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"A meta da nossa política para estabilizar a Zona Euro é o crescimento e o emprego.", Herman Van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu

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"A meta da nossa política para estabilizar a Zona Euro é o crescimento e o emprego.", Herman Van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu

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Alex Taylor

9 de maio é dia da Europa e foi no Conselho Europeu, em Bruxelas onde, normalmente, se reúnem os Chefes de Estado e governo que entrevistámos o Presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy. As perguntas ficaram a cargo dos telespetadores da Euronews.

A Europa é, em última instância, a arte do compromisso?

Herman Van Rompuy

Sim, mas não é só a Europa. Lembro-me de uma frase do Presidente Obama: “ Esta Nação é construída através do compromisso”, até mesmo os Estados Unidos são construídos através de acordos, é a regra da vida.

Alex Taylor

Os telespetadores da Euronews enviaram as suas questões através de «askthepresident.eu», a maioria sobre a crise económica que a Europa atravessa, a crise grega em particular, mas também a que Espanha vive. O que é vai acontecer? As políticas de austeridade são a saída ou não? Há quem diga que essa não é uma solução aceitável. Temos uma primeira questão sobre o relançar do crescimento na Europa, colocada por Barthélémy Rose:

“Na sequência do resultado das eleições francesas e da queda do governo holandês, que indica uma certa reticência dos cidadãos europeus às políticas de austeridade, impostas pelo Conselho Europeu, pretende este último pôr, finalmente, à prova um plano de recuperação para estimular o crescimento europeu?”

Alex Taylor

Resumindo, vão mudar de opinião?

Herman Van Rompuy

Ocupamo-nos do crescimento desde o meu primeiro Conselho Europeu informal, em fevereiro de 2010…

Alex Taylor

Isso foi em plena crise grega.

Herman Van Rompuy

Sim, mas não o sabíamos antecipadamente e eu tinha programado um conselho sobre o crescimento económico estrutural porque é minha convicção que se não tivermos um crescimento económico não podemos financiar o nosso modelo social.
Então aconteceu a crise grega que eclipsou tudo. Um ano depois tive um Conselho Europeu, nesta sala, que se centrava na inovação, elemento-chave do crescimento e na energia, e este ano em janeiro e em março, os temas foram o crescimento e o emprego, ocupamo-nos destas temáticas há já algum tempo, o que não significa que não vamos aumentar os nossos esforços, intensificá-los agora que passaram as eleições francesas, isso está já na nossa agenda.

Alex Taylor

E se Hollande quiser renegociar o pacto orçamental, que vai fazer?

Herman Van Rompuy

Isso é outra coisa, essa questão trataremos na próxima semana, mas acredito que o mais importante é haver acordo nos conteúdos que são alavancas, instrumentos para aumentar o crescimento económico e o emprego e há muitos pontos de convergência, até com o programa do novo Presidente francês.

Alex Taylor

Uma primeira questão por vídeo de Cristos que vive em Dublin:

“Na atual crise económica, testemunhamos uma quebra no apoio dos cidadão à zona euro e à União Europeia. Qual pensa que é a melhor maneira dos governos e políticos restaurarem essa confiança?”

Alex Taylor

Resume-se ao que todas as pessoas querem saber, em relação à atual crise.

Herman Van Rompuy

Mas ainda há muitos países candidatos à União Europeia e à Zona Euro. Até mesmo na Grécia houve uma sondagem, antes das eleições, que dizia que 75% das pessoas não querem deixar a Zona Euro.

Alex Taylor

Mas isso não se refletiu no resultado eleitoral…

Herman Van Rompuy

Os resultados das eleições têm a ver com o programa, mas as pessoas continuam a ser a favor da permanência na Zona Euro porque sabem que não há outra saída para o seu país, não há futuro mas, de qualquer forma, vamos convencer as pessoas da importância, do significado da União Europeia, através dos resultados, é por isso que temos que estabilizar a Zona Euro, promover o crescimento económico, e criar emprego.

Alex Taylor

Estamos a falar a longo prazo? Dois, cinco, vinte anos?

Herman Van Rompuy

O longo prazo começa hoje, é sempre a longo prazo. Mas dar às pessoas uma perspetiva já é importante. Para os países europeus mais a ocidente, a situação é diferente da dos países europeus sulistas. Digamos que no Norte voltaremos a ter, um crescimento económico positivo, para o final deste ano, mesmos na Bélgica já nos primeiros quatro meses deste ano. E, para o ano que vem, todas as previsões, de crescimento económico, são positivas. Vamos manter a confiança, tanto quanto possível, tem que haver bons sinais, temos que dizer isto às pessoas, temos que dar boas perspetivas de futuro a toda a gente.

