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Festival de Cannes junta jovens produtores de cinema

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Festival de Cannes junta jovens produtores de cinema

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Judit Stalter e Vladimer Katcharava chegaram ao Festival de Cinema de Cannes, com um olhar determinado e a mesma atitude combativa.

Ela é húngara e ele vem da Geórgia. Os dois foram selecionados para integrar o programa “Producers on the Move”, uma rede europeia de produtores de cinema.

Vladimer procura colaborações internacionais:

“É importante conhecer pessoas de diferentes países. Quando trabalhamos num filme, sabemos a quem devemos ligar e que país escolher para cada projeto”, conta o produtor georgiano.

Judit quer conhecer processos de trabalho, nos restantes países da Europa:

“Estou bastante curiosa em relação aos diferentes projetos e em conhecer os outros produtores de talento para ver como as coisas funcionam no resto da Europa”.

O encontro de produtores de cinema decorre em Cannes, durante o mais famoso festival do cinema europeu. A iniciativa tem o apoio do programa Media da União Europa.

Este ano, Portugal não esteve representado. A ausência coincide com as críticas dos cineastas portugueses que denunciam a paralisia da produção cinematográfica nacional.

Geração Ipsílon contactou o Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA). De acordo com Vítor Pinheiro, participação no programa “pressupõe um encargo financeiro” que o ICA “não pode comportar”.

Um dos objetivos de “Producers on the move” é incentivar as co-produções europeias, algo importante para países com mercados pequenos, como é o caso da Hungria.

“Gostaríamos de atingir um nível internacional e ter um público mais alargado. Para isso, precisamos de encontrar parceiros para co-produzir, e não apenas por razões financeiras. É bom aproveitar a criatividade de outros países”, considera Judit.

Com a queda da União Soviética, a produção cinematográfica georgiana, até então reconhecida pela sua qualidade e originalidade, diminuiu drasticamente.

Este encontro pode contribuir para a recuperação do tempo perdido:

“Atravessámos tempos difíceis na Geórgia e desaparecemos do mapa, em termos de filmes. Agora, estamos a tentar reaparecer no mapa cinematográfico europeu”, explica Vladimer.

Não é fácil encontrar o parceiro certo para um projeto de co-produção.

O chamado “speed-dating” é uma forma rápida para saber se dois produtores têm vontade e possiblidade de fazerem um filme juntos.

Cada participante tem quatro minutos para apresentar um projeto e um putativo parceiro. Uma prova de fogo que deixa Vladimer nervoso:

“Fico sempre nervoso durante o ‘speed-dating’, e o ‘pitching’, é sempre algo diferente e difícil, mas estas práticas fazem parte da indústria”.

Judith está mais calma, embora não lhe agrade a luta contra o tempo:

“Não estou nervosa mas é natural sentir uma certa excitação. Temos de prestar atenção ao tempo e encontrar a melhorar forma de descrever o projeto”.

Tradicionalmente, muitos projetos de cinema ficam na gaveta, e não só em Portugal. A crise e outros fatores vieram piorar a situação:

Na Hungria, além da crise financeira, há um conflito aberto entre o poder politico e a sétima arte.

Os realizadores acusam o governo de querer controlar a produção cinematográfica.

“A crise é pesada e o financiamento é a parte mais dura da produção – reconhece Judith – mas é melhor fazer algo em conjunto do que tentar sobreviver sozinho”.

Na Geórgia, diz Vladimer, o clima parece mais ameno.

“Tivemos uma guerra com a Rússia em 2008, o que afetou a nossa economia, mas o governo percebe que o cinema é importante para a Geórgia. Apoiam-nos e não fizeram cortes”.

E para não ficar sozinho, além das competências técnicas, um produtor deve ter bons conhecimentos de psicologia.

“É muito útil conhecer bem as diferentes personalidades. Uma dose de criatividade para resolver os problemas, pode ajudar muito”, diz Judit.

Vladimer aposta abertamente na co-produção:

“Para mim, a co-produção é uma parceria, signfica que há uma relação e uma amizade. Fazer um filme é bastante dificil, se não tivermos um parceiro com quem temos vontade de partilhar as coisas, pode ser um pesadelo.”

As coisas têm corrido bem a muitos produtores da rede europeia. Nos últimos três anos, metade dos participantes trabalharam juntos, em mais de trinta projetos.

A troca de números de telefone, entre Vlamider e Judit presume uma bela amizade e, quem sabe, uma futura co-produção húngaro-georgiana.