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Itália mergulha de novo na crise

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Itália mergulha de novo na crise

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O anúncio da futura demissão de Mario Monti foi acolhido com grande preocupação pelos mercados e pelos dirigentes europeus. Exemplo disso foi a subida em flecha das taxas da dívida italiana e a forte queda registada na bolsa de Milão.

Mario Monti não está ainda seguro do seu futuro político, mas considera que não se deve dramatizar a reação dos mercados. O certo é que a crise em Itália ameaça atiçar a crise do euro.

Itália deverá realizar eleições em fevereiro e espera-se agora uma campanha anti-auteridade. Os líderes europeus lançam já um apelo: o futuro governo tem de prosseguir com as reformas iniciadas por Monti.

Os dados económicos não deixam margem de manobra. A economia italiana contraiu 2,4% no terceiro trimestre, o desemprego atinge um valor recorde e a dívida deverá atingir, este ano, 126% do PIB.

Para perceber a reação dos mercados, a euronews falou com Tito Boeri, professor de Economia na Universidade Bocconi, em Milão.

Annibale Fracassso, euronews: O anúncio da demissão do primeiro-ministro Mario Monti gelou, como previsto, os mercados. A bolsa de Milão afundou, os spreads subiram em flecha e os juros das obrigações italianas a 10 anos estão a subir. Itália volta, de forma dramática, a estar no centro da crise do euro?

Tito Boeri, economista e professor: Há uma preocupação legítima porque o governo realizou uma importante reorganização e recuperou a credibilidade internacional. Hoje, Itália volta a estar numa situação difícil. O primeiro-ministro Mario Monti anunciou a sua demissão e agora há uma incerteza sobre o que nos espera no futuro. Eu continuo, mesmo assim, otimista sobre o futuro cenário político em Itália.

euronews: As principais agências de notação deram a saber que nas próximas eleições não haverá uma clara maioria. O parlamento italiano não poderá, por isso, avançar com a austeridade implementada por Monti nos últimos 14 meses?

T. Boeri: Provavelmente, vai votar-se com a antiga lei eleitoral, que é péssima. Mas, se não houver surpresas, a coligação de centro esquerda deverá vencer tendo a seu lado a coligação de centro, com Monti num papel importante. E essa coligação poderá condicionar de forma positiva a ação do novo governo, continuando a agenda de reformas iniciada pelo executivo Monti.

euronews: O primeiro-ministro Monti anunciou a decisão de se demitir em Cannes, precisamente a mesma cidade francesa onde, há um ano, na cimeira do G20, Merkel e Sarkozy ironizavam a ação governativa de Silvio Berlusconi. O que é que a Europa vai fazer agora?

T. Boeri: Creio que a Europa olhe Itália com apreensão. Embora, esta aceleração da crise seja, em certos aspetos, positiva, porque quer dizer que a campanha eleitoral será mais curta. Deveremos ter eleições já em fevereiro e, por isso, estaremos em condições de ter um novo governo no início de março. Um governo reforçado pelo consenso popular e capaz de tomar decisões ainda mais difíceis. Penso que os italianos compreenderam quem é o responsável pela crise e não irão cair em promessas e no populismo.

euronews: Esta semana, o Eurogrupo vai encerrar o dossiê de ajuda à Grécia. Itália arrisca-se a ser a nova Grécia da Europa?

T. Boeri: Estivemos muito perto em novembro de 2011, quando Berlusconi foi a Cannes. Estavámos mesmo à beira do abismo, à beira de nos transformarmos na nova Grécia. Felizmente, num ano, o governo Monti mudou a situação e creio que o mundo vê Itália de forma diferente. O que estamos a viver agora é, de certeza, um percalço, mas acredito que a visão em relação à Itália mudou realmente e que, felizmente, estamos suficientemente longe do abismo.