Alex Taylor

A primeira pelo Twitter, Andrea escreve de Murcia, Espanha:

“Pensa que Espanha vai precisar de ajuda, tal como a Grécia? Acha que Espanha é a próxima da lista?

Herman Van Rompuy

Eles não vão pedir ajuda, penso que o governo espanhol tomou decisões corajosas, o anterior governo de Espanha já o tinha feito, na questão fiscal, no lado da competitividade, ou das reformas no mercado de trabalho, e isso vai traduzir-se em resultados. Espanha também precisa de reformas no setor bancário para que recapitalize os bancos, torná-los mais forte, penso que o governo está a fazer um bom trabalho, confio plenamente no governo espanhol e no parlamento.

Alex Taylor

Uma questão de Sara Pini:

“Durante a última cimeira empresarial, anunciou que vai organizar um jantar informal para os líderes da UE discutirem a questão do crescimento que é, muitas vezes, apresentada em oposição às medidas de austeridade e consolidação fiscal. Não acha que há uma contradição entre os dois ou são complementares? Neste caso que medidas de crescimento poderiam ser mais compatíveis com finanças públicas?”

Herman Van Rompuy

Estou muito feliz com esta pergunta porque me permite clarificar a nossa posição. A meta da nossa política para estabilizar a zona euro é o crescimento e o emprego, não estamos a estabilizar a zona euro, não estamos a tomar todas estas medidas impopulares por prazer. Temos objetivos: o crescimento e o emprego. Essa é a minha primeira resposta. A segunda é que estamos a trabalhar, no longo prazo. Temos que fortalecer o lado de aprovisionamento da economia: inovação, educação, formação, investigação e desenvolvimento, são as maiores prioridade, mesmo nas operações de consolidação fiscal.
Também estamos a ponderar, com a Comissão Europeia, formas de promover o investimento, aumentando o capital do Banco de Investimento Europeu, com um aumento de 10 mil milhões podem criar-se 160 mil milhões de novos investimentos, estamos a trabalhar para aumentar o volume de investimentos em algumas áreas- chave da zona euro. Trabalhamos em níveis e domínios diferentes para aumentar o crescimento estrutural. E isso não entra em contradição com a austeridade, talvez esteja em contradição no muito curto prazo, porque as pessoas têm que corrigir os seus desequilíbrios e aumentar a sua competitividade. Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar, no norte e no sul, num caminho mais forte para o crescimento económico.

Alex Taylor

Qual é a mensagem para os desempregados em Espanha?

Herman Van Rompuy

O que podemos dizer é que temos que passar por um período difícil, sabemos isso, mas estamos a trabalhar, o mais possível, a nível europeu, para promover o investimento e o crescimento. E quando estivermos a fazer a coisa certa, na zona euro, como um todo, Espanha também beneficiará. E claro que, no seu próprio país, o governo tem que fazer, tudo o que for possível, para promover o emprego, através de medidas direcionadas ao emprego dos jovens.

Alex Taylor

Mais uma questão, enviada pela internet, pelo Rémy do Cairo, no Egito: “Estou preocupado com o crescimento da extrema-direita, dos partidos xenófobos na Europa. Com a ideia da Europa e dos valores dos seus fundadores serem desafiados. O que pode fazer o Presidente do Conselho Europeu sobre a questão? Podem fazer alguma coisa?”

Herman Van Rompuy

Eu venho de um país, de uma região dentro de um país, com uma experiência bastante triste no que diz respeito à extrema-direita.

Alex Taylor

Vlaams Blok…

Herman Van Rampuy

Sim, representava 25% do eleitorado em 2004, hoje representa metade disso, por isso pode vencer-se a extrema-direita.

Alex Taylor

Não é esse o caso noutros países como França e a Grécia, vimos isso este fim de semana.

Herman Van Rompuy

A extrema-direita em França representa 17%, o mesmo que em 2002. Por isso, a subida da extrema-direita não se pode associar à crise na Zona Euro, estava muito à frente desta. Mas a coisa mais importante que defendemos são os nossos valores, usamos uma linguagem que é a da União Europeia, defendendo a regra da lei, as liberdades democráticas, os seres humanos, sejam eles quem forem, de qualquer discriminação. Um discurso forte é, por isso, muito importante. Claro que temos que pedir às pessoas, que vivem na União Europeia, para respeitarem as nossas leis, as constituições, a separação entre Igreja e Estado, a igualdade entre homens e mulheres. Mas o mais importante é que lutamos e mostramos que defendemos os nossos valores.

