Quay Branly encerra com um convite a observar o nosso próprio olhar sobre o outro quer ele seja gordo, pequeno, homossexual, muçulmano ou com um tom de pele mais escuro.