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Chipre e Rússia, a possibilidade de uma nova geoestratégia

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Chipre e Rússia, a possibilidade de uma nova geoestratégia

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A situação financeira do Chipre, está em debate em Moscovo. A ilha europeia está dividida entre a União Europeia e a Rússia, que pode ter a solução para os problemas financeiros, o que está a escandalizar os parceiros europeus. A chanceler alemã deixou claro que se o Chipre se vender aos russos, terá de sair do Euro.

A pressão alemã para a aplicação da medida é vista, a nível internacional, como mais um sinal de que a chanceler Angela Merkel continua a não perceber que o apoio aos países em dificuldades com condicionantes graves para as populações pode voltar-se contra a Alemanha.

E Nicosia tem poucas alternativas. Depois da rejeição pelo Parlamento do plano de resgate da UE, o país tem de procurar soluções, mas se estas passarem por Moscovo, os europeus vão ter de discutir novas alternativas e dar mais opções. Para os russos instalados no Chipre, a escolha é clara:

“ Acho que o Chipre tem de ter mais cuidado, porque a União Europeia, financeiramente falando, não é tão fiável como a Rússia. Vivo aqui há muito tempo e há muitos russos aqui, que pensam como eu.”

Não há um levantamento oficial sobre os residentes russos em Chipre, mas algumas cidades como Limassol foram completamente colonizadas por russos.
Só os residentes nesta cidade podem perder entre 2 mil e 3 mil milhões de euros, se o plano da UE for aceite.

A proprietaria de um supermercado dá voz à revolta.

“O nosso país é Chipre. Para nós é o nosso país. Vivo aqui há 16 anos, mas este país decepcionou-nos, roubou-nos o dinheiro. Sim, roubou-nos. Tal igual. Não era dinheiro do Chipre, trouxemo-lo nós, não o ganhamos aqui”

Chipre é o primeiro destino da fuga de capitais russos. Calcula-se que o montante ascende a quase 43 mil milhões de euros, 27 mil milhões dos quais procedem de transferências irregulares.

Financeiramente os dois países estão estreitamente unidos: a Rússia representa um terço dos investimentos estrangeiros em Chipre, o que representa somas colossais que fazem o caminho inverso quando se trata das utilizar. De facto, o 20% dos investimentos exteriores em Rússia procedem de Chipre.

Zsolt Darvas, Research Fellow, Bruegel Institute:

“No fim, o Chipre e os parceiros europeus vão ter de chegar a um acordo, a não ser que Rússia decida comprar a ilha inteira. A questão chave é como distribuir estas perdas. A Rússia podia assumi-las e ganhar mais influência política e económica, por exemplo sobre as jazidas de gás descobertas no Chipre.”

A jazida Leviathan, entre a costa israelita, libanesa e cipriota, é um novo motivo de conflito com Turquia. Daí o receio que aos problemas financeiros se acrescente um conflito geoestratégico.

Se o país sair da Zona Euro, o mais caricato será que, depois de outras ameaças mais sérias, o euro pode cair noutros países do sul da Europa, por causa de Chipre e de cinco mil milhões de euros.