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Karima Souid: "Hoje, na Tunísia, caminhamos de cabeça erguida"

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Karima Souid: "Hoje, na Tunísia, caminhamos de cabeça erguida"

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Um ano após a revolução, o que é que mudou na Tunísia? Como trabalha a Assembleia Constituinte? Que futuro para as mulheres, para os homens, para os jovens que quiseram e acreditaram na revolução? Para tentarmos perceber a situação passámos o dia com Karima Souid, deputada do partido de centro esquerda Ettakatol.
  
A franco-tunisina Karima Souid participou na primeira campanha eleitoral no ano passado, depois de ter aderido ao Ettakatol em fevereiro 2011, no seguimento da revolução na Tunísia. Mas é em França que Karima Souid fez campanha pelo partido considerado progressista e fundado em 1994.
 
Os emigrantes tunisinos foram os primeiros a votar nas eleições para a Assembleia Constituinte. O escrutínio foi no dia 23 de outubro na Tunísia. Em França, há 300 mil inscritos nas listas eleitorais e viveram este dia como um dia de celebração.
 
“Tenho orgulho em ser tunisino. Tenho orgulho de ter vindo aqui para votar pela primeira vez e espero que o meu país siga o caminho da democracia,” afirmava um eleitoral à saída da assembleia de voto.
 
Mas para o Ettakatol, o resultado do voto foi dececionante. O partido é apenas a terceira força política nacional. Na circunscrição “France-Sud”, é quarto.
 
O grande vencedor destas primeiras eleições livres é Rached Gannouchi, o líder do partido islamita Ennahda, proibido durante o regime de Ben Ali, com 41,47% dos votos na Tunísia, mas um pouco menos na circunscrição francesa.
 
A Assembleia Constituinte que vai redigir a nova Constituição tunisina é dominada pelos islamitas. No entanto, no dia 13 de dezembro, os deputados elegeram Moncef Marzouki, um antigo dissidente e defensor da laicidade, para a presidir. Uma eleição possível apenas graças a um pacto entre os islamitas do Ennahda, o Congresso para a República e o Ettakatol.
 
A euronews falou com Karima Souid, do Ettakatol. A franco-tunisina nasceu e cresceu num bairro da periferia de Lyon e hoje tem um assento na Assembleia Constituinte da Tunísia. Estreante nas lides políticas, está determinada em fazer ouvir a sua voz. 
 
Cecilia, Calccioto, euronews: “O que mudou na Tunísia desde a revolução?”
 
Karima Souid, deputada na Assembleia Constituinte tunisina: “Hoje, na Tunísia, caminhamos de cabeça erguida. Tivemos eleições livres, as primeiras eleições livres da Tunísia, eleições democráticas; tivemos uma Assembleia Nacional Constituinte, a redação de uma futura Constituição e trabalharemos para instaurar um regime republicano civil, que não será uma república islâmica.
  
É verdade que hoje temos imensos debates no seio de algumas comissões. De facto, no partido Ennhada há uma corrente extremista e radical que quer fazer da ‘Sharia’, a lei islâmica, a fonte legislativa neste texto fundamental.
 
No Ettakatol, não queremos que esta Constituição seja antirepublicana. O povo tunisino está enraizado na sua identidade árabe e islâmica. No entanto, pelo menos para o Ettakatol, está fora de questão inscrever a ‘Sharia’ na Constituição.”
 
euronews: “Todos os partidos em campanha eleitoral prometeram defender os direitos democráticos e os direitos das mulheres. Pensa que será realmente assim?”
 
Karima Souid: “Há algumas preocupações, não nos enganemos. Penso que é preciso estar muito vigilante. Nós, o Ettakatol, prometemo-lo e fazemo-lo – até porque faz parte dos nossos valores - claro que não vamos mexer nos direitos das mulheres enquanto partido social-democrata.
 
É preciso que o cidadão seja associado ao que se passa no seu país…  Transparência…  E sublinho um conceito muito importante a que chamamos de “open-gov”: é preciso que o cidadão esteja a par de todas as ações que são tomadas e é preciso que ele esteja no centro da sociedade.“ 
 
euronews: “Sentiu que a Europa esteve ao vosso lado durante as revoluções? Hoje contam com a ajuda europeia?”
  
Karima Souid: “Se a Europa esteve ao nosso lado?! Sentimo-nos bastante sós, ainda assim. Percebi que é preciso diversificar as parcerias e jogar com o multilateralismo do mundo em vez de pedir simplesmente a ajuda da Europa, que não se vê atualmente na Tunísia.”
 
Diretora de projetos numa empresa de turismo, Karima Souid sempre atravessou o Mediterrâneo por motivos profissionais e familiares.
 
Karima Souid: “Para mim era importante porque a Tunísia também é o meu país - é o país dos meus pais mas também é o meu, assim como a França, claro está. Na Tunísia está tudo por construir. Na Tunísia, não se colocam estes problemas e, de facto, não hesitei um único instante. É preciso marcar presença no rumo da história, mesmo que a minha contribuição seja minúscula. Para mim, é uma forma de renascimento.”