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Itália:Mafia

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Itália:Mafia

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O Estado italiano gasta rios de dinheiro com policias e magistrados na luta anti-Mafia, mas o inimigo reinventa-se constantente.

Reggio Calabria, em junho de 2010, foi palco de um rude golpe contra a Ndrangheta, um dos sindicatos do crime mais poderosos de Itália.

Fizeram-se 40 detenções, entre elas a de um advogado e 30 empresários. Os clãs inimigos, que antes se matavam entre si, agora colaboram, como explicou o então procurador antimafia Piero Grasso:

“A investigação META reconstruiu as relações criminosas em Reggio Calabria. Da investigação depreende-se uma gestão unificada dos negócios ilícitos, cujos benefícios se repartem por todas as associações criminosas.”

A associação criminosa que lidera os incríveis lucros da Mafia é a Camorra, com 3,75 mil milhões de euros, seguida pela Ndrangheta, com 3,49 mil milhões e a seguir a Cosa Notra com 1,87 mil milhões de euros.

Só a Camorra e a ‘Ndrangheta juntas representam 70% do volume de negócios dos grupos mafiosos italianos, e Cosa Nostra 18%.

Mas agora a Mafia também quer integrar a
economia legal, como sucedeu em 2010 com o mercado e a distribuição de frutas e verduras. Os três sindicatos do crime tentaram monopolizar a produção do sul de Itália.

Giandomenico Lepore, Procurador anti-Máfia em Nápoles:

“Na região do baixo Lacio começamos a ver, num dado momento que o clã Caselesi estava a trabalhar com a máfia siciliana, tentando interferir no mercado de frutas e de hortaliças em Fondi , um dos maiores revendedores em Itália.”

Mas os três sindicatos do crime também se globalizaram: na Europa estão presentes em Espanha, Alemanha e Holanda, principalmente.

E na carteira de investimentos da “Mafia business” encontra-se evidentemente a pedra. O setor imobiliário continua a ser uma forma de branqueamento privilegiado; a confiscação é a arma letal do Estado de direito.

Euronews: Connosco está o Procurador antimáfia, principal autoridade em Itália na luta contra o crime organizado, atualmente de licença para razões eleitorais. Piero Grasso candidato ao Senado pelo Partido Democrata é cabeça de lista pela região de Lázio.

A máfia infiltrou-se no mercado global e adaptou-se à crise oferecendo capital às empresas que precisavam de liquidez. De acordo com um estudo encomendado pelo governo, o volume de negócios corresponde a dois por cento do PIB. A política mostra-se incapaz de fazer face à contaminação financeira levada a cabo pela máfia.

Pergunto-lhe, será necessária uma abordagem internacional na luta contra a máfia?

Grasso: “A máfia é um fenómeno transnacional como tal os crimes são cometidos em diferentes países. E é preciso encontrar provas que responsabilizem os mafiosos em cooperação com todos os outros países.”

Euronews: Será que a Europa tem os meios adequados para lutar contra o crime organizado e seguir o rasto do dinheiro?

Grasso: “A Itália tem os meios jurídicos mais modernos e mais eficazes de combate ao crime organizado, foi isso que constatei em conversas com colegas estrangeiros. É preciso apreender e confiscar a riqueza ilícita e, neste aspeto, temos uma legislação, absolutamente, avançada. Creio que deveriam ser estabelecidas normas semelhantes em todos os países europeus e fora da Europa, precisamente para evitar que os Estados que não dispõem de legislação adequada, se tornem num refúgio para os que tentam escapar à justiça. Senão vejamos, em quatro anos e meio apreendemos em Itália, bens no valor de 40 mil milhões de euros. Temos, portanto, de continuar neste caminho: colocar as mãos nos bolsos da máfia é uma prioridade.”

Euronews: Tendo em conta a sua experiência, que meios governamentais devem ser adoptados na luta contra a máfia e a nível europeu que propostas pretende apresentar quando entrar na vida política?

Grasso: “Em relação a Itália temos, como disse, uma boa legislação, mas é preciso aprefeiçoá-la adoptando, por exemplo, medidas contra o branqueamento de dinheiro, contra os que cometem crimes e depois escondem os capitais. Além disso, são necessárias normas sobre a evasão e fraude fiscal e melhorias na lei contra a corrupção. A nível internacional, penso que devíamos exportar a lei italiana, nomeadamente, as normas sobre a apreensão de bens. Há países que já adotaram sistemas similares.”

Euronews: Pode dar-nos o exemplo de um instrumento concreto que poderia propor caso viesse a integrar o futuro governo?

Grasso: “Por exemplo, uma lei que permitisse a apreensão do património de todos aqueles suspeitos de terem cometido delitos associados ao crime organizado.”

Euronews: A luta contra a Máfia é também uma luta contra uma mentalidade, falamos do clientelismo. Como mudaria essa mentalidade através de seu trabalho no Parlamento?

Grasso: “A luta contra a máfia não é, apenas, repressão. Exige também uma mudança cultural. Mas para conseguir isso, é preciso primeiro resolver os problemas e as necessidades das pessoas. Por vezes a máfia e os políticos aproveitam-se com recurso a uma estratégia subtil dessas necessidades e apresentam-se capazes de resolver esses problemas – prometem, mas não agem – com intuito de transformar as pessoas em escravos e de obter um consenso. Tudo isso contribuiu para enfraquecer a democracia e a liberdade dos cidadãos. Precisamos de políticas sociais que procurem reduzir essas necessidades e que ofereçam aos cidadãos condições de sobrevivência, para que a partir destas bases se possa construir uma cultura de legalidade.”