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Chipre: A solução menos má

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Chipre: A solução menos má

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Chipre evita a falência, mas a fatura é pesada.

Nicósia teve de aceitar privatizações e o aumento do imposto sobre as empresas de 10% para 12,5%, mas acima de tudo vai ter de liquidar o segundo maior banco do país e impor perdas aos depositantes mais ricos, acionistas e obrigacionistas.

Só o encerramento do Banco Laiki vai representar milhares de despedimentos. Com a liquidação do banco, os depósitos até cem mil euros serão transferidos para o Banco de Chipre e as contas com mais de cem mil euros ficam congeladas num banco de ativos tóxicos, designado “bad bank”.

Pela primeira vez na crise do euro, os depositantes com mais de cem mil euros vão contribuir para o resgate, através da imposição de perdas que, segundo o porta-voz do governo, podem rondar os 30%. Já os acionistas e detentores de obrigações dos dois grandes bancos irão perder todo o investimento.

Chipre compromete-se também a lutar contra o branqueamento de capitais, em função da auditoria que será realizada.

Para analisar o acordo, a euronews falou com Daniel Gros, diretor do Centro de Estudos Políticos Europeus (CEPE), em Bruxelas.

O resgate aos bancos de Chipre


  • O resgate vai implicar uma reestruturação importante do setor bancário de Chipre.

  • O segundo maior banco do país, o Laiki, vai ser dividido em dois – com uma nova instituição a ficar com os “ativos tóxicos” – e, de seguida, desmantelado.

  • Os depósitos inferiores a 100 mil euros, que estão garantidos pelas leis europeias, vão ser transferidos para o Banco de Chipre, o maior do país.

  • Os depósitos superiores a 100 mil euros, que não estão garantidos, vão ser transferidos para a instituição criada para absorver os ‘ativos tóxicos’, com perdas significativas para depositantes e acionistas em resultado do processo de liquidação do banco Laiki.

  • Os depósitos na instituição que vai gerir a massa falida – e os superiores a 100 mil euros no Banco de Chipre – vão ser congelados e utilizados para pagar as dívidas do Laiki e para recapitalizar o Banco de Chipre. As perdas para estes depositantes podem atingir os 40%, segundo algumas fontes.


Isabel Marques da Silva, euronews: Os mercados reagiram positivamente ao acordo de Chipre, apesar do facto sem precedentes de que um de seus bancos será desmantelado, o que parecia inaceitável até agora. Qual é a lição que se tira deste acordo?

Daniel Gros, DG/CEPE: Acho que as pessoas já se acostumaram à ideia de que se um banco tem problemas, estes devem ser resolvidos pelos credores e não tanto pelo governo. Este princípio foi agora estabelecido, acho que faz sentido e os mercados reagiram muito bem.

euronews: O governo de Chipre não pôde evitar importantes perdas para os grandes investidores privados, nomeadamente os russos. Mas tendo em conta que existem outros pequenos países com situações semelhantes – caso do Luxemburgo ou da Eslovénia -, o risco de contágio ainda permanece?

D. Gros: Não, o risco de contágio deverá ser bastante limitado. O caso de Chipre era realmente único em vários aspetos. O Luxemburgo também tem bancos muito grandes, mas com uma diferença crucial: os bancos no Luxemburgo são todos propriedade de outros bancos da zona euro. Logo, o governo do Luxemburgo nunca será responsável por qualquer coisa semelhante que aconteça. Os aforradores em grandes países, tais como a Itália ou a Espanha, não devem temer nada e, portanto, não deverá ser perceptível qualquer contágio.

euronews: De qualquer forma, se é uma boa solução para a zona euro, pode ser muito difícil para as pessoas e para a economia de Chipre. Na verdade, todos os líderes da “troika” disseram que são esperados desemprego, recessão, austeridade. Ou seja, o modelo alemão prevaleceu mais uma vez?

D. Gros: Esta foi, se quiser, a solução menos má que o povo de Chipre poderia esperar. Porque, com as perdas a serem suportadas pelos credores dos bancos, isso significa que povo de Chipre não terá que pagar mais impostos para as compensar. Que a economia iria afundar, que haveria perda de emprego, já sabíamos. Mas isso é inerente ao fato de que o modelo de negócio de Chipre foi destruído e Chipre levará um longo tempo para o ultrapassar.

euronews: De qualquer forma, vemos pessoas zangadas nas ruas e vimos que o discurso antialemão voltou a estar em ascensão…

D. Gros: Penso que a maior responsabilidade por isso pertence ao governo de Chipre, que descreveu o governo alemão e a troika como os “maus da fita”, que queriam impor prejuízos ao povo de Chipre, quando na verdade aconteceu o oposto.

euronews: Quer dizer que o acordo poderia ter sido alcançado na primeira reunião do Eurogrupo, sem todo o drama e as dificuldades posteriores?

D. Gros: Foi necessário fazer algum teatro, para que Chipre pudesse clamar: “Sim, podemos dizer não!”. E, de facto, o Parlamento de Chipre mostrou que podia dizer não. Mas disse-o e depois pensou: “Hum, se fizermos isto, o custo para a nossa economia será extremamente alto”. E, no final, acabaram por concordar com uma solução que mantém os danos no mínimo.

euronews: Pensa que este acordo é também importante em termos da futura união bancária e da forma como os contribuintes vão analisar o resgate de bancos no futuro?

D. Gros: No futuro, o BCE será responsável pela supervisão. Vai ter todas as informações detalhadas que é preciso ter quando se faz uma negociação como esta. A informação estará disponível para a troika e, portanto, poderá dizer: “sob estas condições, podemos seguir com o projeto de união bancária porque os perigos para os contribuintes são muito limitados”.