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"O Irão está por detrás dos conflitos sectários no Iraque": Tariq al-Hashimi, vice-presidente do Iraque

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"O Irão está por detrás dos conflitos sectários no Iraque": Tariq al-Hashimi, vice-presidente do Iraque

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Importante líder sunita durante o processo político após a invasão americana do Iraque em 2003,
Tariq al-Hashimi é vice-presidente iraquiano desde 2005 e secretário-geral do Partido Islâmico Iraquiano.

Na conversa com o correspondente da euronews em Istambul, al-Hashimi acusa o Irão de estar por detrás dos conflitos sectários no Iraque.

euronews: Gostaria de começar com a questão dos recentes ataques à bomba, no Iraque. As cidades atacadas – Samara, Kirkuk e Bagdade – são as mais sensíveis em termos de violência sectária. Como olha para os derradeiros incidentes e o elevado grau de violência?

Tariq el Hashimi: “É mais uma prova que, infelizmente, ainda não estamos aptos a gerir a questão da segurança. O facto é que os terroristas estão a conseguir atacar gente inocente e alvos governamentais com regularidade. Como sabe, desta vez não é só uma comunidade que é alvo de ataques, são todos os iraquianos que estão a ser alvo dos terroristas. Isto era esperado e pode continuar a acontecer.

Há muito que critico o comandante chefe pela forma como tem gerido o dossiê da segurança. O problema é que, independentemente do número de tropas e dos milhares de milhões de dólares que recebemos desde 2003, infelizmente não temos até agora forças de segurança suficientemente qualificadas para responder aos desafios que o Iraque enfrenta.

Quantas vezes apelámos ao primeiro-ministro Nuri al-Maliki para ser humilde e fazer uma avaliação factual do que se está a passar e pedir desculpa, porque se os membros do governo estão todos protegidos por guarda-costas, o cidadão comum é atacado regularmente e ninguém se preocupa com ele”.

EN: Quem pensa que está a lançar estes ataques?

TH: “A situação no Iraque, o processo político é muito frágil. Enfrentamos enormes desafios e muitas partes não estão disponíveis ou interessadas na estabilização do Iraque. Neste momento existem demasiadas fontes de violência. E não é só a Al-Qaida, também nas forças de segurança há corrupção que pode estar a originar violência atualmente. Temos desafios sérios pela frente e lamento dizer que o meu país não está em condições de garantir a estabilidade nos próximos anos, porque os desafios são muitos e ainda não os conseguimos ultrapassar”.

EN: Estes ataques parecem estar a alimentar as clivagens sectárias. A política é cada vez mais sectária. Concorda com esta ideia?

TH: “O problema do momento é de facto a política mais do que os conflitos sectários, mas não posso esconder o facto que esta instabilidade política está de algum modo a ser encoberta por desculpas sectárias. Isso é claro. Atacarem-me desnecessariamente com todas estas alegações (de envolvimento com terroristas), faz as pessoas verem que isto é um ataque sectário, independente de qualquer caso político. É mais um desafio que enfrentamos”.

EN: Quão perigosas, pensa que são estas políticas étnicas e sectárias? Acha que o Iraque pode vir a dividir-se entre os diferentes grupos?

TH: “Espero que isso não aconteça, por no final, não seria só o meu país a mergulhar no caos político. Tenho a certeza que, se isso acontecesse toda a região iria sofrer. O Iraque é um país rico, como sabe, e qualquer divisão da estrutura geográfica vai atrair interferências de países vizinhos na política interna. Provocará um grande conflito no Médio Oriente e também no Iraque. Portanto é uma fórmula que não serve nem os interesses iraquianos nem a estabilidade de toda a região”.

EN: “E em relação aos poderes regionais como o Irão ou a Turquia ou países como a Arábia Saudita e os Estados Unidos; pensa que têm interesse em manter o Iraque unificado ou alguns dos poderes procuram outra solução?

TH: “Posso falar da minha experiência e do diálogo que tive recentemente com a Arábia Saudita, o Catar ou a Turquia, por exemplo. São três países com muita influência e poder no Médio Oriente e estão muito preocupados com a estabilidade no Iraque. O grande desejo que têm é que os diferentes setores sociais iraquianos se juntem e tentem reconciliar-se, esbatendo as diferenças para manter e reforçar uma unidade estável no Iraque”.

EN: E em relação ao Irão?

TH: “O problema é que o Irão apoiar vigorosamente o conflito sectário. Tenho de ser justo na minha análise. De facto, se analisar historicamente a política iraniana, isto não é um fenómeno novo. O Irão está por detrás dos conflitos sectários no meu país. De resto, os iraquianos, não têm qualquer cultura ou tradição de uma filosofia sectária ou de comportamentos sectários. Sempre vivemos no Iraque no respeito pelas raízes, sem colocarmos questões. Mas agora, infelizmente temos de perguntar, temos de identificar quem é quem. É uma subcultura que chegou com os americanos e que está a ser potenciada e promovida pelo Irão. É isso que está a acontecer. A política do Irão é bastante diferente da da Turquia. É o que penso em função da minha experiência e não tentando exagerar. Não sou um político anti-iraniano, mas tenho de falar das coisas a partir dos factos e da minha experiencia”.