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Gaza: O porquê dos raides aéreos israelitas

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Gaza: O porquê dos raides aéreos israelitas

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Os recentes raides aéreos israelitas sobre a Faixa de Gaza fizeram crescer as tensões em torno da candidatura palestiniana ao estatuto de Estado
Observador junto da ONU.

Os Estados Unidos e Israel opõem-se à pretensão de Mahmoud Abbas de apresentar a 29 de novembro a candidatura, argumentando que as negociações de paz suspensas há dois anos devem ser concluídas antes.

Para o enviado especial palestiniano às Nações Unidas, estes ataques visam torpedear essa candidatura e influenciar as próximas eleições gerais israelitas a disputar em janeiro.

“O que estamos a fazer tem um significado profundo, não é em vão. Os líderes de Israel estão aterrorizados com a ideia de na Assembleia Geral nos ser permitido, ser permitido aos árabes, à comunidade internacional, legalizar o Estado da Palestina, ou seja, reconhecer e outorgar à Palestina o estatuto de Estado Observador”, disse Riyad Mansour, enviado especial palestiniano às Nações Unidas.

Por seu lado, o Egito vê-se numa situação delicada.
O presidente Mohamed Morsi, politicamente próximo do Hamas, opõe-se às ações israelitas, mas simultaneamente quer preservar as relações com Washington e mostrar uma governação idónea.

Giovanni Magi, da Euronews, entrevistou Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, sobre o atual momento vivido na Faixa de Gaza

Giovanni Magi – O que está por trás da atual escalada de violência em Gaza? É a pretensão palestiniana de se tornar Estado Observador na ONU e as eleições em Israel?

Pascal Boniface, diretor do Instituto de Relações
Internacionais e Estratégicas – Efetivamente existe um enquadramento estratégico que conduz a esta escalada da tensão.
De um lado, o aumento da tensão entre a Síria e Israel visto que Bashar al Assad está muito mais isolado desde o acordo de Doha. Foram disparados rockets para Israel, o que irritou os israelitas.
Depois, existe um calendário particular israelo-palestiniano simultaneamente ligado às eleições previstas para o fim de janeiro próximo em Israel -a política de força é sempre popular e pode levar Netanyahu a ganhar votos. Por outro lado, ao mesmo tempo, o Hamas está um pouco penalizado pela pretensão palestiniana de obter um voto na Assembleia Geral da ONU, que vai certamente ser favorável aos palestinianos.
Não se sabe ainda em que proporções, não se sabe ainda qual será a atitude dos países europeus, mas sabe-se que a pretensão palestiniana vai ganhar porque terá a seu favor a maioria e na Assembleia Geral não existe o veto.

GM – Na sua opinião será possível um cenário como em 2008-2009, com uma operação militar israelita de grande envergadura e de graves consequências para os civis?

PB – Não o podemos excluir, mas não é um cenário maior porque Israel ficaria certamente mais isolado do que nessa altura. A estratégia israelita é mais para colocar o Irão e não os palestinianos como o perigo número um da região.
Portanto, uma intervenção terrestre em Gaza seria, por um lado, complicada dado que os palestinianos têm melhor armamento anti-carro do que em 2008 e, por outro lado, isso poderia ser uma armadilha política e militar para o Tsahal. Seria também uma armadilha mediática na medida em que as perdas humanas só fariam aumentar a popularidade palestiniana a apenas alguns dias da votação da Assembleia Geral da ONU.

GM – Quem beneficia mais com este permanente
estado de guerra? O Hamas ou Israel?

PB – Beneficia o Likud, o governo israelita que tem necessidade de mostrar que dirige o país, que o protege e que pode aplicar uma política de força.
Pode-se pensar que estes confrontos colocam o Hamas na posição de opositor número um de Israel e que simultaneamente existe um despique entre israelitas e palestinianos e uma disputa política no seio de Israel entre os partidários das negociações e os que defendem uma linha de força.
Vamos encontrar as mesmas clivagens entre os palestinianos, o Hamas e a Autoridade Palestiniana.

GM – Estes ataques poderão complicar as já frágeis relações entre Israel e o Egito?

PB – Se há algo que não vai acontecer entre Israel e o Egito, é a guerra. O Egito não entrará em guerra com Israel. Não que não haja alguns que tenham vontade de o fazer, mas não têm meios.
A relação da força militar entre o Egito e Israel é muito mais favorável a Israel. Se o Egito se lançasse nessa aventura seria derrotado militarmente, seria humilhado. Nenhum poder
político corre esse risco.
Quaisquer que sejam os sentimentos, e no Egito são pouco favoráveis a Israel, haverá uma degradação das relações políticas e diplomáticas, mas, por questões de poderio militar não haverá um regresso à guerra. Mais, a ajuda militar americana ao Egito terminaria se este enveredasse pelo caminho da guerra.