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Deschamps: "Jogadores franceses não têm amor à camisola"

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Deschamps: "Jogadores franceses não têm amor à camisola"

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A seleção francesa voltou a reprovar no último campeonato da Europa. Laurent Blanc passou o testemunho a Didier Deschamps e os resultados estão à vista: duas vitórias e um importante empate em Madrid deixam a França no primeiro lugar do grupo I de apuramento para o mundial 2014. Apesar dos bons resultados, a mentalidade dos jogadores franceses é o que mais preocupa o novo selecionador. Em entrevista exclusiva à euronews, Deschamps falou sobre os problemas internos do grupo e acusou alguns dos seus jogadores de falta de amor à camisola.

Cláudia Garcia, euronews: Bom dia, Didier Deschamps e bem-vindo à Euronews. A seleção francesa saiu do último europeu mais uma vez cabisbaixa. Os blues renasceram com Deschamps?

Didier Deschamps: Não sei se renasceram, mas temos um objetivo claro que é disputar o mundial do Brasil. Acabamos de sair de um bom resultado com a Espanha em Madrid, fizemos uma ótima segunda parte e isso deu e emoção e paixão aos adeptos franceses que há tanto tempo não viviam momentos assim.

euronews: O que é que mudou desde que está no comando da seleção francesa?

D. Deschamps: Tudo. Não, estava a brincar. Os jogadores franceses têm muita qualidade, mas para além das qualidades individuais é preciso criar um forte espírito de equipa e de grupo. A nova geração de jogadores tem uma mentalidade errada, porque não foram habituados a viver quotidianamente com regras e sobre exigências. Também não são agarrados a esta camisola como o deveriam ser. Alguns são menos do que outros.

euronews: Mas é só um problema dos jogadores ou também da organização que está por detrás da seleção francesa?

D. Deschamps: A verdade é que em França os jogadores têm uma grande liberdade, demasiada e mais do que nos outros países. É preciso também mais autoridade da parte dos dirigentes e dos clubes franceses.

euronews: Quando chegou à seleção, conversou em particular com Menez, Nasri, Ben Arfa e M’Vila, os jogadores que foram ouvidos pela FFF?

D. Deschamps: Sim, posso ligar-lhes, conversar com eles, algumas vezes explicar-lhes e discutir as minhas motivações, mas não sou obrigado a fazê-lo. Os jogadores devem aceitar as minhas decisões. Sei, no entanto, que nunca vão estar de acordo com as minhas motivações para não convocá-los.

euronews: Deschamps fez parte de uma seleção que ganhou tudo, a seleção francesa atual nunca ganhou nada. Há algum motivo para ter um ego assim?

D. Deschamps: O ego existe no futebol, talvez algum jogador o tenha um pouco maior do que o outro. O ego pode ser uma força interior e ser transformado em qualidade, como também pode ser um grande defeito. A culpa também passa pelas pessoas que estão em torno, às vezes a própria imprensa que faz de um jogador um fenómeno depois de fazer duas boas partidas.

euronews: Que regras impôs quando chegou à seleção em julho?

D. Deschamps: A principal regra é que os jogadores devem passar a dar mais. Quando são chamados à seleção não devem apenas receber, devem dar e devem sentir-se privilegiados por estarem aqui e dar o máximo, porque representam a França e há tanta gente que espera o melhor deles.

euronews: O que é que deve fazer um jogador durante o ano para ser convocado por Didier Deschamps?

D. Deschamps: Devem ser competitivos nos clubes, porque eu vejo muitas partidas. Este é o primeiro critério, e não devem ter comportamentos não aceitáveis.

euronews: Esses critérios deixaram Clichy, Nasri, Ben Arfa, Mexes, M’Vila e Malouda fora da seleção?

D. Deschamps: Não, Clichy está connosco, tem jogado.

euronews: Mas tem perdido espaço.

D. Deschamps: Porque tem concorrência. Nessa posição temos um jogador que é titular que é Patrice Evra e joga no Manchester United. É normal que quando se troca de treinador, venham alguns jogadores novos. O Malouda nem sequer têm jogado com o clube, está a treinar com equipa B do Chelsea.

euronews: No entanto, ele jogou o último europeu.

D. Deschamps: Sim, mas desde aí nunca mais jogou nem treinou. Eu tenho de fazer escolhas, quanto mais difíceis são, melhor é.

euronews: Já Nasri e Ben Arfa têm disputado vários encontros com os seus clubes na Premier League.

D. Deschamps: Têm jogado bem é verdade, mas também há outros jogadores que têm jogado muito bem. Devo escolher, até agora optei por outros.

euronews: E M’Vila?

D. Deschamps: M’Vila tem potencial, mas depois daquilo que aconteceu, certamente não voltará a vestir a camisola da seleção francesa tão cedo. Isso é ponto assente.

euronews: Muitos franceses acusam-no de ser demasiado rígido e crítico com os seus jogadores. Concorda?

D. Deschamps: Não creio. Pedem-me para ser ainda mais rígido, mas também não estou à procura de unanimidade.

euronews: Fez parte de uma seleção inesquecível para a França. Como capitão levantou uma taça do Mundo e uma da Europa. Que diferenças existem entre a sua seleção e a atual?

D. Deschamps: Antes de viver o mundial 1998, vivi 1994 quando nem sequer nos apuramos para o Mundial dos Estados Unidos. No meu tempo falava-se sempre da geração de Platini, que tinha sido a melhor. Nunca é fácil para um geração que chega depois de grande momentos e glórias, porque existem ciclos. O Brasil teve o seu, a Espanha está a fazer um percurso extraordinário, mas os ciclos terminam. Uma equipa não consegue manter o mesmo nível durante 10 ou 15 anos.

euronews: Onde pode chegar esta seleção com Deschamps?

D. Deschamps: O mais alto possível. Para já queremos ir ao Brasil e depois se tudo correr bem, poderei continuar mais dois anos até ao Europeu 2016 na França.

euronews: Aproxima-se a votação da Bola de Ouro. Já decidiu em quem votar?

D. Deschamps: Devo votar, certamente a decisão será entre Ronaldo e Messi. Deviam oferecer duas bolas de ouro, mas não é possível. Há outros jogadores fantásticos: Casillas, como guarda-redes, Xavi e Iniesta, os espanhóis ganharam tudo e também mereciam o prémio, mas como é que se faz para concorrer com estes dois?

euronews: Muito obrigada por falar à euronews.