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Trabalhadores sazonais estrangeiros em Itália tratados como escravos

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Trabalhadores sazonais estrangeiros em Itália tratados como escravos

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Há um tema intocável na campanha eleitoral italiana. Mas a invisibilidade afeta dezenas de milhares de imigrantes qua trabalham nas colheitas dos campos.

Na Calabria,m verificámos o fenómeno que se repete há muitos anos mas ainda é tratado como uma emergência pontual.
É um fenómeno que se repete todos os invernos há 20 anos, mas para os trabalhadores estrangeiros que se conventram na Calabria para a apanha das laranjas as condições de vida são cada vez piores.
Três anos depois dos distúrbios, regressamos a Rosamo, onde as coisas não evoluiram..

De outubro a março são quase 4 mil, vivem em casas abandonadas ou em tendas improvisadas com plásticos. Trabalham 10 horas por dia e mantêm vivo um sector económico estrangulado pelos preços globais mediante o esclavismo.

“Vou à aventura, pois não há trabalho garantido”, diz um imigrante.

A organização Amnistia Internacional denuncia a exploração dos trabalhadores estrangeiros em Itália. Cobram menos 40% do salário mínimo estabelecido.

Mas além das más condições de trabalho, é difícil obter contratos, e ainda mais poupar.

“Trabalha-se dois dias, três não, o que se ganha , é logo gasto nos dias em que não há trabalho.”

Nesta zona da região de Calabria, a indústria da laranja sustentou grande parte da sociedade.

Na década dos 80, era um modo fácil de fazer dinheiro, com fraudes como as chamados “laranjas de papel”.

Atualmente é um setor marginal da economia global.

Neste terreno de mais de sete mil hectares produzem-se laranjas, e os de cinco mil produtores que negoceiam neste sector na Rússia ou nos Estados Unidos, têm de aceitar o preço estabelecido pelos escassos compradores: 25 cêntimos por quilo que paga Coop ou mesmo 8 que paga a companhia proprietária de Coca Bicha.

Sem a mão de obra estrangeira, a única alternativa é deixar a fruta cair, o que já sucede com frequência.

Fabio Mostaccio, sociólogo, Universidade de Messina.

Os agricultores têm de aceitar os preços estabelecidos pela indústria que não quer ir para além deste limite. Isso origina a sobreexploração dos trabalhadores estrangeiros, que já eram explorados há 50 anos e continuam a sê-lo.

Antes os trabalhadores eram locais, agora são estrangeiros.

Esta mão de obra a preço de saldo é um balão de oxigénio para a economia local e um motor indispensável para a agricultura: mas são seres humanos invisíveis e não há políticas de acolhimento para eles.

Tentam resolver os problemas sozinhos. O acampamento construido em fevereiro do ano passado foi este ano duplicado em tamanho pelo governo. Sob os plásticos havia mais de 700 imigrantes. Em dezembro, depois de uma temporada de chuva as autoridades tiveram de intervir:

Domenico Madafferi, presidente da Câmara de San Ferdinando:

“Pedi ajuda imediatamente. Escrevi ao prefeito, ao presidente da região de Calabria, a outras instituições, mas não respondeu ninguém. Não tive escolha, vi-me obrigado a encerrar o acampamento”.

Apesar da emergência humanitária, passaram dois meses até à recolha de fundos e outros meses para fazer um novo campo.

Vittorio Piscitelli, prefeito de Reggio Calabria:

“Não podíamos deixar continuar tudo na mesma durante o inverno. As tendas não estavam preparadas para o frio e colocámos as que se usam em catástrofes.”.

Sábias palavras, mas duas semanas depois o novo acampamento ainda está vazio. Não há dinheiro para a manutenção, as autoridades até pensaram em pedir 30 euros por mês a cada hóspede.

O paradoxo da situação é que o problema vai estar resolvido apenas quando acabar a temporada da colheita e os imigrantes partirem em busca de trabalho noutras terras.

Algumas ONGs criticam a forma como os poderes públicos gerem este assunto, negando o fenómeno e reagindo apenas ao que consideram situação de urgência.

Arturo Lavorato da ONG Africacalabria:

“O que não fazem são ações a longo prazo. A única obra feita é a criação de uma aldeia solidária, que é um centro enorme e muito caro, longe dos centros urbanos e que depressa se transformará em ghetto. Custa imenso dinheiro. Por esse custo podiam ter restaurado várias casas na zona”.

Até junho, quando é suposto as tendas já não estarem, os trabalhadores africanos de Rosano têm de sobreviver sozinhos, sem ajudas, sem serviços. No caso de problems de saúde ainda têm um autocarro de emergência médica.

É de uma ONG que opera no Afeganistão e Iraque.

Estes médicos acham que os 40 pacientes que vêem por dia são parte do exército de invisíveis que a europa teima em não ver.

“No setor agrícola há um exército de trabalhadores migrantes que se movem conforme a estação. Antes de virem para aqui estiveram em Puglia, na Sicília, nos tomates da Campania e vão para a Calabria.