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Roberto Maroni luta pelo norte italiano numa Europa de regiões

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Roberto Maroni luta pelo norte italiano numa Europa de regiões

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O principal aliado de Berlusconi nestas legislativas, o líder da Liga Norte, Roberto Maroni, é candidato às eleições regionais da Lombardia, mas não às gerais, que se fazem simultaneamente. Berlusconi e Maroni aliaram-se para ganhar a mais rica e populosa região de Itália, mas com a condição de que Il Cavalieri não aspire ao Palazzo Chigi e Maroni se limite à região.

Ex-ministro do Trabalho e duas vezes ministro do Interior de Berlusconi, na década de 80 fundou a Liga Norte com Umberto Bossi. Mas vários escândalos afastaram-nos e no congresso do partido em julho, Bossi passou o poder a Maroni, terminando assim com um mês de conflitos entre os dois líderes e os apoiantes.

Consciente de que as regionais na Lombardia são cruciais, pois os eleitores da região podem determinar o equilíbrio no Senado, a Liga Norte favoreceu a candidatura regional de Maroni para reaproximar o eleitorado tradicional.

Roberto Maroni, Liga Norte:

“Ser governador da Lombardia é mil vezes mais importante do que ser ministro. E digo-o por que o fui três vezes.
Não me apresento em Roma porque não quero saídas fáceis, ainda que as possa ter, mesmo porque acho que esta é a decisão justa para mim e para a Liga, porque sou um federalista convicto que defende o próprio território, Lombardia, antes de qualquer outra coisa. “

Os resultados nacionais dependem, em grande parte, da Lombardia, porque o sistema eleitoral para o Senado estipula que os votos devem contar-se para a região e para o parlamento: a eventual vitória de Maroni, como governador regional, pode traduzir-se indirectamente num Senado sem uma clara maioria.

É a razão pela qual todos os líderes nacionais se desafiaram em Milão, numa espécie de roleta russa, um jogo de eliminação, já que em paralelo, se desenrola a campanha pelas regiões muito mais civilizada.

Maroni:

“Tenho um princípio muito simples: uma pessoa para uma cadeira. Não se pode ser um bom governador na Lombardia e ao mesmo tempo, secretário da Liga. Não há tempo para fazer as duas coisas”.

Em segundo lugar, o governador da Lombardia deve ser o governador da Lombardía, não apenas de uma ala política, eu quero ser governador dos que não votaram em mim.

Por isso já o avisei: convocarei um Congresso extraordinário para que a Liga eleja um novo secretário federal”.

Maroni:

Uma coisa é certa, o partido vai ter um novo líder, porque o mesmo princípio funciona se perder: Maroni está convencido da vitória e centrou a campanha num programa ambicioso, numa aposta em tudo ou nada:

Maroni:

“Se ganhar na Lombardia vai ter início uma nova fase: uma nova trajetória que levará à realização da macroregião e a primeira peça da nova Europa das regiões. É um projecto ambicioso, que não só tem a ver com o futuro da Lombardia, mas com todo o norte. Pode mudar toda a história: a das regiões do norte e da Europa. Espero que se concretize porque, caso contrário, seria um desastre: retrocedíamos 20 anos, e não só a Liga, mas todo o norte de Itália.”

Para Maroni, o norte de Itália tem prioridade absoluta. Se a Liga Norte ganhar na Lombardía seu partido terá as riendas nas principais regiões do Norte. Seu projecto é unir numa macro-região. Mas seus planos não se limitam às fronteiras italianas:

Maroni:
“É um projecto europeu, a formação de uma euroregião padano-alpina que prevê já as quatro regiões italianas mais as regiões de outros Estados: como a Eslovénia, a Carintia, a Suíça, e uma região francesa. Esse é o modelo de euroregião que quero realizar, mas partindo de regiões italianas: as quatro regiões que, juntas, formam a macroregião do norte. Mas utilizando instrumentos europeus, porque a nossa perspectiva é a nova Europa das regiões.”

Mesmo que incluia a palavra Europa, que está a circular muito nos meios políticos italianos, este tipo de projetos não são bem vistos em Roma. Muitos partidos nacionais consideram que se trata de uma forma de secessão ‘light’ do norte.

Maroni:

“Não é uma ruptura, é uma evolução da transformação federal de Itália, que é permanente: valorizar os territórios, permitir-lhes que se autogovernem, é algo bom e democrático, vai no sentido de reconhecer a importância das regiões. É o que quer dizer macroregião. Eu falo do norte, primeiro o norte, não de Padania, porque o norte pressupõe a existência do sul e nós queremos estabelecer uma relação dialética de diálogo que pressupõe a existência de outra parte. Mas depois todos estes anos, o que dizemos é que o Norte deve pensar um pouco mais em si mesmo.”

Como em todas as separações, uma das preocupações principais, se não a maior, é relativa ao dinheiro: o projeto macroregional da Liga Norte estabelece que cada região conserve 75% dos impostos arrecadados no seu território. o significa que as ricas regiões do norte que contribuem com 60% para o PIB italiano pode fazer mais coisas do que na actualidade, enquanto as regiões com menos recursos teriam de rever as despesas:

“É dinheiro nosso, é dinheiro nosso. Se fossemos um Estado independente, teríamos 100% do nosso dinheiro, mas por agora fazemos parte de um Estado nacional, e na Lombardia ficam, atualmente, 66%, pouco mais de dois terços. Nós queremos que fiquem 75%, o que equivale a 16 mil milhões de euros a mais por ano.
Com esse dinheiro, resolveríamos todos nossos problemas, deixando às outras regiões uma parte consistente de nosso trabalho, o 25%. Com essa soma, as demais regiões devem melhorar seus resultados na despesa pública, mas é o que há que fazer.”

Maroni fez uma intensa campanha eleitoral: apareceu com frequência na televisão e na rádio, reuniu-se com diferentes atores sociais e evitou as multidões, exceto no último dia.

Registaram-se algumas frases e discursos da Liga Norte inaceitáveis na Europa. Para o novo líder da formação, na maior parte das vezes são frases tiradas de contexto ou mal resumidas, o que considera inaceitável. Reduzir a Liga ao conceito de populista não vai ser fácil.
Roberto Maroni:

“Einstein dizia que é mais fácil separar um átomo do que eliminar um preconceito. É um preconceito muito divulgado, mas absolutamente infundado: nós não somos populistas, ou apenas o somos no sentido de estarmos com o povo.

O povo é nossa força, somos um partido muito arraigado no território, como nenhum outro, presente em todas as instituições políticas do norte como nenhum outro; temos milhares e milhares de filiados, cidadãos que nos apoiam, como a nenhum outro partido…

Os que, na Europa, nos rotulam sempre do mesmo modo, venham cá passar uns dias, umas semanas, e verificarão que a realidade, felizmente, é bastante diferente do que se faz pensar na Europa.”