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Jovens desempregados sem rede de segurança familiar

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Jovens desempregados sem rede de segurança familiar

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A crise económica atinge a Itália e impõe nova agenda política. Uma das prioridades do próximo governo será o desemprego, o dos jovens que não conseguem um emprego, e os mais velhos, que perdem o trabalho e ficam à margem da sociedade. Todos os detalhes no especial Itália 2013.

Salvatore fala quatro línguas. Trabalhou em três continentes e fez um restaurante italiano de luxo no Equador.

No entanto, ele, a mulher e o filho de 20 meses, atualmente, dependem da ajuda da Cáritas para comer. Salvatore:

“Neste saco está o nosso mês de sobrevivência. O que mais me interessa é isto, a comida para para o bebé”

Salvatore é um dos 2,9 milhões de desempregados recenseados em Itália, em Dezembro de 2012.

O número aumentou 1,8% num ano, o que preocupa os especialistas por causa das possíveis consequências…por exemplo, a destruturação da rede de solidariedade baseada nas famílias, um sistema que já evitou o pior noutros países do Mediterráneo.

Ian Ross Macmillan dirige um centro de investigação sobre dinâmicas sociais, da Universidade de Bocconi:

“Para países como Itália, Espanha e a maioria dos países mediterrânicos que tinham nas famílias uma rede de segurança, as coisas mudam radicalmente no caso do desemprego afetar os mais velhos. Se empregados de longa duração ficam sem rendimentos, a rede de segurança cede completamente.”

Quando o gigante da banca Lehman and Brothers o deixou sem poupanças e teve de renunciar aos projectos no estrangeiro, Salvatore regressou a Itália, instalou-se em Milão e decidiu começar do zero.

Mas não contou com a crise económica, que o obrigou a fechar o estabelecimento que geria para uma grande cadeia de restaurantes.

Agora não encontra trabalho por ter demasiada experiência…

“Às vezes dizem que é por causa da idade, outras vezes por causa do currículo: com mais de 20 anos de actividade, supõem, à partida, que têm de me pagar um salário correspondente à experiência na profissão.”

A rede de segurança familiar é mais importante do que nunca. Efetivamente, todos os indicadores mostram que os jovens precisam cada vez mais dos pais para sobreviver.

Na zona euro, a média de desemprego juvenil ronda os 24%. Em Itália o desemprego dos menores de 25 anos aumentou cinco pontos percentuais num ano e atinge atualmente 37%.
Também disparou o número de jovens que renunciam a necessidades primárias para chegar ao final de mês.

Um dos responsáveis do Centro Dondena, Arnstein Aassve, fez uma investigação que qualifica a situação de desastre económico e social”, principalmente devido aos possíveis efeitos a longo prazo.

“Estes jovens não vão ser tão independentes financeiramente como os da geração anterior. Faz-se tudo mais tarde: encontrar um trabalho estável, comprar um apartamento, fundar uma família, ter filhos”

Este especialista conclui que o fenómeno vai desencadear a curto prazo migrações em massa dos jovens para países mais ricos. Em Itália, as diferenças entre norte e sul agravam-se.

Na região de Campania, o índice de desemprego entre os jovens atingiu o nível recorde de 44%, o que representa mais do dobro da Lombardía. Para além disso, os licenciados que conseguem encontrar trabalho ganham menos 17%, em média, do que os colegas do norte do país. É o caso de Raffaella, licenciada em Matemáticas na Universidade Federico II de Nápoles:

“Trabalhei sete meses num colégio privado com um salário de 600 euros mensais. E isso porque nos impediram de aceder ao ensino público. Num concurso recente a candidatura estava reservada aos licenciados em 2002 e aos que já tinham a habilitação. E nós? Não nos tiveram em conta.”

O índice de desemprego no ano a seguir à licenciatura universitária duplicou desde 2007. Em 2011 representava 19%.

Roberta, antiga colega de Universidade de Raffaella, teve de se resignar a aceitar o primeiro trabalho disponível que nada tem a ver com o curso.

“Sou licenciada em matemáticas com menção de honra, tive de me adaptar ao que fui encontrando. Durante dois anos, trabalhei numa discoteca.”

Em 2011 a contratação de licenciados pelas empresas rondava os 12,5%; segundo as estimativas, a taxa aumentará dois pontos até ao final do ano. E é com estes prognósticos que os jovens devem construir o futuro.