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Paolo Pollichieni: "a Europa continua a ser um paraíso para a mafia"

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Paolo Pollichieni: "a Europa continua a ser um paraíso para a mafia"

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A polícia italiana prossegue uma das maiores operações de sempre contra as ramificações políticas da mafia calabresa.

Um conselheiro regional da região da Lombardia foi detido esta quarta-feira, em Milão, por alegadas relações com a N’Drangheta.

Domenico Zambeti, responsável pelo pelouro da habitação, teria pago 200 mil euros a vários responsáveis mafiosos para comprar cerca de quatro mil votos durante as eleições regionais de 2010.

Um caso que aumenta as suspeitas sobre o governador da Lombardia e membro do partido de Silvio Berlusconi.

No total 20 pessoas foram detidas em Milão. Em paralelo, oito pessoas foram detidas na região da Calábria, no quadro da mesma investigação, entre as quais um responsável municipal da recolha de resíduos domésticos.

A operação foi lançada depois do governo italiano ter demitido, na terça-feira, a integralidade do conselho municipal de Reggio Calabria, formado por cerca de 32 responsáveis políticos, suspeitos de ligações à mafia local.

Uma expulsão em bloco inédita que deverá colocar a região sob uma administração provisória até às próximas eleições.

Paolo Pollichieni é um dos jornalistas que denunciou com mais veemência os vínculos entre criminalidade e política na Calabria.

Michele Carlino – Até ao momento, 52 Conselhos Municipais da região da Calabria foram dissolvidos pela infiltração da Máfia. Por que é que é Reggio Calabria, número 53 da lista, que mais barulho faz?

Paolo Pollichieni – Para começar porque é o primeiro Conselho Municipal de uma capital de província dissolvido em Itália. Além do mais constitui a maior e mais povoada cidade da região da Calabria, mas também há uma razão política: até agora falava-se de Reggio Calabria como de um exemplo, um modelo do centro direita para governar toda a região e as instituições locais.

O relatório feito pela prefeitura e que desencadeou a dissolução cita a Reggio como um exemplo, sim, mas de criminalidade.

O ministro do Interior sublinhou que no caso de Reggio estamos face a uma espécie de coabitação, uma continuidade; e continuidade não quer dizer que encontrei um intruso em casa, quer dizer que lhe deixei a porta aberta.

Michele Carlino – Segunda grande notícia de hoje, a detenção em Milão do conselheiro da Região de Lombardia, Domenico Zambetti, acusado de pagar à Máfia. Como conseguiu a N’drangheta infiltrar-se e impôr os próprios métodos, entre eles condicionar a política, tão longe da zona de origem?

Paolo Pollichieni – Este é o problema principal. Até o ministro do Interior falou nisso ontem.
Atualmente, em Itália, e também na Europa, considera-se a Ndrangueta um tipo de Mafia localizada, muito regional, com algo de folclórico. As investigações mostram o contrário: a Ndrangueta está instalada há 20 anos em Milão. Nos últimos 15 anos decidiu fazer política. Mas a Ndrangueta também está presente além fronteiras.

Constatou-se depois do massacre de Duisburg. Mas tenho a impressão de que agora estamos a esquecer essa verdade. Os investigadores que trabalham para evitar a exportação da Ndrangueta, acabam de assinalar que os mafiosos, graças a enormes quantidades de dinheiro líquido proveniente do tráfico de droga, constituiram empresas legais na Alemanha, em França, na Holanda. E com essas empresas vão participar em ofertas públicas em Itália, inclusivamente na preparação da exposição universal de Milão. Às empresas italianas pede-se-lhes que apresentem um certificado anti-máfia, enquanto que às empresas estrangeiras não.

Michele Carlino – Acha que este tipo de casos podem dar-se também em outros pontos de Europa? e Faz Europa todo o possível para lutar contra o crime organizado e as máfias?

Paolo – Não é que a Europa não combata suficientemente a Mafia, o pior é que nem sequer está consciente de que o problema existe. Na legislação europeia não está previsto o delito por associação de malfeitores, e ainda menos delito por associação mafiosa. Os investigadores italianos dão-se conta disso cada vez que viajam no estrangeiro.

Quanto à procura de criminosas com paradeiro desconhecido, há um mínimo de cooperação europeia, mas na prevenção da atividade criminosa da Ndrangueta, que reaparece legalmente, limpa, não há cooperação. A Europa continua a ser um paraiso para os criminosos, estes só têm de pagar impostos.