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Cigarros: Austrália vai criar maços sem marca

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Cigarros: Austrália vai criar maços sem marca

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Acabar com o glamour associado ao ato de fumar é um dos motivos avançados pelo governo da Austrália para alterar radicalmente as embalagens de tabaco. A partir de Dezembro, será o primeiro país do mundo a retirar os conhecidos símbolos das marcas e ficam apenas fotografias e frases sobre os malefícios do fumo para a saúde.

“As pessoas param de fumar por causa dos maços sem marca. Penso que é muito importante que se faça algo na Europa em relação ao tabagismo porque o último inquérito do Eurobarómetro mostrou claramente que, em muitos países, o consumo de tabaco ainda é extremamente alto”, disse à euronews Marc Decramer, da Universidade Católica de Lovaina (Bélgica), um dos peritos europeus que avalia os méritos desta campanha.

A Europa tem o nível mais elevado do mundo de fumadores na faixa dos 13 aos 15 anos, de acordo com um estudo publicado no jornal médico “The Lancet”. Tanto para a Europa como para a Austrália este é o principal público alvo da medida.

“A consequência mais importante será a menor propensão para começar a fumar. Penso que veremos mudanças ao nível dos fumadores adultos. Uma segunda consequência é que haverá menos tendência para acreditar que o maço de uma marca é menos nocivo que o de outra, mas o impacto principal será melhores resultados na prevenção do tabagismo entre os jovens”, considera David Hammond, especialista da Universidade de Waterloo (Canadá).

A euronews falou sobre o tema em mais detalhe com o embaixador da Austrália junto da União Europeia, Brendon Nelson. A correspondente em Bruxelas, Natalia Richardson-Vikulina, começou por perguntar porquê o enfoque no tipo de embalagem.

Brendon Nelson/embaixador da Austráila na UE (BN/embaixador): “Os maços de cigarros não são como outras embalagens, que se deitam fora logo depois de tirar o produto. Estão continuamente à vista, promovem o tabaco e fazem publicidade às marcas. Os jovens, em particular, usam o maço de tabaco para promover uma certa imagem sobre quem são e como querem ser vistos.”

Natalia Richardson-Vikulina/euronews (NRV/euronews): “Os fabricantes de cigarros estão totalmente contra a medida e prometem levar o caso a tribunal. Como pretendem reagir?”

BN/embaixador: “Ao longo das últimas duas décadas, na Austrália, tomámos varias medidas para acabar com a publicidade ao tabaco na televisão e na imprensa, para proibir essa publicidade ligada ao desporto ou nos locais de venda, para aumentar os preços. Em todas elas, a indústria tabaqueira disse que não iam funcionar mas no meu país, nestas duas décadas, conseguimos reduzir o consumo de tabaco para metade.”

NRV/euronews: “A União Europeia assinou a Convenção-Quadro sobre o Controlo do Tabagismo e está empenhada em introduzir os maços sem marca. O exemplo australiano pode acelerar o processo na Europa?”

BN/embaixador: “Uma das principais razões pelas quais as empresas de tabaco estão a lutar tanto contra a medida, nos tribunais e junto da opinião pública, é porque sabem que se a Austrália decretar o uso de maços sem marca, é provável que outros países façam o mesmo. O que a Europa vai fazer ou não é uma decisão da própria Europa, mas gostamos de pensar que a Europa ficará bem impressionado com o que a Austrália está a fazer.”

NRV/euronews: “Porque é que considera que é uma responsabilidade do Estado, e não dos cidadãos, decidir que cigarros se compram e em que tipo de embalagem?”

BN/embaixador: “Em última análise, é sempre uma decisão pessoal fumar ou não fumar. Mas temos seguramente a responsabilidade de fazer tudo o que pudermos para desencorajar as pessoas, tendo em conta que a maioria delas começam a fumar quando são adolescentes, muito impressionáveis. Não há absolutamente nenhum argumento que nos leve a autorizar a publicidade e venda de cigarros e outros produtos de tabaco como se fossem algo inofensivo. Porque são, como sabemos, potencialmente letais. E enquanto não houver um argumento plausível para banir o tabaco, temos a responsabilidade de fazer tudo o que for possível e razoável para proteger a saúde e a integridade da vida humana, evitando tanto quanto pudermos que surjam novos consumidores.”