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Zeffirelli: Itália tem "uma profusão ridícula de partidos políticos"

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Zeffirelli: Itália tem "uma profusão ridícula de partidos políticos"

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Franco Zeffireli festeja 90 anos este mês e é um dos últimos sobreviventes da época áurea do cinema e do teatro italiano. A adaptação cinematográfica de duas obras de Shakespeare, “A Fera Amansada”, com Elisabeth Taylor e Richard Burton, e “Romeu e Julieta”, nos anos 60, valeram-lhe o reconhecimento internacional do grande público. Zeffirelli foi também encenador lírico e trabalhou várias vezes com Maria Callas.

Euronews:

Mestre Zeffirelli, se tivesse de fazer um filme sobre a Itália de hoje, como descreveria o país? Que tipo de filme faria?

Zeffirelli:

As palavras para descrever Itália são sempre as mesmas. O que sobressai ao longo dos séculos e por todo o país é o “deixa andar”, um sentimento de superioridade relativamente aos outros, a busca dos defeitos dos outros e a dissimulação dos nossos defeitos. Apesar de tudo, Itália é o berço de grande parte da cultura mundial. Os italianos esquecem-se muitas vezes que fizemos inúmeras descobertas, não só no campo artístico mas também nos campos da medicina, da ciência ou da astronomia.

Euronews:

Gosta da Itália de hoje?

Zeffirelli:

A Itália atual tem todos os aspetos de uma potência mundial e somo-lo, em parte, de um ponto de vista económico. Mas há também uma grande confusão de opiniões e uma profusão ridícula de partidos políticos. Nos primeiros anos da nossa democracia havia duas frentes claras. E nessa época o mundo também estava dividido em dois: de um lado o Ocidente Capitalista, do outro o Bloco Comunista.

Euronews:

Entrou na política com a Força Itália, o partido fundado por Silvio Berlusconi. Foi eleito senador em 1994. Que recordações guarda dessa experiência?

Zeffirelli:

Eu não levei uma vida de político. Através do meu compromisso tentei, sobretudo, sublinhar as qualidades do povo italiano, as bases de uma certa filosofia política por oposição ao fascismo. De uma maneira mais geral os políticos não deveriam ocupar-se da Cultura porque só fazem disparates e, inversamente, os agentes culturais não deveriam meter-se na política porque isso não é possível em Itália.

Euronews:

Mas se fosse agora ministro da Cultura que medidas tomaria?

Zeffirelli:

Abriria escolas por todo o lado para que os jovens não fossem mais confiados a professores que lhes transmitem uma visão errada da nossa sociedade. É preciso ter em mente que na nossa península nasceu muito do que o Homem fez de importante. Menosprezamos muitas vezes a nossa grande responsabilidade… mas tem sido sempre assim.

Euronews:

Mantém-se em contacto com Silvio Berlusconi?

Zeffirelli:

Sim, acho-o simpático. Ele tem defeitos evidentemente mas eu aprecio-os. O problema com os defeitos é que podemos gostar deles ou não. Podemos detestar alguns defeitos numas pessoas e apreciá-los noutras. É verdade, Berlusconi é um putanheiro, paciência, mas isso é a vida dele. Fora isso, é um homem que se construiu sozinho.

Euronews:

Tem o projeto de criar um museu em Florença?

Zeffirelli:

Trabalho atualmente num projeto de fundação com o meu nome. A minha vida tem sido longa e rica e penso ter ainda alguns dias, semanas, anos à minha frente, não sei. Tenho vontade de deixar tudo o que fiz àqueles que poderão tirar algum proveito. No seio dessa fundação haverá uma exposição permanente com tudo o que fiz na vida.

Euronews:

O senhor é apreciado no mundo inteiro. Com quem se deu melhor entre todos os atores e artistas com quem se cruzou?

Zeffirelli:

O ofício de ator é muito importante porque representa a oportunidade que tem o ser humano de quebrar a barreira da realidade e de abrir o mundo da fantasia. O teatro é como uma porta que permite transmitir os sonhos de uma pessoa a outra. Quando o público vai assistir a um espetáculo ele é enfeitiçado porque um grande ator vai permitir ao espetador compreender o que esconde dentro de si.

Euronews:

Qual é a ópera que melhor representa Itália através do mundo?

Zeffirelli:

Há tantas! Mas pessoalmente sinto-me ao serviço de La Bohème e, ao mesmo tempo, sou seu escravo. Quando a oiço cesso todas as atividades e deixo-me transportar pela recordação magnífica da obra desse louco extraordinário que era Puccini.

Euronews:

Por último, pode dizer-nos o que espera de Itália?

Zeffirelli:

Poderíamos fazer tudo, se utilizássemos tão-somente o que o destino nos deu. Com as nossas qualidades, as nossas energias espirituais e criativas, cada homem poderia criar o seu pequeno paraíso.