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A lei da sobrevivência, segundo os bancos alimentares europeus

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A lei da sobrevivência, segundo os bancos alimentares europeus

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“Há pessoas que vêm aqui porque estão desempregadas, porque têm de pagar as rendas e os empréstimos. E quando pagam tudo, deixam de ter dinheiro para comer.” O depoimento da Irmã Esperanza Romero resume o dilema de muitos espanhóis: gastar o que têm em comida ou a saldar dívidas?

A Irmã Romero abriu-nos as portas da Cozinha Económica de Oviedo. Desde que a crise se agravou, esta instituição recebe todos os dias, nas suas cantinas, mais de 300 pessoas, grande parte oriundas da classe média. Cerca de uma centena de voluntários garante o serviço. O menu custa 50 cêntimos. Uma quantia que muitos não podem dispensar. A onda de choque provocada pela implosão da especulação imobiliária deixou sem nada um número inédito de empresários e trabalhadores. E, todos os dias, as coisas parecem piorar.

A taxa de desemprego ultrapassa os 25 por cento, um em cada quatro espanhóis, um recorde histórico. Sem a solidariedade, muitos apontam, seria a fratura social. Mas como funciona esta rede alimentar? As doações vêm de cidadãos particulares e de empresas, como hipermercados, plataformas logísticas ou redes de grande distribuição.

María Velasco coordena o Banco Alimentar das Astúrias e gere um dos 247 centros de distribuição da Federação Europeia de Bancos Alimentares, que trabalha em 21 países. No ano passado, foram repartidas cerca de 400 mil toneladas de alimentos, destinados a mais de 5 milhões de cidadãos no limiar da exclusão social. Velasco explica que “todos os produtos alimentares são trazidos até às nossas instalações, como esta nas Astúrias. Os voluntários recebem as mercadorias, fazem o inventário, armazenam e distribuem entre vários organismos. (…) A nossa função não é dar comida diretamente, fazêmo-lo através de centenas de organismos que trabalham no terreno, porque são eles que sabem em que situação as pessoas se encontram e como as podem ajudar.”

Este trabalho de solidariedade é possível graças à colaboração de 31 mil associações europeias; a grande alavanca é o apoio de mais de 10 mil voluntários. Mas, para além dos alimentos, são também necessárias ajudas financeiras. José Antonio Busto é o presidente da Federação Espanhola de Bancos Alimentares, entidade que recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias da Concórdia. Busto não esconde o choque que lhe provoca a disseminação da pobreza: “Aos que já eram pobres, juntaram-se profissionais, estudantes, técnicos licenciados, que já não têm direito ao subsídio de desemprego e que não têm ninguém para os ajudar. São pessoas que vêm comer às cantinas sociais e que enfrentam a escolha entre pagar a renda ou comprar comida.”

Numa altura em que os bancos alimentares pedem mais recursos, o programa europeu de ajuda aos mais desfavorecidos, o PEAD, está a chegar ao fim; termina em 2013. O que vem a seguir, não é suficiente, garante Busto: “Nós queremos que o projeto continue a existir, que o seu orçamento seja reforçado, porque cada vez mais pessoas precisam dele. Não faz sentido nenhum reduzir de 500 para 355 milhões de euros. A ajuda alimentar é muito importante, é primordial. Por isso, é um tema que temos de debater com os políticos.”

Essa redução anual está prevista no quadro orçamental de 2014 a 2020, de acordo com a proposta definida pela Comissão Europeia, que apresentou um pacote global de 2,5 mil milhões de euros.