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Jordânia: um porto de abrigo para os sírios

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Jordânia: um porto de abrigo para os sírios

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Os relatos dos refugiados sírios provocam calafrios, sobretudo quando são contados por uma criança: “Os tanques chegaram ao pé de nossa casa e começaram a bombardear. Fugimos com a minha mãe e, depois, o meu pai foi-nos procurar.”

O tom violento das recordações repete-se, independentemente da idade. Um pai de família relembra: “Eles começaram a compor as milícias ‘shabbiha’ que vieram em ambulâncias falsas. Em vez de socorrerem os feridos, começaram a disparar. Quando os observadores chegaram a Homs, pararam com os bombardeamentos, mas não podíamos sair à rua porque havia ‘snipers’.”

Homens, mulheres, crianças. Todos viveram o mesmo. Uma jovem tapa o rosto enquanto diz: “Os ‘shabbiha’ entraram, prenderam os homens, ameaçaram as mulheres e as crianças, avisando: ‘Ou saiem de casa ou matamo-vos’.”

Para trás ficam as memórias do outro lado. Na fronteira entre a Síria e a Jordânia, acumulam-se histórias comuns. A cidade de Daraa, berço da revolta contra o regime sírio, fica a apenas cinco quilómetros.

Todos os dias entre 70 e 300 sírios entram na Jordânia de forma clandestina, de acordo com as Nações Unidas. Apenas uma parte dos refugiados está registada pelas organizações internacionais. Os outros encontram refúgio junto a familiares, amigos ou pessoas da mesma tribo.

O professor universitário Omran Mahafza sublinha a disparidade dos números no que toca ao fluxo de refugiados. “As informações deste lado não são exatas, os números apresentados são diferentes. Temos dificuldade em verificá-las porque os sírios estão espalhados por toda a Jordânia devido às relações bastante próximas entre as duas populações. Há relações muito sólidas, tanto ao nível social como económico.”

À chegada, os refugiados encontram abrigo nos centros de Cyber City e Beshabsheh, perto da aldeia fronteiriça de Ramtha. Depois da viagem, podem desfazer as malas temporariamente já que as ONG’s garantem uma assistência de até quatro semanas. As famílias podem consultar um médico e as crianças contam com uma refeição quente na mesa.

Por outro lado, a população jordana desempenha um papel fundamental. É o que destaca Jens Hesemann, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. “A primeira opção baseia-se na generosidade dos cidadãos jordanos. Estas pessoas vivem nas casas deles. O sistema existe desde que a crise começou, no ano passado, e muitos sírios ficam nas casas dos habitantes da região. Como segunda opção, no caso de não poderem ficar nas famílias de acolhimento, há os apartamentos arrendados, procuramos edifícios que já existam e criamos centros.”

As ONG’s e o governo jordano não querem construir campos de refugiados tradicionais. Uma questão humanitária para as ONG’s e uma questão política para o executivo. Por isso, é difícil contar o número de sírios que encontram abrigo na Jordânia.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados registou a entrada de mais de dezassete mil pessoas. 30 mil foram identificadas por uma ONG jordana e necessitam de assistência.

Dominique Hyde, representante da UNICEF explica: “Noutros países, há realmente campos de refugiados e apenas isso. As pessoas são aí colocadas e aí ficam. Já na Jordânia temos uma abordagem que funcionou bem com os iraquianos, que consiste em integrá-los nas comunidades. Na Turquia, claro que a língua é diferente, enquanto que na Jordânia são as mesmas famílias, as mesmas tribos. Por isso, há muita integração.”

Arrancadas à força da terra natal em guerra, as crianças são o centro das atenções das ONG’s na Jordânia. Desde dezembro do ano passado, a UNICEF acompanhou mais de 1600 crianças e familiares em situação vulnerável com aulas e apoio psicossocial. Por outro lado, tentaram orientar cerca de 4000 menores para escolas locais.

“A primeira coisa que fazemos é ajudar as crianças a encontrar uma situação normal”, diz Dominique Hyde. “ Elas abandonaram tudo de forma rápida, a família e os amigos e, de repente, estão aqui, sem nada, num lugar desconhecido. Temos um centro onde eles aprendem, divertem-se, brincam e esquecem um pouco os traumas que viveram”, acrescenta. “Esta situação permite, também, que os pais reencontrem um pouco de calma e tranquilidade para planificar o que vão fazer depois”, conclui.

Fátima chegou há nove meses, com a família. Deixou o país logo no início da revolta para que os filhos não vivessem o horror da guerra. Hoje vive em Amã, a capital jordana. Arrendou um apartamento por 150 dinares jordanos, o equivalente a 160 euros por mês, muito abaixo do preço de mercado.

O ganha-pão são os pratos que prepara em casa e vende aos vizinhos. O marido arranjou alguns “biscates”. “Ele faz qualquer tipo de trabalho, como a carpintaria. É assim… Um dia trabalha, outro não”, descreve.

Fátima abandonou o lar em troca de paz. Voltar à Síria é uma questão cuja resposta não depende dela.

Muitos dos sírios que entram, clandestinamente, na Jordânia não têm um estatuto oficial, mas, na maior parte dos casos, são considerados “convidados”. As autoridades jordanas toleram a vaga de imigração mas não querem criar tensões diplomáticas com o país vizinho.

Oraib Al-Rantawi, diretor do Centro de Estudos Políticos Al Quds explica: “A Jordânia está no centro de muitas crises no Médio Oriente: Iraque, Síria, Palestina e não queremos ser apenas um país receptor de novas vagas de refugiados.”

Ao longo dos tempos, a Jordânia tem servido de porto de abrigo a refugiados oriundos de vários países. As novas vagas de imigrantes não significam apenas um problema económico para o governo. As autoridades políticas estão preocupadas com o protagonismo da Irmandade Muçulmana, depois da Primavera Árabe.

“Este é o resultado da Primavera Árabe, a chegada em força dos Irmandade Muçulmana no mundo árabe”, aponta Oraib Al-Rantawi. “São totalmente apoiados pela Turquia e, sobretudo, pelo Qatar. Os sauditas preferem apoiar os salafitas. Testemunhámos a chegada de muitos jihadistas à Síria. Para eles, a Síria é, agora, o local para a Jihad”, diz.

Hàgim, a mulher e os seis filhos vivem em Ramtha, depois de terem deixado a cidade síria de Daraa há dois meses. A Síria corre o risco de se transformar num novo Iraque e Hàgim está consciente disso. No entanto, faz questão de sublinhar que todas as religiões estão presentes na Síria. “Somos 23 milhões de pessoas na Síria. 23 milhões de sunitas, xiitas, alauitas, curdos, cristãos, drusos. Foi Bashar Al Assad quem nos virou uns contra os outros”, acusa. “Eu sou sunita, xiita, druso, curdo, cristão. Sou de qualquer religião no mundo que respeite o ser humano.”

Hàgim não quer um país despedaçado pelas divisões religiosas. Como muitos dos compatriotas, teme que uma guerra civil em grande escala se limite a abrir a caixa de Pandora.