Alex Taylor

Aqui na euronews, especial Dia da Europa, vamos ouvir mais uma questão do Twitter; este vem de Johanne, que assiste ao nosso programa a partir da Roménia. Ele pergunta, o que é que diria aos cidadãos e líderes europeus que não se apercebem do custo de abandonarem a União Europeia? Que pensam que terão um futuro melhor sem a UE? Penso que ele se refere à situação de um país como a Grécia… quanto é que o abandono custaria? Será possível alguém saber ao certo?

Herman Van Rompuy

A Grécia não é o único caso. Na Holanda há pessoas, mesmo líderes que defendem o abandono da zona euro e da União Europeia; pode imaginar, eu recorro ao exemplo da Bélgica e da Holanda, não apenas para dar o exemplo à Grécia, de que estamos economicamente limitados a 10 milhões de habitantes, ou 15 milhões de habitantes e perder este mercado de 500 milhões de consumidores, para dizer que ficamos confinados a mercados muito pequenos; que teríamos que voltar a mostrar passaportes para atravessar as fronteiras da França e da Holanda…

Alex Taylor

Estes 500 milhões de consumidores estão a colocar enormes pressões sobre as medidas de austeridade na Grécia…

Herman Van Rompuy

Não, não, é também uma oportunidade. Venho de um país que sofreu de uma taxa elevada de desemprego estrutural nos anos 50. A seguir tivémos a abertura para outros mercados como França, Itália e Alemanha, isso criou enorme riqueza. Por isso, criar novos mercados é uma forma de criar prosperidade. É a forma de criar prosperidade!

Alex Taylor

Vamos aceitar mais uma questão da sala, penso que o Luigi gostaria de colocar uma questão, de onde vem?

Luigi – Sou belga. Sr. Presidente, num contexto em que a integração europeia está a atravessar dificuldades; num contexto em que um número crescente de países tem problemas económicos e financeiros, como é que é possível que a UE continue a expandir-se para países como a Croácia quando estes países tornarão o processo de integração ainda mais difícil e doloroso?

Alex Taylor

Falei com um croata na semana passada e ele disse-me que algumas pessoas se interrogam se realmente querem fazer parte da União Europeia…

Herman Van Rompuy

Houve um referendo que foi muito positivo relativamente à adesão da Croácia à União Europeia. Mas para ser breve e ao mesmo tempo preciso, a União Europeia é uma união de valores. Espanha, Portugal e Grécia entraram para a União porque colocaram a ditadura e o fascismo de lado. A seguir foi a vez dos antigos países comunistas; estas democracias não têm futuro sem a âncora da União Europeia; a União Europeia não é apenas uma obra de paz mas igualmente um garante da democracia e foi por isso que esses países aderiram à União Europeia. E quanto à antiga Jugoslávia; também é o caso. Houve uma guerra civil, mesmo um genocídio há 15 anos e a única forma de evitar guerras civis no futuro é através da perspectiva europeia. É claro que têm que cumprir os objetivos e preencher as condições mas o seu futuro é um futuro europeu, caso contrário poderá haver guerra de novo na Europa.

Alex Taylor

Passemos a outra questão do Twitter, desta feita sobre uma questão que anda nas notícias. A questão vem de Andriy15 na Ucrânia: “Boicotar o euro2012 não traz quaisquer benefícios à Ucrânia. Porque não visitar este país, reunir-se com o governo e colocar as questões difíceis? Caso contrário estarão apenas a empurrar este país para a Rússia apesar das pessoas quererem juntar-se à União Europeia.” Isto está relacionado com Ioulia Timoshenko que neste momento se encontra em greve de fome.

Herman Van Rompuy

Estive em Kiev em dezembro com o presidente Barroso e discutimos esta questão com o presidente Yanukovitch durante várias horas. Assinámos um acordo de associação com a Ucrânia de forma a dar-lhes uma perspectiva europeia mas não ratificámos o documento de forma explícita. Porquê? Porque dissémos que só o fariamos se eles partilhassem os nossos valores. Porque um acordo de associação não inclui apenas o lado comercial, trata-se de um acordo político. A forma como a Ucrânia está a lidar com a antiga primeira-ministra, Ioulia Timoshenko, é inaceitável e nós deixámos a nossa posição muita clara ao presidente Yanukovitch. Eu não estarei presente porque não existe uma equipa europeia e a Bélgica não se qualificou. De qualquer forma enviámos uma mensagem política; o primeiro-ministro ucraniano anunciou que viria a Bruxelas. Dissemos-lhe para ficar em casa! É um sinal claro de que eles têm que mudar na Ucrânia. Em 2004 a Ucrânia era um modelo de democracia e terá que voltar a assumir este estatuto.

