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Michelle Bachelet: "As mulheres podem construir e fazer a paz"

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Michelle Bachelet: "As mulheres podem construir e fazer a paz"

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Depois de um mandato como presidente do Chile, Michelle Bachelet tornou-se, em 2011, a primeira Secretária-geral adjunta e diretora executiva da ONU Mulheres, entidade que trabalha pela igualdade de género e pela defesa dos direitos das mulheres.

Bachelet esteve em Bruxelas, a 16 de Abril, na “Cimeira Europeia sobre Energia Sustentável para Todos”. É preciso garantir que todas as mulheres, sobretudo nos países em desenvolvimento, tenham acesso à energia, defendeu. Em entrevista à euronews, Michelle Bachelet destacou o importante papel que as mulheres podem desempenhar na construção da paz e na reconstrução da economia.

Isabel Marques da Silva/euronews:“Apesar de todas as promessas financeiras, como é que se pode fazer realmente a diferença no quotidiano destas mulheres?”

Michelle Bachelet/Diretora Executiva da ONU Mulheres: “Elas fazem tanto trabalho não remunerado – desde ir buscar água e lenha – que se lhes pudéssemos fornecer a energia necessária para fazer as atividades domésticas mais comuns – como cozinhar, aquecer ou iluminar a casa – iria poupar-lhes esse tempo. Iria, também, permitir-lhes educarem melhor ou envolverem-se numa atividade produtiva.”

euronews: “Por que é que foi necessário assinar um memorando de entendimento entre a agência da ONU Mulheres e a União Europeia se já trabalham juntas? Existe uma área específica à qual se vão dedicar em 2012? Pode dar-me exemplos práticos de uma maior cooperação?”

MB: “Temos trabalhado juntos mas precisamos de alargar esta relação para que seja mais global, abrangente e não se limite a projetos isolados…Claro que qualquer pessoa poderia chegar aqui, falar com um comissário e fazer um projeto. Mas queríamos algo mais…

Queremos integrar o género nas atividades da Comissão Europeia de forma a encontrarmos um lugar para as mulheres nas áreas da governação e da participação política. Se trabalharmos na área do desenvolvimento económico, como é que os projetos vão incluir o que acontece às mulheres, em especial, alguns dos recursos para elas…”

euronews: “Isso significa mais dinheiro? Tiveram de angariar 500 milhões de euros no primeiro ano e depois quiseram duplicar o montante. Neste primeiro ano de mandato, conseguiram juntar esse dinheiro?”

MB:“Para este ano, queríamos 300 milhões de dólares. Já conseguimos 235, por isso, precisamos de continuar a angariar. Mas necessitamos de muito mais dinheiro e colocámos a fasquia nos 300 milhões porque sabíamos que a situação é difícil. Até agora, os maiores doadores são principalmente os países europeus como a Espanha que enfrenta uma situação de muitos ajustamentos. Os países nórdicos sempre têm sido parceiros fantásticos e continuam a sê-lo.”

euronews:“Mas não os Estados Unidos?”

MB: “Bem, os Estados Unidos apoiam-nos com algum dinheiro mas não são os maiores doadores. A Austrália é um importante doador, o Japão, a Coreia…”

euronews: “Então, está otimista?”

MB: “Não, não, não… Tem corrido bem mas não chega. Precisamos de muito mais dinheiro. Pense nos sete mil milhões de pessoas que vivem no planeta: 3,5 mil milhões são mulheres e 70 por cento vive na pobreza.”

euronews: “Pensa que o movimento da Primavera Árabe está ameaçado pelos partidos extremistas que querem implementar a lei islâmica? Qual é o papel das mulheres neste movimento democrático tão importante?”

MB: “Todos vimos que a Primavera Árabe podia constituir uma oportunidade importante para as mulheres afirmarem os seus direitos. Não podemos falar de todos os países porque cada um tem uma situação diferente. Na Tunísia, após as eleições, 26 por cento das pessoas que vão tomar decisões são mulheres. Gostaríamos que fosse mais de 30 por cento mas já é bom. É mesmo melhor do que em alguns países europeus. Por outro lado, no caso do Egito, o valor é muito baixo: apenas 1,8 por cento dos eleitos são mulheres. Precisamos de trabalhar com os partidos, com os líderes religiosos, fizemos muitas coisas boas em muitos países.”

euronews: “Falando nos líderes religiosos, olhemos para outro canto do mundo, a América Latina, por exemplo, onde há um grande contraste. Vemos muitas mulheres no poder, como no Brasil, na Costa Rica, na Argentina, mas há muita violência contra as mulheres e muitas mortes devido aos abortos clandestinos. Qual é o diálogo, digamos assim, com os líderes da Igreja Católica?”

MB: “É o mesmo com todos os líderes do mundo: encontrar um terreno comum sobre como avançar nos direitos das mulheres; como garantir o acesso aos serviços de ginecologia e obstetrícia; como garantir o acesso, por exemplo, ao planeamento familiar. Se virmos o que se passa hoje, no mundo, concluímos que, a cada minuto, uma mulher morre ao fazer a coisa mais natural que é dar à luz ou no pós-parto.”

euronews: “Sim, mas por exemplo, a presidente do Brasil, Dilma Roussef, garantiu que queria ‘abrir esse caminho’ mas devido à pressão da Igreja Católica…”

MB: “Sim, eu sei, mas precisamos de trabalhar com eles e mostrar quão importante é a religião para a vida das pessoas. Por isso precisamos de fazer coisas que são a favor da vida das pessoas. Por exemplo, hoje, há 260 milhões de raparigas e mulheres que querem ter acesso aos métodos contracetivos. Elas não têm acesso. Posso garantir que se pudéssemos dar contracetivos a essas mulheres – planeamento familiar, alternativas ou qualquer tipo de contracetivos – reduziríamos drasticamente a mortalidade materna.”

euronews: “Esse é um campo que conhece bem porque estudou medicina. Mas também fez estudos na área militar, creio, e foi ministra da Defesa antes de ser Presidente do Chile. Li que quer mais mulheres como polícias, forças de paz e mediadoras para a paz. Acredita que as mulheres com armas nas mãos podem fazer a diferença em termos de violência e de guerra?

MB: “Acredito que sim e há provas disso. Por exemplo, acredito que as mulheres podem construir e fazer a paz e vi, em muitas situações internacionais, que as mulheres podem trazer a razão e a paz para algumas discussões. Em muitos lugares do mundo – onde, infelizmente, as mulheres são vistas como cidadãs de segunda e terceira classe – ver as mulheres no poder, com armas ou como poderosas empresárias ou líderes políticas ou presidentes da República, dá uma impressão de força, apoio e esperança para as mulheres.”

euronews: “De qualquer forma, à excepção dos países nórdicos, vemos menos de 25 por cento das mulheres nos governos, nos parlamentos ou até nos conselhos de administração no setor privado. Acredita no sistema de quotas?”

MB: “Completamente! Em primeiro lugar, a participação política das mulheres é a maior lacuna nos direitos das mulheres. Não se trata apenas de “precisamos de mulheres” mas de “precisamos das mulheres porque elas têm mais valias”. Porque quando os economistas e os homens de negócios pensam na solução para recuperar a economia, uma das coisas que surge é a diversidade, as ideias novas, a criatividade. Se reunirmos mulheres e homens, pessoas de diferentes regiões do mundo, teremos um melhor resultado.”