Última hora

Última hora

Chipre ainda longe do alívio

Em leitura:

Chipre ainda longe do alívio

Tamanho do texto Aa Aa

Na espécie de novela que é a definição de um pacote de resgate para Chipre, e que ainda se desenrola, tem sido questionado o papel do recém empossado presidente do Eurogrupo. Jeroen Dijsselbloem assumiu a ideia da taxa sobre os pequenos aforradores, na primeira proposta, que seria rejeitada.

Sobre a segunda proposta disse a um jornal que era um exemplo para o futuro, retratando-se poucas horas depois. Uma porta-voz da Comissão Europeia reafirmou que esta não era a nova política.

“Consideramos que foi encontrada a solução certa para o caso específico de Chipre, mas isso não significa que seja um modelo perfeito ou que deva ser reutilizada no futuro”, disse Chantal Hughes.

O jovem ministro das Finanças holandês até pode ser o rosto do Eurogrupo, mas as duras negociações foram, sobretudo, levadas a cabo pelos presidentes do Conselho Europeu, do BCE e do FMI.

O diretor do Centro de Estudos de Política Europeia, Daniel Gros, diz que não se deve esperar mais de Dijsselbloem: “Ao Eurogrupo cabia receber as instruções que vinham de cima e teve que esperar muito tempo por elas. Nesse contexto difícil, penso que o seu presidente fez um bom trabalho”.

A correspondente da euronews em Bruxelas, Efi Kotsukosta, entrevistou Alekos Michaelides, professor de Finanças na Universidade de Chipre. O especialista acompanhou o Presidente Nikos Anastasiades durante as negociações em Bruxelas que resultaram no acordo de resgate.

Efi Kotsukosta/euronews (EK/euronews): O acordo final foi conseguido ao mais alto nível, cabendo apenas ao Eurogrupo a aprovação formal. Pensa que a Europa falhou na gestão da crise de Chipre, tendo em conta o fiasco da primeira decisão do Eurogrupo e uma segunda proposta muito dura para Chipre?

Alekos Michaelides/Universidade de Chipre (AM/Universidade de Chipre): A crise começou com a decisão de obrigar os credores privados a pagarem parte da dívida, causando enormes problemas aos bancos. Com essa decisão, o sistema bancário ficou inoperacional por uma semana. Com o novo acordo, esperamos conseguir sair desta crise.

EK/euronews: O ministro das Finanças alemão disse que Chipre ainda corre o risco de entrar em falência. Pensa que é uma forma de pressão, de modo a poder exigir medidas adicionais no futuro?

AM/Universidade de Chipre: Concordo com a sua avaliação. A situação está muito difícil porque, em primeiro lugar, temos que evitar uma corrida aos bancos e, em segundo lugar, vamos enfrentar uma quebra na produção nacional. Essa quebra vai fazer aumentar o peso da dívida em relação ao PIB. Veremos como é que o governo vai gerir este cenário económico nos próximos meses.

EK/euronews: Acredita que a Europa está a punir Chipre por ter rejeitado a primeira proposta do Eurogrupo?

AM/Universidade de Chipre: Por um lado, sim, porque esta solução é mais difícil de executar do que a anterior. A questão mais difícil é a transferência da dívida do Banco Laiki para o Banco Central de Chipre, que é criticada por muita gente.

EK/euronews: Quais serão as consequências de tudo isto? Perda de empregos?

AM/Universidade de Chipre: Haverá de imediato um pequeno aumento de desemprego, porque se criou um banco bom e outro mau. No caso do Laiki, que é o mau, haverá desemprego.

EK/euronews: Já foi definido o imposto a pagar pelos clientes do Banco Central de Chipre que têm depósitos acima dos 100 mil euros?

AM/Universidade de Chipre: Ainda não está decidido. É uma parte das negociações entre as duas partes e talvez venhamos a saber na próxima semana.

EK/euronews: O presidente do eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, disse que esta solução poderia ser utilizada para outros países. Pensa que Chipre foi uma espécie de cobaia para as instituições europeias?

AM/Universidade de Chipre: Cobaia talvez seja uma palavra dura, mas é óbvio que quando um banco perde dinheiro, alguém arca com os prejuízos. Em primeiro lugar os que têm ações, depois os que têm obrigações e agora os que têm depósitos. Mas é importante que os clientes com depósitos abaixo de 100 mil euros estejam protegidos.

EK/euronews: Está previsto que os bancos reabram na quinta-feira. O que vai acontecer? Qual é o plano do governo para evitar uma corrida para retirar dinheiro dos bancos?

AM/Universidade de Chipre: É algo que está em discussão, mas ainda não há nada de novo a anunciar. Penso que deve ficar muito claro o que cada pessoa pode fazer quando os bancos reabrirem.

O resgate aos bancos de Chipre


  • O resgate vai implicar uma reestruturação importante do setor bancário de Chipre.

  • O segundo maior banco do país, o Laiki, vai ser dividido em dois – com uma nova instituição a ficar com os “ativos tóxicos” – e, de seguida, desmantelado.

  • Os depósitos inferiores a 100 mil euros, que estão garantidos pelas leis europeias, vão ser transferidos para o Banco de Chipre, o maior do país.

  • Os depósitos superiores a 100 mil euros, que não estão garantidos, vão ser transferidos para a instituição criada para absorver os ‘ativos tóxicos’, com perdas significativas para depositantes e acionistas em resultado do processo de liquidação do banco Laiki.

  • Os depósitos na instituição que vai gerir a massa falida – e os superiores a 100 mil euros no Banco de Chipre – vão ser congelados e utilizados para pagar as dívidas do Laiki e para recapitalizar o Banco de Chipre. As perdas para estes depositantes podem atingir os 40%, segundo algumas fontes.