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Cuba-Vaticano: 14 anos após a reconciliação realidade política é a mesma

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Cuba-Vaticano: 14 anos após a reconciliação realidade política é a mesma

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É uma das visitas mais complicadas para Bento XVI. Cuba, um dos últimos bastiões do comunismo que teve inscrito na Constituição o estatuto de Estado ateu até 1992, antes de se tornar laico. Bento XVI chegou à ilha com o objetivo de reforçar a presença da Igreja Católica, mas não exclui a dimensão política da visita. Ou seja, não importunar o regime castrista, mas fazer passar a mensagem da igreja através da Virgem da Caridade do Cobre, padroeira de Cuba e símbolo da unidade dos cubanos, desde que foi descoberta há 400 anos.

“Queridos irmãos, quero fazer um apelo à vossa fé perante o olhar da Virgem da Caridade do Cobre para vos pedir que vivam em Cristo e para Cristo e com as armas da paz, do perdão e da compreensão, lutem para construir uma sociedade aberta e renovada”, afirmou Bento XVI perante uma multidão de fiéis em Havana.

Já passaram 14 anos desde a histórica visita de João Paulo II, a primeira de um sumo pontífice a Cuba. Ao afirmar “que Cuba possa, com todo o seu potencial, abrir-se ao mundo e que o mundo se abra a Cuba”, numa mensagem dirigida ao regime e aos Estados Unidos, o Papa polaco fez desta viagem um verdadeiro ponto de viragem nas relações entre Cuba e o Vaticano.

João Paulo II conseguiu aproximar a igreja e o Estado cubano após várias décadas de desacordos e tensões. Desde então, o catolicismo e as suas instituições ganharam terreno no país.

A igreja reivindica cerca de sete milhões de fiéis numa população de 11 milhões. Aqui conta com 17 bispos e 361 padres, 12 estabelecimentos de ensino que vão da pré-primária à universidade com um total de 1113 alunos.

A Igreja Católica é cada vez mais visível nas ruas de Cuba, mas também conseguiu reforçar o seu poder mediático com 16 publicações num país onde todos os meios de comunicação são controlados pelo Estado.

Mas será que a igreja pode estar na origem de mudanças políticas na ilha? Para abordar esta questão, o jornalista Adrian Lancashire falou com Diana Alvear, correspondente da ABC em Cuba.

Adrian Lancashire, euronews:
Com base no que tem visto, qual o significado desta visita papal para os cubanos? Um ponto de viragem?

Diana Alvear, correspondente da ABC News em Cuba:
Bem Adrian, há um grande entusiasmo em torno desta visita papal, como não havia há 14 anos, quando o Papa João Paulo II cá esteve. Muitos cubanos disseram-me que esperam que o Papa Bento XVI traga uma mensagem de mudança. Agora, o objetivo oficial da visita é voltar a unir os fiéis. Há uma grande quantidade de católicos aqui, mas não são católicos praticantes. Esse é o objetivo declarado da viagem, mas é claro que vai haver conotações políticas e já foram feitos alguns comentários políticos tanto por parte dos dissidentes como pelo próprio Papa.

Adrian Lancashire, euronews:
Mas fala-se mais de paz ou de política?

Diana Alvear, correspondente da ABC News em Cuba:
O papa foi muito claro ao falar principalmente de fé e de paz. Ele disse que esses são os tipos de coisas de que os cubanos precisam para seguirem em frente, rumo ao futuro. E está a utilizar esse discurso como como metáfora para falar de uma sociedade cubana mais aberta. Portanto, há realmente algumas conotações políticas dissimuladas em tudo o que tem dito até agora. Quando João Paulo II cá esteve foi muito claro: Cuba tem que se abrir ao mundo e o mundo tem que se abrir a Cuba. Isso realmente não aconteceu e os cubanos estão há espera para ver se as palavras de Bento XVI vão ter um efeito diferente.

Adrian Lancashire, euronews:
O Papa Bento XVI disse que a visita do seu antecessor João Paulo II trouxe “uma lufada de ar fresco” há 14 anos. O que mudou em Cuba desde então, para além da troca de lugares dos irmãos Castro?

Diana Alvear, correspondente da ABC News em Cuba: A esperança imediata após o discurso de João Paulo II foi a de que haveria uma mudança política, uma mudança de regime. Isso não aconteceu. Em vez disso, o que temos visto com Raúl Castro é uma abertura da economia e isso, por si só, trouxe algumas mudanças para a ilha. Falámos com muitos cubanos que nos dizem que as coisas mudaram, têm mais dinheiro, têm acesso a mais restaurantes e hotéis e outras coisas do género. Mas não é suficiente para eles. Muitos dizem que não precisam apenas de uma mudança económica. Precisam de uma mudança política e estão à espera que Bento XVI empurre o país rumo a uma direção diferente. E têm muita esperança porque Raúl Castro é muito mais pragmático do que o irmão Fidel e talvez este seja o momento.

Adrian Lancashire, euronews:
A igreja tem servido de mediadora para o bem-estar dos dissidentes cubanos. Que tipo de influência é que a Igreja Católica tem em Cuba? Que compromissos é que a igreja tem que fazer?

Diana Alvear, correspondente da ABC News em Cuba: Sabe, essa é uma questão muito polémica porque, como referi, a Igreja é muito mais forte em termos de relações com o regime de Castro e as pessoas vêm a Igreja como uma fonte de mudança. Mas as preocupações são muitas e têm sido feitas muitas críticas ao Cardeal Jaime Ortega porque negociou a libertação de um grupo de pouco mais de 100 dissidentes que acabou por ser exilado em Espanha. Muitas pessoas dizem que isso não é correto, que ele não devia ter cooperado com o regime de Castro para mandar os dissidentes para fora do país e, de facto, para outro continente. Por isso, as pessoas não têm muita fé no facto de os cardeais cubanos e da Igreja Católica aqui serem capazes de fazer essas mudanças. Precisam do próprio Papa para pedirem que isso aconteça.

Adrian Lancashire, euronews:
À chegada o Papa Bento XVI disse que “o marxismo já não corresponde à realidade”, mas ouvimos dizer que isso não foi tornado pública em Cuba. Consegue ver uma verdadeira atmosfera marxista onde está?

Diana Alvear, correspondente da ABC News em Cuba: Devo dizer-lhe que quando desci do avião e comecei a deslocar-me para o centro de Havana vi muita propaganda. Vemos posters do Che, ou a estátua gigante na fachada de um edifício com o rosto do Che, no centro de Havana. Na Praça da Revolução vemos a estátua de José Martí. São muito proeminentes as mensagens que o regime comunista transmite ao povo. Sentimos a ideologia marxista, mas quando saímos à rua e falamos com as pessoas, muitas deles dizem-nos que o que o Papa disse é o que todos têm vindo a sentir nos últimos anos, que é uma ideologia obsoleta e acham que tem que haver mudanças.