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Grécia aperta classe média mas com otimismo

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Grécia aperta classe média mas com otimismo

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A Grécia vai fechar o ano pressionada por um agressivo aumento de impostos previsto para 2013. Atenas prepara-se para o sétimo ano consecutivo de recessão, acentuada pelo novo pacote de ajuda acordado com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional. Tudo para evitar a falência do país e a saída da Zona Euro.

A tragédia grega estende-se, naturalmente, às compras de Natal. Apenas as lojas de artigos usados, que aqui vemos, podem sorrir. Mas pouco. Existe, ainda assim, algum otimismo. Após uma reunião decisiva em Bruxelas, na sexta-feira, o primeiro-ministro grego celebrou, com o acordo de novo pacote de ajuda, o fim do rumor da eventual saída grega da Zona Euro. “Já vos tinha dito antes: uma história de sucesso na Grécia é uma história de sucesso também para a Europa”, atirou Antonis Samaras, aos jornalistas que o esperavam à saída da citada reunião.

O sorriso constante evidenciado pelo primeiro-ministro grego resultou do acordo europeu para novo empréstimo ao executivo tripartido de Atenas.
A nova tranche aprovada pelos 27 e pelo FMI ascende aos 52,5 mil milhões de euros. Uma boa parte desse dinheiro será entregue de pronto.

Para o receber, porém, a Grécia teve de aceitar um aumento da receita fiscal ma ordem dos 2,5 mil milhões de euros no biénio de 2013-2014. Esse passo implica, porém, um brutal aumento dos impostos sobre a classe média grega

Os escalões de IRS, tal como em Portugal, vão ser reduzidos. Passam de oito para três. As famílias gregas com rendimentos até 25 mil euros anuais passam a descontar 22 por cento. Até 42 mil euros, descontam 32 por cento. E daí para frente, 42 por cento. No que toca às empresas, a taxa sobre os lucros passa dos 20 para os 26 por cento. Mas a taxa sobre os dividendos desce dos 25 para os 10 por cento.

Uma família grega com três filhos que declare 25 mil euros, por exemplo, vai descontar mais 830 euros. Ao todo, será um imposto familiar de 3800 euros ao ano. É por isso que nem todos os gregos estão felizes. É o caso de Anastasia Thoma, economista de 45 anos, que se revela cética face a este novo pacote de ajuda à Grécia. “Acredito que o dinheiro vai ajudar o país, mas apenas a curto prazo, não mais do que isso. O nosso país precisa de mudanças profundas para conseguir uma verdadeira recuperação”, defende Anastasia.

O Banco Central grego, por seu lado, prevê que a contração económica iniciada no país em 2008 chegue aos vinte e quatro por cento em 2013. O desemprego, por outro lado, duplicou os números de 2010, atingindo agora 25 por cento dos gregos. Mais de 100 mil pequenos negócios fecharam portas.

Apesar dos esforços para o contrariar, a crise agravou a corrupção no país. Segundo a organização Transparência Internacional, a Grécia é o país mais corrupto da União Europeia. Em termos globais, entre 176 países, os gregos baixaram do 80.° para o 94° lugar.

Para nos falar das mudanças fiscais em curso na Grécia, após o acordo para mais um pacote de ajuda económica ao país, temos connosco o professor George Pagoulatos, da Universidade de Economia de Atenas.

Stamatis Giannisis, Euronews: Será este novo sistema de impostos justo para os contribuintes gregos ou terão de ser mais uma vez os funcionários dos setores público e privado a suportar a maior carga de impostos?

George Pagoulatos, professor: É de facto um problema que sejam os cidadãos cumpridores os que mais têm de aguentar com os esforços para aumentar a receita do Estado. É uma situação antiprodutiva e, ao mesmo tempo, socialmente injusta. É importante que o Estado grego se foque mais nos grupos que sistematicamente fogem aos impostos, mas não apenas nos que ganham mais. O Estado tem de olhar também para as pequenas e médias empresas e para os trabalhadores independentes.

Apesar dos esforços, professor, ainda nenhum Governo grego conseguiu combater de forma eficaz a evasão fiscal. Porquê?
Para sermos justos, os esforços para combater a evasão fiscal realizados nos últimos anos tem sido dos mais metódicos e sistemáticos das últimas décadas. Mas estes esforços precisam de tempo. Não se destinam apenas a uma reforma fiscal, requerem também uma reorganização dos respetivos serviços e, sobretudo, tem a ver com a mudança de mentalidade de uma larga fatia da sociedade grega que não está, simplesmente, habituada a pagar impostos. Outro problema é a lentidão da justiça nos processos de evasão fiscal. Mas eu estou otimista de que as reformas que estão a ser aplicadas vão dar frutos em breve. Mesmo que os resultados não sejam logo sentidos.

A decisão do Eurogrupo de conceder à Grécia uma nova tranche de ajuda reduz de alguma forma a possibilidade de uma crise política e económica num futuro próximo?
Temos alguns factos novos. Um deles é o dinheiro e a capitalização concedida ao sistema bancário. O que permite aos bancos emprestar dinheiro com maior facilidade. Outro dado positivo é o compromisso dos membros da Zona Euro em reduzir as hipóteses de uma eventual saída grega do Euro. Este risco, recordo, teve o efeito de congelar todo o processo económico na Grécia, com impacto na entrada de capital, nas poupanças e no investimento. Era, porém, um receio exagerado porque três quartos da sociedade grega estão a favor do Euro. Agora que este receio de desvanece, a Grécia tem a possibilidade de entrar numa fase de estabilidade económica e de novo atrair investimento estrangeiro.

O próximo ano será o sétimo consecutivo de recessão na Grécia. Existem alguns sinais de que no final de 2013 a Grécia possa reentrar no caminho da recuperação económica através, por exemplo, de alguns investimentos fortes?
Como já referi, um dos sinais é haver já uma certa estabilidade de volta à economia grega. Depois, à medida que diminui o risco de a Grécia sair do Euro – possibilidade que algumas pessoas vinham a considerar -, o país torna-se atrativo para potenciais investidores uma vez que esta a recuperar muita da sua competitividade perdida. A Grécia é, por tudo isso, um país que tem para a oferecer várias perspetivas económicas relacionadas com um vasto programa de venda de participações em empresas públicas.