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França/Charlie Hebdo: a crítica morddaz levada ao extremo

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França/Charlie Hebdo: a crítica morddaz levada ao extremo

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Charlie Hebdo tem uma história diferente dos outros semanários.

O único semanário satírico em França leva a provocação ao extremo, desde que apareceu, há 50 anos.

Cáustico e desrespeitoso, auto-assumido de esquerda libertária, tem como lema “tudo é permitido, hoje e sempre, porque a liberdade de expressão em França é sagrada.”

O diretor da publicação é claro:

“Não se podem fazer caricaturas de Maomé em França? Claro que podem, em França podem fazer-se caricaturas de toda a gente. Não recrimino os muçulmanos por não se rirem dos meus desenhos, mas não admito que nos venham ditar as próprias leis. Eu vivo sob a legislação francesa, não sob a lei do Corão.”

Para ele e para os colaboradores, podemos rir-nos de tudo.

“O único assunto que levanta problemas é o Islão radical. Quando atacamos, com a mesma virulencia, a extrema direita católica, ninguém fala nos jornais, mas em troca não podemos satirizar os integristas muçulmanos. Deve ser uma nova regra mas, claro, não vamos respeitar.”

O credo do semanário é não deixar que o dobrem nem ceder às pressões. No ano passado, a sede foi alvo de um incêndio criminoso provocado por um cocktail molotov. Horas antes, a direção tinha decidido publicar de um número batizado Charia Hebdo, em alusão à vitória do partido islamista Nahda, na Turquia.

Por vezes divertida, às vezes grosseira, sempre irreverente, a revista/jornal, que se proclamava “estúpida e desagradável, foi fundada por dois amigos, há meio século com o nome de Hara kiri.

Em 1970, a revista foi proibida depois de uma polémica manchete em que se brincava com dois acontecimentos traumáticos: a morte do general Charles de Gaulle na residência de Colombey, e um incêndio numa discoteca, em que morreram cerca de 150 pessoas. O Hebdo Hara-kiri publicou o título: “Dança trágica em Colombey: um morto”.

Depois da proibição, Harakiri converteu-se no Charlie Hebdo.

Desde então, o semanário não tem mudou sustancialemnte: os directores e e os cartoonistas sucederam-se na redação, mas o espírito é o mesmo.

Charlie enfrentou inúmeros processos judiciais, nomeadamente da Igreja Católica. Os políticos têm sido os principais visados, mas os clérigos, de todas as religiões, não escapam.

Podemos-nos interrogar quanto à pertinência e motivação de determinadas manchetes. Uma coisa é certa: a procura excecional obrigou a uma tiragem adicional de mais 70 mil exemplares.