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Bento XVI: um homem recetivo a sugestões e à troca de opiniões

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Bento XVI: um homem recetivo a sugestões e à troca de opiniões

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Joaquín Navarro-Valls, porta-voz do Vaticano durante mais de duas décadas no pontificado de João Paulo II falou com a Euronews sobre a decisão de Bento XVI. O Papa renunciou à liderança da Igreja Católica algo que já não acontecia há cerca de 600 anos. Uma decisão justificada com a falta de forças para exercer funções. O Adeus aos fiéis está marcado para 27 de fevereiro.

Euronews: Constatamos que se registaram mudanças, podemos dizer notáveis, na gestão dos meios de comunicação social e, de uma forma mais geral, na estratégia de comunicação da Santa Sé quer no Pontificado de João Paulo II como de Bento XVI.

Valls: “Bento XVI é uma pessoa muito sensível a estas questões. Ele deixou que o ajudassem, ou melhor, aceitou as sugestões em diversas ocasiões difíceis de gerir. Penso, por exemplo, na visita sempre difícil de um Papa a Auschwitz, mais ainda para um Papa alemão. Noutras situações não menos difíceis esteve sempre recetivo a sugestões e à troca de opiniões – não no que ao conteúdo dos discursos, mas no modo de o fazer, tendo em conta a oportunidade e o local. E nesse campo, creio que foi sempre recetivo.”

Euronews: A tarefa de Bento XVI não foi fácil tendo em conta que sucedeu ao Papa mais mediático na história da Igreja Católica. Uma pessoa que sabia, sobretudo, comunicar. A imagem de Bento XVI fica associada a uma pessoa um pouco mais tímida?

Valls: “Pessoalmente não considero Bento XVI tímido. É alguém que antes de se tornar papa confraternizou com os intelectuais da época. Mostrou-se confortável com a troca ideias com os não crentes e com as pessoas de diferentes religiões. A importância de Bento XVI foi, acima de tudo sobre as ideias do nosso tempo. Ele nunca se interessou em apenas ganhar um argumento, mas mais na tentativa de convencer os outros pela força de suas ideias. Por que ele foi brilhante.”

Euronews: O Papa João Paulo II expõs a doença à sociedade, enquanto Bento XVI resignou à liderança da Igreja Católica. Dois exemplos completamente diferentes, mas nem por isso menos polémicos. Podemos falar de mudanças significativas nestes dois Pontificados?

Valls: “Será que mudou alguma coisa e o que vai mudar no Pontificado a partir de agora? Creio que nada mudou. Não estamos habituados a ver os Papas a apresentar a demissão, mas ninguém disse que é impossível. É um dado histórico, mas não jurídico dado que o direito interno da Igreja prevê exatamente essa possibilidade.”

Euronews: Qual é a sua melhor recordação com os últimos dois Papas?

Valls: “Lembro-me da véspera da morte de João Paulo II -que estava a sofrer com dificuldades respiratórias e sabia que ia morrer – quando Joseph Ratzinger, Decano do Colégio dos Cardeais, entrou no quarto do Papa para se despedir. Ele aproximou-se da cama e pegou na mão de João Paulo II que estava fria – porque ele tinha problemas sanguíneos graves – olhou-o nos olhos e disse: Obrigado Santo Padre por tudo o que aprendi consigo durante este longo Pontificado.”
Foi a mensagem de despedida de Ratzinger a João Paulo II.”