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Franceses apostam forte na esquerda socialista


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Franceses apostam forte na esquerda socialista

Após ter vencido a corrida presidencial, François Hollande viu agora reforçada a sua força política.

O Partido Socialista conseguiu a maioria absoluta dos lugares na Assembleia Nacional. Esta maioria evita que os socialistas dependam do apoio dos verdes, com os quais têm um acordo de governo, e também da esquerda radical.

“Temos um Presidente eleito diretamente por sufrágio universal, que se apoia numa maioria forte acabada de chegar ao poder com um ambicioso programa europeu.

É claro que em comparação com Angela Merkel, que no próximo ano vai enfrentar eleições e que integra uma coligação, o Presidente Hollande está em posição de reforçar a sua liderança europeia. É claríssimo”, disse Fréderic Sawicki, professor na Sorbonne.

A nível externo, Hollande enfrenta no entanto uma difícil tarefa. Terá de convencer a Chanceler alemã Angela Merkel a apoiar o seu programa de estímulo ao crescimento europeu no valor de 120 mil milhões de euros.

“As condições governativas do Presidente Hollande e do seu governo deverão permitir não só atacar de forma decisiva os problemas económicos de França, mas também contribuir com credibilidade acrescida na gestão da crise da Zona Euro”, sublinha Giovanni Magi, da Euronews.

*Gaillard: “eixo franco-alemão funciona, apesar das divergências políticas”* 
 
 
Connosco, para analisar o resultado da segunda volta das legislativas francesas, Marion Gaillard, historiadora, conferencista na faculdade de Ciência Política, em Paris, e especialista em relações franco europeias.
  
Sophie Desjardin. euronews – Marion, a França tem um presidente e um parlamento de esquerda. Acha que as reformas prometidas vão poder efectuar-se sem obstáculos? O que muda, realmente, com a maioria absoluta?
   
 
Marion Gaillard – Pode dizer que os resultados dão a François Hollande uma certa tranquilidade para aprovar as reformas pelas quais foi eleito. Isto no que se refere a política interna. Quanto à Europa fica com mais margem na negociação nos acordos europeus, especialmente sobre os resgates na zona euro, com uma Frente de Esquerda que na realidade não tem peso nas decisões, o que também tranquiliza os parceiros e relaxa um pouco o ambiente.
 
 
euronews -  Na Europa atual só há cinco governos socialistas. Nesta onda geral de rejeição ao socialismo ou à social democracia como se pode interpretar esta vitória da esquerda em França?
 
MG – Podemos interpretar de dois modos diferentes, a partir de uma leitura europeia que varreu numerosos governos na Europa, quer na Itália de Sílvio Berlusconi quer na Espanha de
 Zapatero quer, evidentemente, na Grécia de Papandreu. O que verificamos é que a crise elimina os governos em curso. Mas também podemos fazer uma leitura a nível interno, porque há mais de 10 anos que não havia alternância em França e tivemos, simplesmente, o acerto da balança poltica, bastante clássico depois da rejeição do antigo presidente da República.   
 
euronews – Ainda estamos bastante longe de uma vaga rosa na Europa, mas acha que o modelo que defende Hollande, mais centrado no crescimento, pode criar escola?
 
 
Marion Gaillard – Já começou, porque as propostas de François Hollande tiveram acolhimento favorável em muitos países, incluindo os dirigentes que se negaram a recebê-lo durante a campanha, como o senhor Rajoy ou o senhor Monti. Por isso está a dar frutos e permitiu abrir o debate, acabar com os tabus, o que é importante para o futuro.
 
 
euronews - François Hollande tem uma frente cerrada, Merkel por enquanto ainda tem, mas, dentro de um ano, vai enfrentar eleições de alto risco que podem dar a vitória aos sociais democratas do SPD, apoiados por Hollande. Como vão ser estes meses de coabitação entre Merkel e Hollande?
 
Marion Gaillard – Para começar, não nos podemos adiantarmo-nos muito. A senhora Merkel não perdeu ainda ainda. E, por outro lado, tem havido muitas coabitações políticas no passado que, de facto, foram as mais produtivas da Europa, como por exemplo Valery Giscard d’Estaing com Helmut Schmidt, ou François Mitterrand com Helmut Kohl, de modo que o facto de não serem da mesma tendência política nunca impediu que o eixo franco-alemão funcionasse.
 
Há meios para que a chanceler e o presidente cheguem a acordo sobre a questão da zona euro, mas também será necessário que o novo governo se mostre mais audaz sobre a questão da união política porque vemos que França se mostra muitas vezes audaciosa sobre essa questão e a Alemanha tem expectativas nessa área.
  
 
euronews – A cimeira europeia, em finais de junho, é muito esperada. O que se pode esperar dessa reunião? Pode esperar-se a saída de alguns países da zona euro e o que significaria isso para a construção europeia?
 
MG – Não se pode excluir o cenário e uma saída de alguns países da zona euro, mas pessoalmente, acho que se tem de fazer tudo para a evitar porque seria muito grave para a zona euro e para a construção europeia.
 
A construção europeia passou por várias crises, como a rejeição da comunidade europeia de defesa em 54 ou a rejeição à Constituição Europeia em 2005, mas nunca retrocedeu. Seria um precedente com graves consequências.
 
  

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