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"Não temos intenção de intervir, militarmente, na Síria (...)", Anders Fogh Rasmussen

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"Não temos intenção de intervir, militarmente, na Síria (...)", Anders Fogh Rasmussen

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O Secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, partilhou com a Euronews o que pensa sobre a fase final da missão da NATO no Afeganistão. Comenta também a questão do sistema de defesa antimíssil, na Europa e a tensão no Cáucaso.

Euronews:

Obrigado por nos receber na Sede da NATO em Bruxelas. Passou mais um ano sobre os ataques nos Estados Unidos onde morreram quase 3000 pessoas. Desde então, um número ainda maior de tropas da coligação, morreu no Afeganistão tentando prevenir ataques semelhantes, no futuro. Os soldados afegãos estão a matar os americanos que os treinaram. E as vidas perdidas, entre a população são imensas. Vale a pena todo este derramamento de sangue?

Rasmussen:
Cada pessoa morta, seja civil ou militar, representa uma morte a mais. Mas é preciso lembrar qual foi o propósito da criação da operação militar internacional no Afeganistão. O propósito foi, e continua a ser, impedir aquele país de se tornar um porto seguro, uma vez mais, para terroristas que o poderão usar como local de lançamento de ataques contra as nossas sociedades. E nessa matéria a nossa operação teve um grande sucesso. Não vimos terroristas a atacarem, a partir do Afeganistão, os nossos países desde que começámos a nossa operação.

Euronews:

Terá a NATO repetido os erros da ex-união Soviética ao não prever a resistência à aceitação desta força pela população local? Está a NATO a caminho de uma retirada pouco dignificante?

Rasmussen:

Não, pelo contrário. Aprendemos as lições. Uma diferença clara é que construímos uma força de segurança afegã muito forte que vai assumir o controlo.

Euronews:

Mas há muita desconfiança. A prisão de Bargam foi entregue às autoridades afegãs mas os americanos continuam a controlar parte dela e de alguns dos seus ocupantes.

Rasmussen:

A transferência de poderes para os afegãos faz parte da transição global de responsabilidades sobre a segurança. Mas, obviamente, nós também temos de encontrar o equilíbrio entre a soberania afegã e a segurança das tropas afegãs e das nossas.

Euronews:

Depois de 2014 as tropas da NATO vão regressar às suas casernas para defenderem os seus países ou há, ainda, assuntos por resolver noutros locais?

Rasmussen:

Cabe a cada parceiro individual da coligação decidir se vai associar-se a outras missões internacionais, entre elas missões mandatadas pelas Nações Unidas, em qualquer outro lugar.

Euronews:

Não está a considerar a Síria ou…

Rasmussen:

Não. Não temos intenção de intervir, militarmente, na Síria e não planeamos intervir em mais lado nenhum.

Euronews:

O Presidente Putin disse que se Barak Obama for reeleito poderá haver um acordo na NATO sobre o Sistema de Defesa Antimíssil na Europa, se Mitt Romney vencer ele poderá virar o sistema contra a Rússia. Pensa que o futuro do sistema depende de quem ganha as eleição americanas?

Rasmussen:

Não. Deixámos claro aos russos que o Sistema de Defesa Antimíssil da NATO não tem como objetivo atacar a Rússia ou minar a estratégia russa de dissuasão. Não temos qualquer intenção de atacar a Rússia. A NATO e a Rússia assinaram um documento conjunto, em 1997, chamado “Ato Fundador”. Nesse documento a Rússia e a NATO declararam, claramente, que não vão usar a força uma contra a outra. Estamos empenhados nesse compromisso. E desejo e espero que a Rússia também.

Euronews:

Mas a Rússia espera algumas garantias mais fortes, garantias de ligação à NATO. Por que não dar-lhas?

Rasmussen:

Porque a melhor garantia que a Rússia pode conseguir é empenhar-se, construtivamente, na cooperação sobre a Defesa Antimíssil. Foi-nos sugerido que criássemos alguns centros comuns para que pudessem ver, com os seus próprios olhos, que o nosso sistema não se dirige contra a Rússia.

Euronews:

Exortaram a Rússia a ser transparente em relação aos exercícios militares, deste mês. Qual é a sua preocupação? Preocupa-o que estes exercícios aconteçam próximo da Geórgia e quase coincidam com as eleições que vão aí decorrer?

Rasmussen:

Não nos opomos aos exercícios, mas pedimos transparência como medida de construção da confiança: qual é o objetivo do exercício? Onde vai decorrer? Como vai ser conduzido?

Euronews:

Qual é a informação que falta? Porque é que não é totalmente transparente?

Rasmussen:

Lamentamos não ter recebido qualquer informação formal da Rússia.

Euronews:

Parece muito empenhado em ver a Geórgia juntar-se à NATO. Obviamente que isso vai enfurecer, mais ainda, os russos. A que distância está a NATO de se mover para aquilo a que Moscovo considera ser a sua esfera de interesses?

Rasmussen:

Estamos comprometidos com um princípio fundamental que todas as nações da região Euro-Atlântica subscreveram em 1999, no quadro da OSCE. Esse princípio fundamental significa que cada nação individual tem o direito de decidir a sua afiliação à aliança. Espero que a Rússia se comprometa também. Por isso, cabe à Geórgia decidir. E a Geórgia declarou que aspira a isso. Em 2008 a NATO decidiu, numa cimeira em Bucareste, que a Geórgia se tornará membro da NATO, contando claro que preencha os requisitos necessários.

Euronews:

A última questão é sobre a Arménia. Esteve à pouco tempo lá. Deve ter assistido a protestos anti-NATO. Não sente responsabilidade pelo soldado arménio morto durante as manobras da NATO em Budapeste?

Rasmussen:

Esse foi um caso infeliz. Mas deixe-me que lhe diga que não assisti a manifestações anti-NATO. Assisti a protestos de jovens manifestantes contra a decisão do Azerbaijão perdoar o oficial Saforov. Esse crime terrível não deveria ser glorificado. E estou muito preocupado que a decisão do Azerbaijão, de perdoar o oficial do exército, possa pôr em causa a confiança e paz, a cooperação e reconciliação na região.