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A "chanceler de ferro"

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A "chanceler de ferro"

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Angela Merkel, no poder há sete anos, é, sem dúvida, o líder político mais poderoso da União Europeia. A supremacia da economia alemã, a boa saúde de suas contas públicas reforçaram a posição da Chanceler para impôr as receitas para a crise do euro.

Disciplina fiscal, a redução dos défices, apesar do custo social da austeridade no aumento do desemprego e no descontentamento da população.

O rigor defendido por Merkel para sair da crise provoca um sentimento de rejeição de uma Europa, condicionada pela política de Berlim.

Os seus detratores chamam-lhe a “chanceler de ferro”, tal como a revista NewStatesman que a considera a lider mais perigosa da Europa.

Entre os seus pares, a chanceler alemã também recebeu críticas pela sua receita, considerada demasiado cautelosa, para sair da crise.

No G20 de Los Cabos, no México, ela sofreu pressões, por parte dos países da zona euro, mais penalizados pela taxa de dívida.

Mas sem resultados. Angela Merkel é uma mulher tenaz, como prova a sua carreira política…

Nascida em Hamburgo, em julho de 1954, estudou na ex-RDA, onde o pai, pastor luterano e a mãe, professora primária, se instalaram, quando ela tinha apenas mês e meio de vida.

Depois da reunificação alemã, tornou-se membro da CDU e protegida de Helmut Kohl, que a nomeou, em 1991, ministra para as mulheres e os jovens.

Chegou à direção do Partido Democrata Cristão, em 2000. Cinco anos depois, ascendeu à liderança. Repetiu a vitória em 2009.

Conquistou a Chancelaria, ainda em 2005 e, depois, em 2009.

Apesar do voto desfavorável nas eleições regionais, a chanceler mantém uma boa avaliação de popularidade, entre os alemães: 65 por cento afirmam ser confiável, a mais alta taxa, desde 2009.

OKGertrud Höhler: “O sistema Merkel recorda-me os sistemas totalitários”

Ela é “a mulher mais poderosa do mundo”, para a revista Forbes, “a rainha da Europa”, para o Der Spiegel. Angela Merkel continua no topo das sondagens de popularidade, embora comece a criar fraturas dentro do governo de coligação. Muitos membros da CDU estão descontentes e alguns não hesitam mesmo em cerrar os punhos. Esta é a opinião de Gertrud Höhler, professora de literatura e consultora política e económica que publica na Alemanha o livro “a madrinha”.

Ela analisou o que chama de “sistema M (Merkel)”, considerando-o “cripto-autoritário”. Höhler, que esteve à beira de ser ministra durante o governo de Helmut Kohl, e conhece o partido cristão democrata por dentro, junta-se a nós a partir de Berlim.

Euronews:
A professora analisou o “sistema M”. Como é que chegou à conclusão de que Merkel está a retirar poder ao parlamento?

Gertrud Höhler:
Sob pretexto de estar a salvar o euro, ela vai retirando poderes ao parlamento. Um exemplo á a recente decisão sobre o novo programa de aquisição de obrigações da dívida por parte do Banco Central Europeu que não necessitou da ratificação dos deputados. Uma situação que mostra como a política monetária contorna a democracia parlamentar na União Europeia, assim como no parlamento europeu.

Nós vivemos agora numa democracia sob uma pressão permanente para chegar a um consenso – o que faz com que muitos membros do partido cerrem os punhos. E todos aqueles que não estão de acordo com uma política de partido único, sabem, que mais cedo ou mais tarde, se arriscam ao isolamento ou a perder o lugar. E devo dizer-lhe que este tipo de ambiente, onde todos votam sempre pelo mesmo, recorda-me os sistemas totalitários.

Euronews:
O presidente francês Hollande defende o intervencionismo de estado, Merkel, para si, é uma campeã da economia planificada. Não se trata do “duo dinâmico” que levará a Europa ao que os eurocéticos chamam de “UE-RSS”?

Gertrud Höhler:
Claro que sim, eles estão ambos de acordo no que se refere à intervenção do governo na economia. E é surpreendente, que mesmo assim, que Merkel se mantenha à distância de Hollande. E a razão é provavelmente porque não necessita de um adversário quando um dia tentar voos mais altos dentro da cúpula da União Europeia.

Euronews:
Como é que Angela Merkel se utiliza das instituições europeias na sua luta pelo poder?

Gertrud Höhler:
Basicamente, ela apoia projetos que ninguém consegue compreender. Vemos patrões imunes ,que são os ministros das Finanças da União Europeia, que estão obrigados ao secretismo. Temos a “perpetuidade2 – um modelo anti-democrático – e, ao mesmo tempo, temos a possibilidade ilimitada de dispersar dinheiro. É o que chamam de “mecanismo de estabilidade” mesmo que este prossiga a desestabilização da Europa.

Euronews:
Angela Merkel, “a madrinha” que conduz a Alemanha, segundo Gerturd Höhler, pelo pior caminho, quando outros vêem na Chanceler a “boa madrinha da mafia na Europa”, obrigado professora Höhler…

Gertrud Höhler:
Deixe-me dizer que é extremamente importante compreender que, se o parlamento se converte, de decisor em mero observador, isto será extremamente perigoso para a democracia.