Última hora

Última hora

A ameaça asiática ao futebol mundial

Em leitura:

A ameaça asiática ao futebol mundial

Tamanho do texto Aa Aa

O anúncio da Europol relativo à rede de manipulação de resultados até pode ter sido feito em Haia, mas é em Singapura que se encontra aquele que é alegadamente o cérebro da organização.

Dan Tan é um velho conhecido das autoridades europeias, com o seu nome a surgir associado a investigações das polícias italiana, alemã, finlandesa… sempre devido à manipulação de resultados.

Existe inclusivamente um mandado de captura internacional, mas o governo de Singapura alega a inexistência de um acordo de extradição com a União Europeia e recusa-se a entregar o seu cidadão.

Dan Tan é acusado de controlar a partir de sua casa não só várias redes criminosas um pouco por todo o mundo, mas também jogadores, árbitros e dirigentes. Um negócio envolvendo milhões de euros e que inevitavelmente atraiu as atenções das autoridades.

A revelação fez manchete um pouco por todo o mundo, mas o escândalo ainda agora começou. Há quem negue as acusações, como o Liverpool, diretamente implicado por um jornal dinamarquês devido ao encontro frente ao Debrecen, a contar para a Liga dos Campeões de 2009.

No entanto os principais clubes têm-se mantido em silêncio. Já a UEFA limitou-se a manifestar disponibilidade para colaborar e castigar os intervenientes… assim que tiver em sua posse todos os dados da investigação.

Para discutir o assunto falámos com Sarah Lacarrière, responsável pela integridade do desporto na SportAccord e coautora do documento “Apostas desportivas e corrupção – como preservar a integridade do desporto?”

euronews: A investigação da Europol revelou a existência de centenas de jogos manipulados em todo o mundo, mesmo na Liga dos Campeões. Podemos dizer que os resultados dessas competições são falsos?

Sarah Lacarrière: Efetivamente a Europol liderou um vasto inquérito que na verdade é o prolongamento de uma investigação em Bochum que tinha revelado uma série de jogos que teriam sido manipulados, não apenas na Liga dos Campeões. O alvo foram sobretudo competições domésticas mas sim, naturalmente existiram resultados falsificados.

euronews: Devemos estar surpreendidos por estas revelações?

Sarah Lacarrière: A novidade é o facto de afirmar que existe uma lista com um certo número de pessoas, cerca de quatrocentas, que teriam participado. Atletas, árbitros, dirigentes, mas também pessoas ligadas ao crime organizado. As organizações desportivas como a UEFA têm colaborado com as autoridades, sobretudo depois do inquérito de Bochum. Por isso não estamos surpreendidos, mas a verdade é que estas revelações têm uma maior amplitude.

euronews: Acredita que a integridade do futebol está seriamente posta em causa com estas revelações?

Sarah Lacarrière: Não podemos ser alarmistas e começar a pensar que todos os jogos são manipulados, que se trata de uma prática generalizada. Mas temos de estar inquietos, é um domínio que tem gerado cada vez mais interesse por parte de vários agentes, sobretudo ligados ao crime. E como vimos nas revelações da Europol, tal como tínhamos visto no recente escândalo em Itália, trata-se do crime organizado proveniente da Ásia, com ligações a certas máfias balcânicas, a dominar o jogo.

euronews: Este inquérito aponta o dedo ao futebol, podemos falar de falta de enquadramento legal ou até da ausência total de controlo nas apostas?

Sarah Lacarrière: Existe todo um mercado ilegal que se desenvolveu com as novas tecnologias. Tudo isto é alimentado com a crescente visibilidade das competições desportivas a todos os níveis. O futebol em particular, mas também outras modalidades como o ténis ou o críquete. As competições servem cada vez mais de apoio às apostas desportivas ligadas ao mercado ilegal. Aí, o controlo deve ser reforçado ao nível da cooperação entre os organismos públicos dos diferentes estados.

euronews: Porque é que o futebol não cria uma organização anticorrupção, à imagem da Agência Mundial Antidopagem?

Sarah Lacarrière: É inegável que os recursos humanos e materiais já existem. Agora é preciso ver como todos os agentes a nível do desporto, e não apenas do futebol, podem trabalhar em conjunto para lutar contra este flagelo. É necessário reunir todas as partes interessadas, incluindo os operadores de apostas. Desempenham um papel crucial e precisam de ser responsáveis na sua oferta. As iniciativas tomadas pelo Conselho Europeu devem caminhar nesse sentido.