Alex Taylor

Entre as questões enviadas a Herman Van Rompuy existem algumas sobre a natureza confusa da Europa, estamos aqui no Conselho Europeu, mas existe ainda um Conselho de ministros, as pessoas não sabem quem é o presidente da Comissão Europeia. Você é o presidente do Conselho Europeu, mas como é que se chega aqui? Quem o elegeu? Como é que estas instituições funcionam?

Em primeiro lugar vamos passar a uma questão recebida através do Twitter e enviada por Marius, em Cluj-Napoca, Roménia. “Vê a União Europeia a transformar-se num união federal dentro de uma década? Será que os Estados-membros aceitarão transferir uma parte essencial da sua soberania para a União?”
Em alguns países há pessoas que dizem que isso já aconteceu. Onde nos encontramos? Será que nos vamos transformar num único país no futuro?

Herman Van Rompuy

Não, penso que não. A União Europeia nunca se tornará nos Estados Unidos da Europa. Somos 27, ou 28 com a Croácia, cada um tem a sua própria história, alguns têm 200 anos de história, como a Bélgica, outros chegam aos mil anos. Isto é diferente relativamente a um estado americano. Temos as nossas próprias línguas; na Europa há 23 línguas. Cada estado-membro tem a sua própria identidade e situações específicas criadas pela história. O que temos de fazer é ser criativos a cada oportunidade. Um período de crise é muito frutífero a este nível, infelizmente temos que criar mais Europa, mais integração europeia.

Alex Taylor

Parece que o voto na extrema direita é frequentemente um voto contra a Europa…

Herman Van Rompuy

Sim, mas não é a maioria, não há nenhum país em que seja a maioria. Só é maioria para a tese, para a posição da extrema direita. Na maioria dos países existe uma larga maioria pró-Europa. Mesmo assim, os políticos, governos e chefes de governo têm que assumir as suas responsibilidades, mostrarem coragem e dizerem às pessoas que não há futuro sem a Europa. A seguir, dirijam-se aos eleitores para saberem o que pensam. De qualquer modo, não há outro futuro para nós. O que estamos a fazer agora durante esta crise é criar mais Europa, mais integração, dar mais poderes à Comissão Europeia sob controlo do Parlamento e em colaboração com o Conselho, mas seguir em frente, este é o nosso objetivo.

Alex Taylor

Andy Carling tem esta questão: “Como é que o presidente deve ser escolhido? Deverá haver candidatos e manifestos, ou mesmo uma votação pública?”

Herman Van Rompuy

Fui escolhido por 27 chefes de estado e governo, todos democraticamente eleitos; participo nos seus encontros, tento criar compromissos, construir pontes, facilitar soluções, este é o meu papel. Eu não sou presidente da União Europeia; sou presidente do Conselho Europeu. Se o presidente do Conselho Europeu fosse diretamente eleito, então estaria numa posição totalmente diferente. Ele teria que defender o seu programa, as suas posições, isso tornaria muito mais difícil encontrar soluções de compromisso porque em primeiro lugar estaria o cumprimento do seu próprio programa. Por isso, penso que esta fórmula de ter um Presidente do Conselho Europeu, eleito ou nomeado pelos colegas de vários países é uma ótima solução. O mandato é apenas de dois anos e meio, renovável apenas uma vez, num total de 5 anos, assim não se corre o risco de uma ditadura ou monopólio de poderes. Foi uma solução sensata.

Alex Taylor

Vamos passar a uma derradeira questão que nos diz respeito a todos.

Participante

“Reparámos que ninguém reconhece o 9 de maio como ‘Dia da Europa’. Pensamos que seria muito melhor se fosse feriado oficial na União Europeia: a nossa questão: tornar o 9 de maio num feriado!”

Alex Taylor

Seria uma boa ideia ter uma festa europeia. Até porque não há festas suficientes de maneira geral. O problema é que é algo sem grande carga emocional…

Herman Van Rompuy

Trata-se de uma competência dos Estados-membros. Se estivéssemos todos de acordo, é claro que faria parte, mas também sei que em alguns países estão a tentar reduzir os feriados. Mas a nossa interveniente tem razão, é preciso falar sobre a Europa de forma positiva. Será que é possível sermos atrativos sem o entusiasmo dos líderes europeus. São eles a quem cabe mostrar entusiasmo, demonstrarem fé na sua própria causa, isso iria mudar as coisas. Quanto ao apelo, ouvi-o e concordo com ele mas transformar o 9 de maio num dia feriado não muda nada. De novo, se houver acordo então juntar-me-ei. Mas falar de forma positiva sobre a construção europeia, algo sem precedente na história humana, isso seria algo extremamente importante.