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O setor privado no espaço

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O setor privado no espaço

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25 de maio de 2012, a primeira aeronave comercial prepara-se para aterrar na Estação Espacial Internacional. Uma empresa privada consegue algo que apenas as agências nacionais conseguiram: uma entrega de carga.

“A fiabilidade foi a primeira meta mas uma segunda meta importante é inovar tecnologicamente através de avanços que reduzam, efetivamente, os custos do transporte espacial, nós já conseguimos atingir uma série dessas metas. Mas a inovação mais importante, a mais necessária, é a rápida e completa reutilização, tal como nos aviões”, afirma Elon Musk, Presidente da empresa SpaceX.

Enquanto a tripulação de ISS recebe e descarrega a Cápsula Dragon, a pergunta permanece: pode uma empresa ter lucro com uma estratégia de recuperar e reutilizar astronaves?

Até agora, a SpaceX obteve metade dos seus fundos a partir da NASA que gasta centenas de milhares de dólares para estimular o desenvolvimento do transporte orbital comercial.

Charles Bolden, administrador da NASA explica:

“Em 2017 as empresas privadas vão assumir a responsabilidade de contratar os astronautas da NASA, e outros, para a Estação Espacial Internacional e para outros destinos em órbita próximo da Terra. E esse é um avanço importante.”

Durante décadas, a NASA tem confiado em empresas privadas para construírem alguns dos veículos e outros componentes, feitos sob medida, para o seu programa espacial.

O novo plano da Casa Branca passa por deslocar tarefas orbitais, simples, para o setor privado.

A NASA centrar-se-á na investigação com o objetivo de inovar na exploração espacial, enquanto deixa às empresas liberdade para criar e operar as suas próprias astronaves.

“Através da compra de serviços de transporte espacial, em vez dos próprios meios de transporte, podemos continuar a assegurar padrões de segurança padronizados, mas podemos também apressar o passo na inovação enquanto as empresas – desde as novas às já estabelecidas – competem para projetar, construir e lançar novos meios de transporte para pessoas e mercadoria, para fora da nossa atmosfera”, adianta o Presidente norte-americano.

Na Europa há várias parcerias público-privadas limitadas, até agora, aos satélites de telecomunicações, mas o papel do setor privado deve crescer com o desenvolvimento do setor.

“É normal que, inicialmente, este novo campo de atividade exigisse um apoio muito significativo do governo. Mas, a dado momento, tornar-se-á forte o suficiente para depender de empresas à procura de oportunidades e de modelos que não dependem apenas de fundos institucionais”, explica Andrés Gálvez, gestor de programa da ESA.

As empresas privadas americanas beneficiam do legado científico da NASA, assumindo alguns dos projetos abandonados – como os habitats espaciais insufláveis, desenvolvidos pela NASA até o Congresso anular o programa da TransHab em 2000.

“A NASA criou o conceito de habitats dispendiosos. Um problema que está a minar a agência é “a engenharia de PowerPoint.” Eles propõem uma ideia, o Congresso põe-se no seu caminho e impede o sucesso. Por isso, a NASA propôs a ideia mas deixou que nós implementássemos todos os detalhes e trabalho de engenharia”, adianta Michael Gold, diretor de operações da Bigelow Aerospace.

A empresa lançou dois protótipos para demonstrar como módulos insufláveis proporcionam um espaço vasto ao mesmo tempo que protegem a tripulação da radiação e detritos. A Bigelow planeia cooperar com a SpaceX, e outros transportadores, para enviar clientes privados a habitats orbitais por uma fração dos custos da ISS. Possível devido à ausência de legislação que restrinja as atividades orbitais.

“Por agora é muito fácil. Tecnicamente não há uma autoridade para as atividades em órbita no seio do governo federal. Há a FAA AST que é a vertente comercial da FAA, que regula as partidas e chegadas de mercadoria, mas não há um regime regulador em órbita”, acrescenta Michael Gold.

Todas as operações no espaço são geridas por regras baseadas nas convenções da ONU, dos anos sessenta. A lei para o espaço impõe, em particular, a responsabilidade pelos lançamentos e por qualquer dano causado pelo objeto espacial, privado ou não.

André Farand, responsável pelos aspetos legais dos lançamentos e exploração da ESA fala do envolvimento do setor privado:

“Penso que pode ver o envolvimento do setor privado de duas formas, primeiro como contratante para as agências espaciais – é o que vemos agora com a Estação Espacial Internacional onde uma empresa privada leva o seu próprio veículo lançador para carga à estação. Eu diria que as agências espaciais mantêm um certo controlo da atividade. Agora, com as entidades privadas e empresas, que têm os meios para ir ao espaço, os seus próprios veículos, eu acredito que, em 10/15 anos, eles desenvolvam o seu próprio enredo na exploração espacial. E essa, penso, é uma atividade que ainda será regulamentada pelo estado, porque o estado é o responsável e pode ser responsabilizado por qualquer dano, mas serão os privados a decidir que operação querem conduzir no espaço.”

