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Chegou a vez de Chipre

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De  Euronews
Chegou a vez de Chipre

<p>Os cipriotas estão preocupados e confundidos: deixou de ser possível retirar dinheiro nos multibancos e os bancos não lhes devolvem as poupanças depositadas. Pela primeira vez, um plano de resgate da União Europeia afeta todos os titulares de contas bancárias.</p> <p>O país cruzou a linha vermelha ao aplicar as mesmas medidas a contas de investimento e de pequenas poupanças, mas o governo defende-se e justifica que, sem o plano de resgate, o sistema financeiro da ilha ia entrar em colapso e o país entrar em falência.</p> <p>O problema é que, tanto os grandes como os pequenos, vão ser afetados pela medida, tal como os titulares de contas conjuntas.</p> <p>Enquanto se esperam novas medidas, Chipre vai receber 10 mil milhões de euros da UE e do <span class="caps">FMI</span> que, por sua vez, exigem a Chipre a aplicação de um imposto de 6,75% às contas até 100 mil euros e de 9,9% às contas superiores a 100 mil euros. Com esta medida o governo cipriota espera arrecadar 5,8 mil milhões de euros.</p> <p>Mas não é tudo. O plano prevê um aumento do imposto sobre as empresas, que era um dos mais baixos na União Europeia, e que agora passa de 10% para 12,5%, como na Irlanda.</p> <p>O pacote de medidas não afeta apenas os cipriotas, mas todos os residentes na ilha, entre eles numerosos russos. Oficialmente são cerca de 8 mil, mas há muitos mais oficiosamente. </p> <p>O dinheiro russo tem sido um maná para os cipriotas. Só que a União Europeia acredita que a ilha está a ser utilizada para lavagem de capitais russos. </p> <p>A agência Moody’s calcula que hja 19 mil millões de dólares de empresas russas depositados no Chipre. A esta quantia juntam-se 12 mil milhões de dólares de empresas russas sediadas em Chipre. </p> <p>Para alguns, o objetivo é sancionar um paraíso fiscal, por mais pequeno que seja, em pleno coração da zona euro. E é pouco provável que Chipre continue a ser uma praça financeira tão atrativa depois do resgate.</p> <p>Até agora, 27 mil milhões dos 70 mil milhões de dólares guardados em depósitos bancários cipriotas eram de estrangeiros.</p> <p>Para abordar o plano de resgate a Chipre, a euronews falou com Maria João Rodrigues, professora no Instituto de Estudos Europeus em Bruxelas e conselheira junto das instituições europeias.</p> <p>Fréderic Bouchard, euronews: Pela primeira vez num plano de resgate, os depositantes bancários têm de contribuir. A União Europeia quebrou um tabu?</p> <p>Maria João Rodrigues, conselheira nas instituições europeias: Penso que é preciso recordar que a União Europeia adotou o princípio, bastante claro, de proteção dos depositantes até 100 mil euros. É um princípio claro que foi definido após a crise financeira de 2008, para prevenir os efeitos de contágio do que chamamos a falência do Lehman Brothers. Na minha opinião é preciso respeitar esse princípio. </p> <p>euronews: Não há o risco de contágio na zona euro?</p> <p>M. J. Rodrigues: O risco de contágio é limitado porque estamos num caso de pequena dimensão. Mas de qualquer forma, é preciso que as autoridades europeias digam claramente que vai ser respeitado o princípio adotado de proteção dos pequenos depositantes. É preciso recordar que é um princípio chave da construção da União bancária em curso. É mais uma razão para evidenciar esse princípio de proteção dos pequenos depositantes na Europa. </p> <p>euronews: Chipre representa 0,2% do <span class="caps">PIB</span> europeu, ou seja, muito pouco. Vamos emprestar dez mil milhões de euros. Este acordo não é um sinal de que a zona euro, em especial, a Alemanha está farta de dar dinheiro e quer que os Estados membros enfrentem as suas responsabilidades?</p> <p>M. J. Rodrigues: Penso que Chipre precisava realmente deste empréstimo europeu, para controlar os riscos de derrapagem e de crise mais graves. Mas deve ser feito com base em condições que tornem os cipriotas também responsáveis. É preciso pedir um esforço também ao país. Vamos pedir o esforço aos pequenos depositantes cipriotas ou aos grandes? Vamos pedi-lo aos depositantes não cipriotas? Vamos pedi-lo aos grandes depositantes que não pertencem à União Europeia, ou seja, aos depositantes russos? </p> <p>euronews: Justamente. Evocou os ativos russos. Fala-se de somas de 15 a 20 mil milhões de euros e nem todo o dinheiro é legal. Não é uma forma da zona euro limpar o sistema bancário cipriota?</p> <p>M. J. Rodrigues: Sim, penso que este empréstimo a Chipre deve ser utilizado para tornar os bancos cipriotas mais transparentes. Na minha opinião, não é bom usar os bancos da zona euro para dar um serviço financeiro que não é claro aos depositantes russos. É preciso clarificar isso. Mas, repito, que isso é, na minha opinião, uma questão a clarificar.</p> <p>euronews: As bolsas estavam em queda após este acordo. Não devemos temer o ressurgimento da incerteza nos mercados financeiros europeus após semanas de estabilização?</p> <p>M. J. Rodrigues: Sim, penso que o problema pode surgir. Repito que estamos face a um problema económico e financeiro de pequena dimensão, mas é necessário estarmos atentos aos efeitos de contágio psicológico em torno do aspeto sensível da proteção das pequenas poupanças. Do meu ponto de vista, é preciso uma mensagem clara e o mais depressa possível por parte das entidades europeias, a começar pelo Banco Central Europeu.</p>