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O que a Rússia pode fazer pela Europa

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O que a Rússia pode fazer pela Europa

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Há muito que Igor Shuvalov faz parte da cúpula política russa. O atual vice-primeiro-ministro, função que ocupa desde o executivo de Vladimir Putin, tem a seu cargo as políticas económicas e o orçamento federal. A euronews entrevistou-o em Berlim, durante a visita pelo aniversário do Comité Oriental da Economia Alemã.

euronews: Igor Shuvalov, bem-vindo à euronews. Estamos em Berlim, a capital do mais poderoso Estado europeu. No entanto, há números recentes, relativos à Alemanha, que são pessimistas. Ao mesmo tempo, a Rússia está a fortalecer-se. Há uma estratégia em relação ao enfraquecimento do Ocidente? Estão os países ocidentais a perder terreno?

IS: É difícil afirmar que o Ocidente está a enfraquecer. Vamos viver num contexto instável durante muitos anos. Haverá alturas em que o Ocidente será mais forte, outras que não. Espero que, ao longo destes anos, a Rússia se consolide, porque temos tudo para o fazer. Mas o ponto de partida é muito diferente. A economia alemã, por exemplo, é poderosa, desenvolvida, e está a lidar com dificuldades completamente diferentes daquelas que a Rússia enfrenta. Nós estamos num período de transformação. Também enfrentamos uma série de desafios, temos de pôr a economia a funcionar e a crescer. Mas para nós, para os russos, há um plano estratégico muito claro: temos de trabalhar em conjunto com a União Europeia e, em simultâneo, com a região da Ásia-Pacífico. Queremos construir um espaço económico comum, assente em regras económicas e regulações comuns. Os países deste espaço vão manter a independência política e consolidar instituições políticas conjuntas. Será como a União Europeia, sem a burocracia de Bruxelas. A Rússia, o Cazaquistão e a Bielorrússia já estão a construir este espaço económico comum. A partir de janeiro de 2015, vamos dar início à União Económica Euroasiática. Ao mesmo tempo, no contexto oriental, a Rússia vai arrancar com um programa de desenvolvimento muito sólido, promovendo as suas exportações e criando com alguns Estados uma zona de livre comércio. Concretamente, já estamos a iniciar negociações com o Vietname.

euronews: Dir-se-ia que a Rússia está cada vez mais atenta ao que se passa a Oriente…

IS: Não se trata disso. A Rússia é um Estado europeu. O nosso território fica na Eurásia, mas a nossa civilização é europeia. A União Europeia representa mais de 50 por cento das nossas exportações, da nossa balança comercial. Não estamos a limitar a cooperação, estamos a desenvolvê-la. No entanto, dada a dimensão da Rússia, e ao enquadramento geográfico maioritariamente no continente asiático, temos de desenvolver parcerias com os países asiáticos.

euronews: No contexto atual de crise, a Rússia está a usar a sua força para ajudar a Europa?

IS: A Rússia representa um mercado de consumidores muito lucrativo. Para a Alemanha, por exemplo, seria impossível alcançar o potencial comercial sem a Rússia. Ao interagir e negociar com a Alemanha, estamos a ajudá-la, assim como à União Europeia. As nossas reservas estrangeiras são, na maior parte, em euros. Portanto, não há dúvidas de que apoiamos o desenvolvimento da economia europeia em vários contextos, na cooperação entre Estados, entre governos e entre negócios.

euronews: Chipre, que atualmente ocupa a presidência da União Europeia, solicitou um apoio financeiro específico. Vai responder a este pedido?

IS: Está em consideração no nosso Ministério das Finanças. Não temos fundos específicos para ajudar a economia europeia, mas temos abertura para avaliar esse pedido. Evidentemente, terá de ser com a cooperação de toda a União Europeia. Este tipo de problemas não pode ser resolvido só numa base bilateral, no atual contexto económico.

euronews: Nas grandes potências asiáticas sobretudo, na China o Estado desempenha um papel predominante na economia. Isso é um problema para a Rússia? O controlo do Estado fortalece ou enfraquece? Há uma espécie de capitalismo estatal?

IS: Nós não temos capitalismo estatal. Isso é um estereótipo. Estamos a privatizar bens do Estado, ações das nossas companhias. Mais do que nunca, o governo está determinado a apoiar as empresas e a melhorar o contexto económico.

euronews: Quando a Rosneft adquire ações da TNK-BP, não está o Estado a alargar o controlo sobre a produção de petróleo?

IS: Não, não está. Antes de mais, não são conhecidos os termos finais do acordo, ainda não recebemos essa informação. Só conhecemos as condições gerais. Mas se estas forem implementadas nos termos específicos do acordo, isso significa a consolidação das ações da Rosneft e mesmo o alargamento da sua privatização. A transação surte outros efeitos, nomeadamente para a BP, uma das acionistas da TNK-BP, que se tornaria também numa das principais acionistas da Rosneft. No fundo, é uma operação que fortalece os ativos da companhia, que é a maior produtora de petróleo e aquela que possui maior capacidade, detendo as maiores reservas conhecidas. Neste cenário, com a BP a tornar-se acionista, o processo de privatização e de controlo corporativo será reforçado. Se a Rosneft se limitasse a comprar esses ativos, aí estaria de acordo consigo. Mas não foi isso que aconteceu. É um acordo positivo e muito complexo. O mais importante é que seja implementado precisamente nos termos já anunciados.

euronews: A Gazprom é outra corporação de matérias-primas. A Comissão Europeia está a investigar a posição dominante que tem no mercado e as suspeitas de manipulação de clientes, forçando-os a vender a quem a companhia entende…

IS: A minha resposta é simples: todas estas iniciativas têm um só objetivo, que é o de baixar o valor do fornecimento de gás da Gazprom. Mas se o preço do gás for muito reduzido, a produção começa a decair o que, posteriormente, provoca um aumento acentuado dos valores da matéria-prima.

euronews: Como figura do governo nos últimos 12 anos, teve Vladimir Putin como presidente e primeiro-ministro. Agora com Dmitry Medvedev, as coisas estão a mudar?

IS: Claro que estão a mudar. Havia coisas diretamente ligadas à pessoa que é Vladimir Vladimirovich, agora há outras que decorrem da personalidade de Dmitry Anatolyevich. Mas manteve-se aquilo que é importante: o governo tem de trabalhar rápido para tomar conta do país, para acompanhar o ritmo da modernização…

euronews: A modernização continua…

IS: A modernização continua – da vida pública, política, social e económica. Só há vantagens em trabalhar melhor em prol dos cidadãos. Caso contrário, são os eleitores que nos vão chamar à atenção.

euronews: O apoio social tornou-se numa prioridade, com investimentos consideráveis. É uma medida populista ou o governo está a virar-se para a esquerda?

IS: O número de ricos aumenta todos os anos. Por outro lado, continua a haver muita gente pobre e vulnerável. Um fosso tão grande entre ricos e pobres, assim como a falta de proteção da classe média, podem ser um grande obstáculo ao potencial de crescimento e aos objetivos de modernização. Por isso, os programas sociais impulsionados por Putin não significam uma viragem à esquerda, nem são medidas populistas; destinam-se a criar as bases da modernização.