No Colorado, um outro projeto abandonado está a ter um retorno impressionante.

Foi primeiro projetado pela NASA como um sistema salva-vidas para um regresso de emergência de uma plataforma espacial.

Agora a Dream Chaser está a fazer testes aerodinâmicos para que se torne num táxi espacial, um veículo reutilizável para levar pessoas de e para a Terra.

“Esta configuração, este formato, este corpo elevatório é uma herança russa, em termos de design, do chamado BOR-4. (Pause) Foi analisado pelo Centro de Investigação de Langley, da NASA, e concordaram que este veículo tinha características muito interessantes. É muito estável, por isso, no regresso à atmosfera terrestre não é preciso grande controlo para manter o aparelho a voar corretamente.

Eles trabalharam milhares de horas nele. Quando a nossa empresa decidiu agarrar o projeto, pensámos que não era muito inteligente começar com uma folha em branco, vamos usar algo em que a NASA já tenha apostado e investigado fortemente.

Chegámos até eles e pedimos informação, os resultados dos testes e eles deram-nos, como agência governamental que são, para permitirem à indústria privada tentar retirar algum proveito do dinheiro investido pelo governo, tirar vantagens a partir daí”, explica James Voss, vice-presidente da Space Exploration Systems.

O lançamento é esperado para 2014, será lançado verticalmente e regressará planando, como um Space Shuttle, mas de forma mais segura graças à sua estrutura, funcionalidades e ao combustível não tóxico.

“O que nós pretendemos fazer neste programa é desenvolver um sistema para o transporte LEO (baixa órbita terrestre) que será gerido por empresas como nós, com muita ajuda da NASA, isso permitiria à NASA focar-se em missões mais desafiadoras – ir a um asteróide ou regressar à Lua, ou talvez a Marte”, diz Mark Sirangelo, o diretor da Sierra Nevada Corporation Space Systems.

A Dream Chaser recebeu um fundo de 100 milhões de dólares da NASA para estimular o transporte espacial comercial.

“Até aqui as agências espaciais levavam, mais ou menos, as empresas pela mão diziam-lhe, exatamente, o que queriam alcançar e com alcançá-lo. Agora estamos a alterar o modelo, pelo menos em certos setores, nos quais podemos definir um certo alvo, um objetivo e depois deixamos as empresas, a indústria, trabalhar para este objetivo”, acrescenta Andrés Gálvez.

O futuro do turismo espacial, outro campo promissor no setor do espacial privado, ganha forma no deserto do Novo México onde o primeiro porto espacial comercial do mundo, construído de raiz, está a preparar-se para voos suborbitais.

Concebido pela Foster & Partners, tendo em vista um ambiente sustentável, o Spaceport America utiliza muito do espaço aéreo restrito de uma base militar de teste de mísseis.

“Isto é um terminal e um hangar, tudo junto. Os dois hangares podem ser ocupados por dois
aviões de transporte, chamados WhiteKnight 2…

O modelo empresarial é muito interessante, porque, até agora, tivemos dinheiro estatal, dinheiro dos contribuintes para construir o porto espacial. Até 2014 precisamos tornar-nos totalmente independentes. Por isso estamos a diversificar o nosso modelo empresarial. Conseguiremos dinheiro através dos nossos clientes de lançamentos espaciais, mas a outra parte virá do turismo e visitantes que querem conhecer e experimentar o Spaceport America”, explica Christine Anderson, diretora-executiva da Autoridade Portuária Espacial do Novo México.

A Virgin Galatic Company, escolheu o porto espacial para a sua base: os aviões, em fibra de carbono, levarão os turistas a 100 quilómetros da Terra, onde começa, oficialmente, o espaço.

Poucos minutos de uma paisagem inesquecível por 200 mil dólares. Centenas de pessoas estão já em lista de espera, os primeiros clientes farão o voo em menos de dois anos.

“Soubemos que havia muitas pessoas, em todo o mundo, que sonhavam ir ao espaço, esperavam ir ao espaço mas, 40-50 anos depois do primeiro homem ir ao espaço, ainda estávamos numa situação em que apenas os funcionários do governo tinham a oportunidade de fazê-lo. Era, realmente, um tipo de negócio onde havia procura mas um fosso no serviço e pensámos fazer algo sobre isto”, diz Stephen Attenborough, diretor comercial da Virgin Galactic.

Espera-se que, no futuro, este voo suborbital, possa tornar-se num meio global de viajar.

“Eventualmente, haverá muito mais portos espaciais, porque gostaríamos de viagem espacial de um ponto a outro, tal como fazemos com a indústria da aviação” explica Christine Anderson.

Muitos desafios há que superar até esta oportunidade comercial se expandir e as empresas privadas começarem a ter lucro oferecendo um transporte seguro e menos dispendioso.