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Resignação de Bento XVI: "A luz e a sombra da Igreja Católica"

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Resignação de Bento XVI: "A luz e a sombra da Igreja Católica"

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Nunca me senti sozinho. Estas palavras de despedida de Bento XVI diante de 200 mil fiéis, demonstraram a solenidade e gravidade do momento. É a primeira vez em 600 anos que um Papa renuncia ao trono de S. Pedro, à liderança da Igreja Católica agora que a instituição atravessa muitos desafios. Bento XVI, com serenidade e humanidade, revelou aos fiéis os motivos da decisão que tomou: “Nos últimos meses senti as minhas forças diminuirem e perguntei a Deus, nas minhas orações, para que me iluminasse. E a sua luz fez-me tomar a decisão certa, não para meu bem mas para bem da Igreja.”

A mensagem foi entendida, mas há quem acredite que este é um sinal que está a ser dado aos cardeais que vão escolher o próxumo Papa. Uma peregrina italiana defende que “o Papa decidiu resignar porque quis deixar o lugar vazio. Estava a tornar-se muito pesado para Ratzinger. E na verdade, acredito que o Papa quis dar um sinal de que é tempo de mudar.”

Perante uma multidão de católicos e perante os cardeais, com uma grande serenidade, o Papa encontrou no Novo Testamento a imagem perfeita para descrever os últimos anos do pontificado: “Fiz uma parte do caminho da Igreja. Houve momentos de alegria e de luz, mas também momentos menos fáceis.
Senti-me como S. Pedro com os apóstolos na barca no lago da Galileia. O Senhor deu-nos dias de sol e de ligeira brisa, dias de pesca abundante. Mas houve também momentos de águas agitadas e muito vento como em toda a história da Igreja. O Senhor parecia dormir mas senti todos os dias que nesta barca estava o Senhor, senti sempre que não era eu que controlava a barca da Igreja, não eramos nós, mas Ele e o Senhor não a deixa afundar.”

Com os livros “Sua Santidade, os documentos secretos do papa” fez rebentar o caso Vatileaks e com o “Vaticano SPA” revelou muitos dos mistérios e intrigas financeiras da Santa Sé.
A euronews entrevistou Gianluigi Nuzzi, um jornalista de investigação, que criou um efeito dominó que promete não parar com a renúncia do Papa.

Manuela Scarpellini, euronews:
“Sente-se em parte responsável pelo que está a acontecer, pela renúncia do Papa?”

Gianluigi Nuzzi, jornalista:
“Não, não me sinto responsável porque o meu trabalho é informar e, de facto, só agora, após a decisão do Santo Padre de renunciar ao Pontificado, se pode ler o que está escrito nos documentos publicados no meu livro. “

Manuela Scarpellini, euronews:
“Neste estudo há duas personagens, embora muito diferentes: de um lado um mordomo, Paolo Gabriele, que lhe forneceu os documentos privados do Papa e, por outro lado, Ettore Gotti Tedeschi, ex-chefe do Banco do Vaticano. O que levou estas duas figuras a fazer as revelações?

Gianluigi Nuzzi, jornalista:
“Paolo Gabriele é um católico e um cristão, que ao longo dos últimos dez anos, soube, assistiu e descobriu vários casos que afetam a Cúria, incluindo casos graves. Falamos de carros cravados com balas, suicídios estranhos.

Paolo Gabriele queria ajudar o Santo Padre, que ama, e por isso decidiu tornar públicos estes dramas da Cúria Romana.

Por outro lado, Gotti Tedeschi, presidente de um banco, o banco apenas do Estado do Vaticano, que um dia entregou à sua secretária três envelopes, com três documentos e disse: “Se me matarem entrega estes documentos às pessoas referidas nos envelopes”

Manuela Scarpellini, euronews:
“O choque de demissão, o “ motu proprio “, a exclusão de um cardeal acusado de assédio sexual pouco antes do conclave. O Papa Bento XVI acaba por deixar um último sinal?”

Gianluigi Nuzzi, jornalista:
“Este Papa é um conservador, mas não no sentido político ocidental, mas no sentido profundo do cristianismo, do Evangelho.
O Papa, é claro, dentro dos limites do mundo contemporâneo, recupera as raízes dos dogmas, a palavra do Evangelho. Mas quando aparece um cardeal indigno, e não só, o Papa diz que “em relação aos pedófilos, não se pode esperar pela vontade de Deus, pela justiça divina – tal como acontecia até agora com a pedófilia-
devemos recorrer aos tribunais civis, temos de compensar as vítimas”.
Este Papa é um pastor revolucionário, que de alguma forma deixa um testemunho importante para o Conclave e a esperança de que não se escolha um Papa apenas por ser mediático, talvez um Papa negro, ou brasileiro, africano ou filipino. Porque haverá muitos conformistas que vão dizer: “Finalmente, o primeiro papa negro na história da Igreja.”